Água de Cuíca

Nei Lopes


Nelsinho Leiser é um tremendo cuiqueiro. E no ano passado recebeu um convite pra ir à Alemanha com a bateria de sua escola.

— Alemanha... gringo... legal! Vou descolar uns dólar nessa viagem! Pensou longe o Nelsinho. E aí embarcou pra terra de Schumacher levando umas quinze cuícas sobressalentes: — É estepe... mandou na alfândega, na maior cara de pau. O federal achou engraçado e refrescou.

Em Frankfurt, depois de muito chope preto com lingüiça branca, Nelsinho botou pra quebrar: solou o hino do Flamengo, deu gargalhada, tocou o Brasileirinho, tudo isso numa das cuícas que levou pra vender.

Os gringos ficaram malucos e acharam que era mole. Aí Nelsinho vendeu uma, duas, três... as quinze. A preço de salsicha: 2 marcos cada uma.

Só que os quinze gringos esfregavam, esfregavam e não saía nada. Então, começaram a se encrespar, achando que tinham sido vítimas de um logro.


Foi aí que o Nelsinho Leiser deu o golpe de misericórdia:

— Calma, calma! – É que tem que molhar o pano.

— Com água comum? — pergunta um dos gringos, através de um intérprete brasileiro.

— Não, não! Tem que ser água de cuíca.É  um preparo especial que faz elas até falar Eu tenho aqui...

Vendeu 15 vidrinhos no ato. A 500 marcos cada um.


Nei Lopes (1942) é escritor, compositor, pesquisador das culturas da Diáspora Africana, advogado, e mora em Vila Isabel, Rio de Janeiro. Além dos sambas deliciosos e de grande sucesso que fazem a alegria dos nossos ouvidos é defensor e ativo participante do movimento pela igualdade de direitos da raça negra. Colabora com crônicas para jornais e revistas cariocas.

Texto extraído do livro “171-Lapa-Irajá”, Ed. Folha Seca – Rio de Janeiro, pág. 41.

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