[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr


Tiago Rafael Alves Mendes nasceu em Taubaté (SP), em 1986, e há tempos reside em Campinas. Escritor desde pequeno, teve diversos poemas publicados pelo jornal “Correio Popular”, daquela cidade, e conquistou o primeiro lugar em um concurso de redações estudantis promovido pela OAB. Participou da IV Coletânea de Textos da Editora Komedi. Cursa atualmente Bacharelado em Química pela Unicamp e pensa na publicação do seu primeiro volume de prosa.


Giovana

Tiago Rafael Alves Mendes


O bicho estava no morre não morre. Esticava as patas em espasmos e se aquietava. Marcelo estava verde-abacate, da cor da camisa Polo. A mão espalmada entrevia os olhos esbugalhados, que espiavam a cena hirtos de horror. Saiu correndo para dentro da casa deixando Giovana sozinha com o canino.

"Molenga", disse num suspiro. E resumiu assim sua mais sincera convicção sobre o namorado. Um molenga. E Marcelo sempre fora assim. Tinha pavor de baratas e insetos em geral, e desmaiava ao menor indício esmaecido de sangue. Nunca ousara utilizar um banheiro que não o seu, e só tomava leite tipo B de saquinho. "É mais fresco", dizia.

E os desígnios do destino haviam-no atado à veterinária que crescera no interior, fascinada por todos os animaizinhos viscosos que o aterrorizavam. E apesar de acostumada aos caprichos do namorado, como retirar cirurgicamente as sementes de um kiwi, sentiu-se indignada por tê-la deixado ali sozinha, com um cachorro que nem era seu.

E nesse exato momento, num último gemido abafado, o Labrador de quinze anos bateu as botas, sem o padre e a extrema unção prometidos pelo dono. Giovana se ergueu e caminhou em direção à casa, mas parou. Refletiu por um instante e julgou melhor enterrar o bicho no terreno baldio da esquina antes de dar a notícia ao Marcelo. Assim sendo, pôs-se a procurar o carrinho de mão no fundo do quintal. Buscou também a pá no galpão escuro. Ensacou o cachorro enorme, colocou-o com dificuldade sobre o carrinho e saiu pelo portão do lado, praguejando bem baixinho.

Eram trinta longos e escuros metros até o lote abandonado. E foi nesse instante que a viatura subiu a rua, cegando-a com os faróis. O Sargento abriu a porta e saiu desconfiado. O Cabo, que bebericava num copo de café, arrepiou-se ao ver a mulher com a pá no meio da noite. Saiu do carro e amoitou-se atrás do Sargento.

"O que que há no saco, minha senhora?"

Giovana, escondendo seus olhos da luz intensa, respondeu:

"O cachorro do meu namorado."

O Cabo Paçoca cuspiu o café na nuca do Sargento, que buscou desesperadamente o revólver que parecia colado ao coldre.

"Mãos na cabeça!" Disse, tremendo como uma vara verde.

Giovana, percebendo a desventura lingüística que cometera, tentou inutilmente explanar a situação.

"O senhor não entendeu. O cachorro do meu namorado está dentro do saco. Eu vou enterrá-lo”.

O Sargento ficou branco como um pudim, e todo o seu bigode se eriçou.

"Sua assassina! Paçoca, pegue as algemas. E eu aconselho a senhora a se render."

As pupilas de Giovana, agora mais acostumadas ao clarão, puderam focalizar a imagem rechonchuda do sargento.

"Me render? Mas nem arma eu tenho!”·

"Ai, valha-me meu São Jorge", berrou o Cabo Paçoca atrás da porta benzendo-se compulsivamente."Ela disse arma! É uma psicopata armada!”
·
O Sargento correu pra dentro do carro e pôs os olhinhos miúdos atrás da mira do 38.

"Pede ajuda, Cabo! Um pelotão!”

E a Giovana, confusa, tentando se retratar.

"O senhor não entendeu. Eu só estava esperando o cachorro morrer, e agora vou enterrá-lo”.

E o Sargento suava bicas d'água.

"E é sádica!” ·

O Cabo Paçoca já previa os pedaços do pobre namorado dentro do saco, e suas mãos gelavam ao espiar o rosto da cruel assassina. E pensar que até o mês passado era guarda de trânsito!

"Não atire, minha senhora. É melhor se entregar”.

O Sargento ergueu o nariz acima da porta se esforçando por esboçar um sorriso diplomático. Até deu um passo na direção na direção da moça.

"Mas eu não fiz nada. Só estou fazendo isso porque o meu namorado não iria agüentar essa bomba!."

O Sargento pulou pra dentro da viatura. O Cabo Paçoca desmaiou.

"Ela disse bomba! É terrorista! Chama o esquadrão anti-bombas, os fuzileiros!"

Dona Leopoldina desabou no sofá. Seu Plínio trouxe o suco e a pipoca. Tirou as pantufas, enfiou-se debaixo do cobertor e ligou a televisão. Quase teve um troço ao ver, não O Parque dos Dinossauros, mas a filha, cercada de repórteres e viaturas. A imagem aérea não deixava mentir. Era a casa de Giovana. E escondido dentro do armário, estava Marcelo se benzendo; medo de bala perdida. Perdida, contudo, estava Giovana, no campo minado das ambigüidades. Quanto mais falava, mais piorava a situação. Os transeuntes se aglomeravam, e alguns flanelinhas já cobravam pelo estacionamento. Então, desapercebido de qualquer senso de hermenêutica, o Cabo Paçoca levou a veterinária para o distrito. E assim foram três horas e trinta pontos de ibope.

Giovana vive hoje em Presidente Wenceslau, cuidando das cabeças de gado do pai. De vez em quando é reconhecida na rua. Já deu dois ou três autógrafos. Foi sua melhor decisão: voltar para casa. E terminar com Marcelo.


E-Mail: tiagorafael@uol.com.br

 

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras — Todos os direitos reservados. O Projeto Releituras — um sítio sem fins lucrativos — tem como objetivo divulgar trabalhos de escritores nacionais e estrangeiros, buscando, sempre que possível, seu lado humorístico,
satírico ou irônico. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior.
® @njo