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Arnaldo Nogueira Jr


Vera D'Araio (1982) é paulista e estudante de jornalismo. Não tem contos publicados.


Ela

Vera D'Araio


Bateu a porta com tanta força que fez o pequeno gato cinza claro afundar a cara nas almofadas do sofá encardido.

Não era a primeira vez que sentia essa intensa necessidade de gritar até ficar rouco e despejar um turbilhão de verdades que foram deixadas de lado.

Nada fez.

Preferiu ligar o computador e trocar aquele silêncio invasor por um zunido baixo e constante, típico das máquinas que desejam ser trocadas em breve, e isso o incomodou, principalmente por causa da luz que vinha daquela tela imóvel e branca, terrivelmente branca.

Que pavor lhe causara a cor branca!

Como poderia haver no mundo uma cor tão insolente, capaz de clarear aquilo que deve permanecer nas trevas.

Precisava fazer alguma coisa!

Resolveu encarar a tela e escrever um pouco, assim aquele branco se dissiparia e ele ficaria mais calmo.

"Acho que estou tendo alucinações" pensou, enquanto escrevia com dedos trêmulos, seu próprio nome, num ritual desordenado.

Ficou com medo das palavras e seus significados... Logo ele: um escritor que passara a vida inteira entrelaçado entre frases e letras!

No canto inferior da tela branca, viu que faltava um minuto para as três da manhã, e que a brancura da tela havia aumentado.

Tensão.

Lembrou-se de Janaína, de seu riso fácil e da última coisa que havia dito antes de abandoná-lo: "Você é louco", a frase ecoava em sua cabeça desde o instante em que ela fechou a porta delicadamente e definitivamente.

De repente, como num passe de mágica, uma estranha idéia pousou em sua mente.

Iria se livrar de seu computador velho e da maldita tela que iluminava sua cara de desespero.

O que diria para os vizinhos?E para o síndico rabugento?

Ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta de que não tinha mais nada a dizer.

E apenas uma a fazer.

Seria o duelo final e lhe daria muito prazer: exterminar a maldita tela branca que refletia o fracasso de um homem que fez das palavras um veneno letal.

Abriu a janela e um golpe de ar frio o encorajou a colocar um ponto final naquela tortura.

Começou com as menores partes da máquina: mouse, teclado, enfim, parte por parte sendo jogadas pela janela e destruídas pelo asfalto

Por fim abraçou a tela em branco, que ele caprichosamente deixou ligada na tomada.

Quando a viu se espatifar na rua vazia, teve uma terrível certeza: não poderia viver sem ela, a tela!
Instintivamente, pulou.

E misturou seu sangue e sua carne com plástico, vidro e fios.

Agora, finalmente, eram um só.


E-mail: veradaraio@ig.com.br

 

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