Flor de Obsessão 2
Nelson Rodrigues
- O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca.
- A morte de um velho amigo é uma
catástrofe na memória. Todas nossas relações com o passado ficam alteradas.
- O amigo é um momento de eternidade.
- O asmático é o único que não trai.
- Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de
si mesma.
- O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.
- O que atrapalha o brasileiro é o
próprio brasileiro. Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse
do brasileiro.
- Não admito censura nem de Jesus Cristo.
- Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.
- Deus só freqüenta as igrejas vazias.
- Copacabana vive, por semana, sete domingos.
- Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não
perca tempo, minha senhora!
- A fome é mansa e casta. Quem não come não ama, nem
odeia.
- Todo ginecologista devia ser casto. O
ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um são
Francisco de Assis, com a luva de borracha e um passarinho em cada ombro.
- A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.
- No passado, a notícia e o fato eram
simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar na página do jornal.
- Não reparem que eu misture os
tratamentos de "tu" e "você". Não acredito em brasileiro sem erro de
concordância.
- Nossa ficção é cega para o cio
nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.
- Os magros só deviam amar vestidos, e nunca no claro.
- Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma
cretina, quando tem um filho, melhora.
- O cardiologista não tem, como o
analista, dez anos para curar o doente. Ou melhor: dez anos para não curar.
Não há no enfarte a paciência das neuroses.
- Não há ninguém mais vago, mais irrelevante, mais
contínuo do que o ex-ministro.
- Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.
- O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de
amor. Hoje, o Natal é um orçamento.
- Enquanto um sábio negro não puder ser nosso
embaixador em Paris, nós seremos o pré-Brasil.
- Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou,
nem sabe o que é amar.
- Se eu tivesse que dar um conselho,
diria aos mais jovens: não façam literatice. O brasileiro é fascinado pelo
chocalho da palavra.
- Qualquer menino parece, hoje, um experimentado e
perverso anão de 47 anos.
- Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais
doce político, tenha senso moral.
- Quero crer que certas épocas são doentes
mentais. Por exemplo: a nossa.
- Sexo é para operário.
- Morder é tara? Tara é não morder.
- Todo tímido é candidato a um crime sexual.
- Só há uma tosse admissível: a nossa.
- Desconfio muito dos veementes. Via
de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.
- Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a
multicolorida variedade do vigarista.
Frases selecionadas e organizadas por Ruy Castro, extraídas do livro "Flor de
Obsessão", Cia. das Letras - São Paulo, 1997, págs. diversas.
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