Pau no burro
Nei Lopes
Foi
nos anos 70, numa daquelas primeiras eleições depois da Redentora. O
pessoal lá de casa tinha um bloco invocado — o Bloco do Rascunho, de
saudosa memória — pequenininho e coisa e tal, mas com um time de
compositores da pesada, e com uma bateria que eu vou te contar
Basta dizer que tinha até violão, trombone e cavaquinho, coisa que o
pessoal lá de casa, modéstia à parte, sempre bateu bem; e o conceito
de harmonia do nosso pessoal era tão amplo e irrestrito que chegava
até num simples bloco de sujo.
Época de eleição, você sabe como é que é, né? Escola de samba,
bloco, afoxé, maracatu, bumba-meu-boi, começa tudo a ser solicitado
pela mídia. Ou você não reparou isso, nos vídeos dos partidos
políticos, aquela montoeira de crioulo, paraíba, amarelinho, sem
dente, barrigudo, olho inchado de tomar cana, tudo sorrindo na
televisão?!
Foi assim que o Bloco do Rascunho "assinou" seu primeiro contrato.
Fomos chamados pra animar uma festa de um trio de políticos da
antiga. Nelson, Danton e Farah (o jingle tocava no rádio
pra cacete!), que nada menos eram que o Cameiro, o Jobim e o
Benjamin — o que talvez, em termos de rima fosse até melhor.
Num ensolarado domingo de outubro, pontualmente às 10 da matina, lá
chegaram os três ônibus (o bloco era piquititinho, eu já disse) pra
pegar a gente. A festa, depois eu soube, era na rua da Constituição,
ali perto da Praça Tiradentes, na Associação dos Baianos.
No fundo, no fundo, a turma estava era curtindo um grande
piquenique. Tanto que as coroas encheram as bolsas de pastel,
empadinha, sanduíche de carne de porco, galinha assada e o escambau
— afinal de contas, pensavam elas sabiamente, é sempre bom a gente
se prevenir.
Da minha parte, eu, como responsável pela harmonia, recomendei à
rapaziada: —Todo mundo de calça branca, quem tiver blusão da cor do
bloco, veste; e, principalmente, nada de encher o pote antes da
hora; cigarro, só o social; e, as meninas, uma casquinhazinha de
gengibre pro gogó ficar legal!
O pessoal era família (minha família, aliás), então deu tudo certo.
Meio dia em ponto os ônibus estavam descendo a rua, pegando a
Avenida Brasil e em pouco mais de meia hora (era domingo) a gente
estava chegando na rua da Constituição.
A Associação dos Baianos era num daqueles sobrados do Rio antigo. E
já do Campo de Santana a gente ouvia a música. Só que era uma música
esquisita, com violinos, um troço assim feito um minueto.
Os ônibus estacionaram, a gente foi saltando, escabriado, sem
entender nada, quando um negão tipo armário (um clássico cabo
eleitoral) daqueles tempos, chegou e mandou, curto e grosso:
— O negócio é o seguinte: esses caras estão aí tocando só pra encher
lingüiça, só enquanto vocês não chegavam. E a parada agora é esta:
vocês já sobem a escada arrebentando, com o samba mais quente que
vocês tiverem. Eu quero ver esses sinfônicos de merda botar os
violinos no saco. Simbora! Pau no burro!!!
Eu achei aquilo uma tremenda falta de educação, uma tremenda
sacanagem, e ainda tentei argumentar com o negão. Mas, sabe como é
que é, né? Se tu visse a cara dele!... Então, só me restou a alternativa de mandar o Tonga arrumar, mais ou
menos, os naipes da bateria; o Dica riscar um sol maior no
cavaquinho; o Gimbo fazer a introdução no trombone; e o Zeca abrir
aquele vozeirão, no nosso samba mais animado, da lavra do grande
Orlando Sobral:
Eu sou o Rascunho
pra quem não me conhecia
pra quem me conhece, bom dia peço
peço licença pra chegar...
Foi um desbunde! O som daquela tremenda bateria invadiu o velho
sobrado, deu a volta pelo teto, e foi acordar as cutias do Campo de
Santana e os pombos doentinhos da Praça Tiradentes. As baianas da
Associação, tudo cheia de guia no pescoço, e com aqueles tundás
maravilhosos, caíam na batucada. O pessoal do cais dava pernada um
no outro, num delírio de prazer. E os violinistas, coitados,
desarmavam as estantes, botavam os instrumentos no saco, e iam
saindo de fininho, com aquelas caras de gueto de Varsóvia — aliás,
eu sempre disse que o nosso Holocausto foi muito mais animado que o
deles.
Depois de duas horas de samba sem parar, começaram a servir o rango.
Tinha caruru, vatapá, acarajé, xinxim de bofe, moqueca de fato,
moqueca de siri mole, tudo preparado com carinho pelo Tião
Motorista, misto de sambista, cozinheiro e condutor autônomo de
veículos que a Bahia em boa hora mandou aqui pra gente.
Com aquele aroma embriagador, a bateria parou de estalo, nossa
rapaziada querendo é sujar a tripa, naquele apoteótico congraçamento
político-partidário. Cada um de nós, então, foi encostando os
instrumentos num canto e entrando na fila.
Nesse lance, o pessoal das cordas eruditas que já tinha almoçado
(violinista almoça muito cedo!) começou a armar as estantes outra
vez. E, num instante, já estavam metendo bronca naquela peça de
Mozart... como é mesmo o nome? Ein nacht klein qualquer coisa de
musik (certo, professor José Alves?). Tudo numa tremenda animação.
Mas aí — pasmem, leitores! — sabem quem é que estava lá, tocando
violino com um sorriso deste tamanho? Quem? O negão que recebeu a
gente.
Era o dono da festa, se chamava Renaud, e tocava no Teatro
Municipal.
Nei Lopes (1942) é escritor, compositor, pesquisador das
culturas da Diáspora Africana, advogado, e mora em Vila Isabel, Rio
de Janeiro. Além dos sambas deliciosos e de grande sucesso que fazem
a alegria dos nossos ouvidos é defensor e ativo participante do
movimento pela igualdade de direitos da raça negra. Colabora com
crônicas para jornais e revistas cariocas.
Texto extraído do livro “171 — Lapa-Irajá – Casos e enredos do
samba”, Edições Folha Seca – Rio de Janeiro, 1999, pág.87. [ Voltar ]
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