A despedida

Vinícius Novaes



Ela se despediu em silêncio. Achou melhor assim. Somente suas lágrimas denunciavam a tristeza e o desejo de querer estar distante daquele quarto à meia luz. Era um final de tarde melancólico. Talvez, um dos momentos mais doloridos de sua vida. Ela entrou e viu seus sentimentos espalhados pelo chão. Fragmentos de um amor marcado pela intensidade, lembranças de conversas que invadiam a madrugada, de gargalhadas que esvaziavam o fôlego, de uma paixão em êxtase, de planos e decepções: tudo estava ali, jogado no chão.

Aquela não era a primeira separação na vida de Joana. Mas era, sim, a primeira vez que o amor lhe dava um adeus inexplicável. Esse amor, intenso, foi embora lhe sorrindo, mostrando toda a sua racionalidade incompreendida. Joana estava sem ação. Seu corpo, já bem frágil pelo fim, se debruçava sobre a cama numa tentativa quase remota de juntar as migalhas daquele sentimento que viveu numa plenitude jamais vista.

Seus pensamentos voavam... E suas lágrimas caiam.

As mãos iam fechando as caixas enquanto o seu coração ia fechando as portas para um sentimento. Era um adeus dado para o silêncio. Simplesmente. Ela não acreditava no fim. Sua inteligência bem que tentava compreender tudo aquilo, mas os seus sentimentos não a deixavam assimilar aquele adeus. O ‘nunca’ era algo difícil de entender. Aquele era um amor que não voltaria nunca mais. E isso lhe causava uma imensa dor. Um aperto no peito que lhe parecia roubar a alma por alguns instantes.

Joana era uma figura abstrata atirada no meio de bilhetes apaixonados. O seu choro era, talvez, um ensaio para se ver livre daquele peso chamado dor. Pena que as lágrimas não aliviavam em nada o seu sofrimento. Muito pelo contrário: parecia ficar ainda mais intenso. Pois as lágrimas explodiam a cada vez que Joana apanhava alguma coisa para colocar naquela caixa de papelão.

Foi assim quando os seus olhos fitaram um porta-retrato no canto da cama. Era a foto do seu primeiro encontro com aquele que, hoje, alimentava a sua tristeza. Fora num parque que os dois se encontraram pela primeira vez. Tímida e incrédula, até então, nas coisas que iam além da racionalidade, seu coração começou a bater mais forte assim que se encontrou com Jorge. Tudo mudou. Sua vida ficou mais colorida. Eles se beijaram ali mesmo, embaixo do velho Jequitibá.

“Eita que besteira!”, pensou enquanto se debruçava mais um pouco sobre a cama. Suspirou. Secou sua tristeza. E continuou a apanhar as suas lembranças. Encontrou uma fita da Legião – sua banda favorita. Costumava dizer que seu amor era embalado pela voz do Renato, o Russo. Adorava todas as músicas, menos “Vento no Litoral”. Achava a mais triste de todas.

Mas, naquele dia, meio involuntariamente, sua boca cantarolou: “Agimos certo sem querer/ Foi só, o tempo que errou/ Vai ser difícil sem você/ Porque você esta comigo/ O tempo todo/ E quando vejo o mar/ Existe algo que diz/ Que a vida continua/ E se entregar é uma bobagem”.

Bobagem ou não, Joana já havia se entregado. Estava praticamente desfalecida em cima da cama. Suas mãos agarravam o lençol azul-marinho. Era parte de suas lembranças que, naquele momento, estavam quase se perdendo em meio a uma tristeza profunda. Mesmo assim, ela tentou se reerguer. Balançou por causa do nervosismo. Ainda conseguiu dar alguns passos em direção a porta, mas caiu logo adiante. E tudo foi ficando escuro.


Vinícius Novaes
(1983) é jornalista e cronista. Fã de Mario Prata, diz ser leitor de Nelson Rodrigues e admirador de Elisa Lucinda. Adora a noite, não gosta das sextas-feiras e ama as segundas. Não tem livros editados.

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