O homem que sabia baianês
Nei Lopes
O grande lance de Jean-Jacques René foi sempre o seu espírito aventureiro, sua sede de
novas experiências. Foi assim que, diploma da Sorbonne (antropologia social) na mala, um
passaporte diplomático armado por uma bicha estelionatária sua amiga, máquina
fotográfica a tiracolo, ele zarpou do Havre pra Bahia.
Salvador naquela época ainda era uma
província. E aquele lourão de barba, simpático, falando francês, virou logo a
sensação do Pelourinho e adjacências. E, assim, era visto, sempre, comendo lambreta com
Carybé; aprendendo uns aús com Mestre Pastinha; tocando berimbau com Camafeu; preparando
a massa pra Maria de São Pedro fritar o acarajé; tocando um violão com Caymmi; dando
seus escritos pra Jorge ler e elogiar.
Seu professor de gramática era o Major
Cosme de Faria; e de samba era Batatinha que Ederaldo e Edil, naquele tempo, ainda
nem pensavam em nascer.
Com um ano de Bahia, Jean-Jacques René
já era ogan de um candomblé famoso. E, dali a mais um tempo, já sabia tudo sobre os
orixás jeje-nagôs. E tudo isso sempre com uma aplicação de seminarista: anotando tudo,
relendo, corrigindo, acrescentando, gravando cada cantiga ritual e conferindo num
dicionário de iorubá que tinha trazido da França; colecionando cada miçanga, cada
alguidar, cada agogô, que encontrasse pelo caminho; e, sobretudo, fotografando,
fotografando muito. Mas muito mesmo.
Mas o que ninguém sabia (ou, se sabia,
não ligava) é que, de todo esse material, o Jean-Jacques tirava cópia e mandava pra
Paris. Mandava pras gravadoras, que metiam lá um arranjo, uma letra em francês, e
lançavam em disco. Mandava pras editoras, que editavam. Mandava pros museus, que expunham
como arte naïf, authentique essas coisas de viado.
Depois de vinte, trinta anos nessa vida,
era um verdadeiro baiano o Jean-Jacques René. E rico, muito rico. Só que um dia sujou.
Sei lá o que que o Jean-Jacques falou ou escreveu contra o Malvadeza, que a coisa ficou
feia: o nosso francês foi alvo de uma tremenda campanha de descrédito (dizem que a DM-9
foi que bolou), sua barra foi ficando cada vez mais pesada, até que ele virou um gás,
tomou doril, sumiu.
* * *
Os anos 90 vão encontrar o René matando
cachorro a grito, tomando cana o dia inteiro nas tendinhas da Praia de Mauá, em Imbariê,
na Baixada, e deixando os pé inchados tudo de boca aberta:
É... esse gringo pode ser viado,
mas ele sabe das coisas! Porque, de fato, ele era danado. Falava de tudo, dava receita,
jogava búzios, conhecia tudo quanto era erva... Só não conseguia era ganhar dinheiro.
Mi jogarram um ebô brrabo...
pensava ele, fatalista. Mas não tem bem que não se acabe nem tem mal que sempre dure. E
a salvação da lavoura veio num anúncio de jornal, que ele encontrou no balcão da
tendinha:
"REDATOR, 2° CADERNO Jornal
de grande circulação precisa, para sua editoria de música popular, redator que saiba
falar e escrever em baianês. Não precisa ser baiano nato. Comparecer. .."
De cara, o Jean-Jacques não entendeu
direito. Mas, inteligente como era, sacou logo que os segundos-cadernos dos jornais,
naquele tempo, quando o assunto era música (e música era o filé) eles só queriam saber
de músico baiano. E, aí, com um redator "de casa", ou "da área",
ficava mais fácil.
Foi assim que o Jean-Jacques mandou fazer
umas trancinhas rasta no cabelo (depois fez um coque atrás), vestiu uma saia indonésia
por cima da calça surrada de moletom, encarou quase duas horas de ônibus, saltou no
terminal Américo Fontenelle... e uns quinze minutos depois fazia sua entrada triunfal na
redação:
Diga aí, meu rei!
?! Pois não!? Quem deseja?
Quem atendeu foi um estagiário gracinha,
estudante da PUC. De rabo de cavalo também, mas de suspensório e gravata estampada, o
rapazinho não estava entendendo nada.
Óxente, seu mano!? É sobre o
anúncio de rédator!
Ah, sim!!!
Agora as coisas começavam a se
esclarecer. Mas o estagiário resolveu tirar um sarro com o franco-baiano:
É que o editor está viajando
e...
E o subiéditor?
Está numa reunião de pauta.
E quem é que manda nesta zorra?
Vendo que o Jean-Jacques estava ficando
vermelho, o efebo da PUC botou as barbas de molho.
Rumbora lá, então, mano velho!
Eu tô numa pindaíba da porra!
Mas é que o senhor... não tem
mais idade... pra mpb, essas coisas. O sonho já acabou!
Ah! Pra quê?! O francês, que já tinha
tomado umas três lá na esquina, antes de subir, não agüentou a desfeita e,
literalmente, rodou a baiana (ou a indonésia):
Qual é, xibungo? Tá procurando
frete comigo? De hoje que eu tô te filmando! Eu lhe dei ousadia, por acauso? Se respeite,
homem!
O rapazinho da PUC se assustou:
Não se trata disso! Sente aí, e
se acalme, meu senhor!
Jean-Jacques René pensava alto:
Ô sujeitinho mais
descompreendido, seu! Então, eu me pico de lá de Imbariê, que é longe como um corno,
me lenho numa marinete mais de duas horas, e chego aqui...
Espere, amigo, eu tenho uma
informação sobre o anúncio.
Óxente, sujeito! Só se for
agora! Mas ói sua vida, hein! Não vá me retar que eu lhe passo a porra, uviu?
Aí o estudante foi explicando: que, de
fato, o anúncio era verdadeiro; que o René tinha, de fato, o perfil do profissional que
o jornal queria; que ele, de fato, dominava muito bem o baianês; que o seu currículo era
perfeito...
...só que, hoje em dia, nestes
tempos macluhanianos, as coisas mudam muito rápido... e ontem à tarde chegou aqui na
redação um e-mail, lá de Los Angeles, dizendo pra gente reformular tudo, que a moda
deste verão é música gaúcha.
Jean-Jacques René virou no Santo (de
grupo) ali mesmo. E, depois de quebrar a redação todinha, subiu ao terceiro andar,
enfiou a porrada no nosso companheiro Dr. Marinho de Brito e em toda a diretoria.
Só sossegou no camburão onde, mesmo com
a saia em frangalhos e o rabo de cavalo desfeito, entrou distribuindo beijinhos pra galera
e cantando (já com sotaque francês, de novo):
Deixa eu dançarr, prro meu corpo ficar odarra!!!
Nei Lopes (1942) é escritor, compositor, pesquisador das culturas da Diáspora
Africana, advogado, e mora em Vila Isabel, Rio de Janeiro. Além dos sambas deliciosos e
de grande sucesso que fazem a alegria dos nossos ouvidos é defensor e ativo participante
do movimento pela igualdade de direitos da raça negra. Colabora com crônicas para
jornais e revistas cariocas.
Esta sua crônica é, podemos dizer, uma "adaptação" do famoso conto de Lima
Barreto, "O Homem que Sabia
Javanês", que está disponível no "Releituras".
Texto extraído do livro "171 Lapa - Irajá Casos e Enredos de
Sambas", Edições Folha Seca Rio de Janeiro, 1999, pág. 93.
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