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Arnaldo Nogueira Jr


Vinícius Lima (1977) segundo nos diz, não passa de um bêbado vagabundo. É jornalista com pós-graduação em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual de Londrina ( UEL ) e um autêntico amante dos livros, mulheres e destilados. Jamais publicou qualquer texto seu.


O telefone

Vinícius Lima


De repente todos telefones do mundo disparam em uníssono. Os sons emitidos pelos aparelhos não diferem muito entre si. Tanto os fixos quanto os celulares produzem um barulho tão estridente que em poucos segundos estouram os tímpanos da grande parcela da população mundial. As pessoas, surdas e desorientadas, saem perambulando pelas ruas das cidades, provocando tumulto. Os motoristas atropelam transeuntes e colidem uns contra os outros. Alguns desistem da vida e se enforcam com os fios dos próprios telefones. Moradores de edifícios jogam-se pelas janelas e se estatelam nas calçadas. O sangue escorre pelos meio-fios, produzindo enxurradas mais fortes que em dias de chuvas de verão. Ao bater em algum objeto jogado no chão, o líquido rubro e brilhante provoca pequenos chafarizes que molham aqueles que por perto transitam. Doentes internados em hospitais sucumbem por falta de atendimento e funcionamento dos aparelhos. Muitos já estão em estado terminal e agradecem a Deus pela oportunidade de finalmente irem ao seu encontro. Cardíacos, com marca-passo, têm mortes fulminantes. As ondas de sons produzidos pelos telefones desestabilizam todos os meios de comunicação e de produção de energia. Falta água, luz e comida para a população mundial.

Muitos são os esforços para acabar com este fenômeno. Mesmo depois de tirar os fones dos ganchos e desligá-los das tomadas, os aparelhos permanecem tocando, cada vez com maior intensidade. Uns mais desesperados começam a destruí-los, usando martelos, jogando-os no chão, pisando em cima com os dois pés, arremessando-os na parede. Tudo em vão. O barulho permanece inalterado, como se não dependessem mais de um corpo emissor. De uma origem. As autoridades tentam dar uma solução para a questão. Primeiro jogam a culpa nas companhias telefônicas; depois dizem que tudo não passa de uma arma usada pelos comunistas para finalmente dominarem o mundo e implementarem o seu governo de terror, repressão e despotismo.

Depois de um mês, as campainhas permanecem tocando, porém a pequena parcela da população mundial já não escuta mais. Muitos já perderam a habilidade da fala e a potência sexual. Os sobreviventes se alimentam dos restos de carne e couro dos homens e animais mortos. Quando falta carniça para a dieta e a fome começa a despertar nestas criaturas, matam-se uns aos outros, com porretes e facadas. A pólvora das armas de fogo estraga o sabor da carne. Um indivíduo adulto é suficiente para manter um outro vivo e consciente durante uma semana.

Passados dez anos desde que se iniciou este fenômeno, sobra apenas um homem em todo globo terrestre. Devido à falta de água potável, este ser se vê obrigado a tomar sua própria urina. Para se alimentar, usa o pequeno machado que carrega preso em sua cintura. Já mutilou todos os dedos dos pés, as orelhas e o braço esquerdo. Após algumas refeições, não tendo mais o que cortar de seu corpo, o homem finalmente morre.

Os telefones param de tocar nesse exato momento.

 

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