Jacó, o trovão do bandolim

Turíbio Santos


Jacó do Bandolim era o trovão. Onde ele estivesse, o espaço era totalmente ocupado ou pela sua voz ou pelo seu olhar ou pela sua música.

Seu bandolim encantado inundava nossas vidas através dos saraus na generosa casa de Jacarepaguá. Tia Amélia, Pixinguinha, Paulinho da Viola, Clementina, Canhoto da Paraíba, Dino, César Faria, Jonas, Oscar Cáceres, todos e tudo devidamente documentados pelo anfitrião com gravações, partituras e, mais esporadicamente, fotos.

Hermínio Bello de Carvalho fazia as vezes de mestre-de-cerimônia. Amigo fiel de Jacó, levou-me a presenciar situações inesquecíveis.

Numa delas, fomos com Jacó à casa de um solícito e idoso fã niteroiense: Nhônhô. Encontramos Jacó nas barcas e, como eu trazia o material completo do Concerto de Castelnuovo -Tedesco para violão e orquestra, ele divertiu-se toda a travessia tomando conhecimento daquela obra.

Mais tarde, em Niterói ,já no táxi, a caminho da casa do famoso Nhônhô, percebo Jacó assobiando trechos do Concerto que lera há pouco.

— Jacó a melodia está errada. Não é bem assim...

Jacó, com sua tonitruante gargalhada, me adverte:

— Oh, Turíbio, não é a melodia. Estou assobiando a parte do violoncelo!

Todos estupefatos dentro do táxi. Eu, mais do que todos.

— Você decorou o Concerto?

— O Concerto todo não deu, mas do primeiro movimento, todas as linhas condutoras.

E saiu assobiando o primeiro-violino, a clarineta, a flauta etc. até a casa do Nhônhô, que ansioso nos aguardava na porta do jardim. Jacó desce do carro e seu vozeirão ordena:

— Paga o táxi, velho bandido!


Turíbio Santos é considerado pela crítica e pelos especialistas internacionais como um dos maiores violonistas clássicos da atualidade. Tocou nos melhores centros musicais do mundo, merecendo sempre críticas entusiastas por seus concertos, seus 54 discos gravados até hoje e suas coleções de partituras. É membro-fundador do Conseil  d'Entraide Musicale da Unesco e, desde 1986, diretor do Museu Villa-Lobos. Recebeu a comenda de Chevalier de la Légion d'Honneur, do governo francês, e a de Oficial da Ordem do Cruzeiro do Sul. Através da série "Violão Amigo", com três volumes já publicados, divulga partituras para violão.

Texto extraído do livro “Mentiras...ou não? uma quase autobiografia”, Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro, 2002, pág. 77.

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