Sem contos longos

Wilson Gorj


 - Passou a vida inteira correndo atrás do Futuro... e não percebia que assim atropelava
   o  Presente.

- Corria como um louco! Atrás de si, deixava dez anos de hospício...

- Era um sujeito indefinido.
  — Quem?
  Alguém.

- "Malcriado! Surdo é seu pai!!"
  "Eu disse SUCO", berrou o neto. "O senhor quer suco?"

- O touro veio bufando em sua direção!
  Tentou fugir, mas foi atingido pelas costas...
  Nem todos os cornos são mansos.

- Entregou-se ao mar de corpo e alma.
  Infelizmente, só foi aceito pela metade.
  As ondas devolveram o corpo à praia.

- A cigana lhe deu apenas mais dois dias de vida.
  Quis provar que ela estava errada e se matou duas horas depois.

- Por mais que tentasse se lembrar, a palavra não lhe vinha à lembrança.
  Tanto tentou e demorou que, quando finalmente veio, já não se lembrava mais por que   
  queria lembrá-la.

- A noiva fugiu com o pastor da igreja.
  Enfurecido, o noivo trocou a Bíblia por uma arma e jurou vingança.
  Haveria de encontrá-los. Nem que fosse no inferno!

- A solteirona perdera a conta de quantas velas acendera em rogo a Santo Antônio.
  Na solidão do seu quarto, ela também se consumia em vão.

- Sempre jogava na loteria. Um dia acertou na quina.
  Mas seus pulos não foram de alegria. Foram de dor.
  Nem todas as quinas são de sorte. Algumas são de mogno.


Wilson Gorj (1977) é natural de Aparecida (SP), onde ainda mora. Sempre gostou de imaginar histórias e, ao entrar em contato com a literatura, passou a escrevê-las. Seu estilo favorito é o das micronarrativas. As agora apresentadas constam de seu livro "Sem contos longos", Editora do Autor, 2007.

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