A culpa

Tiago Italo



 A violação do existir se depara com a própria angústia do ser. Digo isso não de passagem. Porque está impregnado na eternidade da existência de um homem que tenta abarcar o mundo com as suas mãos. Sujas. Que de outra maneira são as mesmas que delataram aquele amor que se derramou nas costas lânguidas da derradeira mulher que teve em seu quarto na noite da data olvidada. O desgosto o açoitou por muito.

 A pobre fugacidade do homem deve-se à idéia primordial de sê-lo rasteiro com a sua vontade de querer sempre o que não lhe convém. E nem tudo passa irresoluto como a um apetite raquítico e insano para se confrontar com uma melancolia bruta e devastadora. Pois o mais justo homem que se vê neste complexo existencial de vida e morte é por muito o ser menor que a terra nunca há de cobrir. Mas há quem diga que a morte não nos seja o consolo o colírio enfim o antídoto último para solapar esta realidade tão fria de indiscreto engano. Entretanto nos perecemos sempre quando nos sentimos assim melindrosos. Melhor esperar e saber que o passo seguro está na enorme presença de si mesmo. Mas se perdeu. Esqueceu-se de si. A lembrança nem mais alcançara sequer a face de anos atrás. Nem mesmo a cara que tivera na noite última. Aquela que haveria de ser a eterna. Aquela que seria a aparição da felicidade.

 Encostou-se na parede do quarto. Não aceitou conversa com outrem. E ninguém lá se avistava. Foi-se derreando devagar. E devagar via-se a própria regressão da espécie humana. E curvando-se. Esquivando-se. Enrolando-se numa figura de um primitivo indefeso. Transformando-se a cada momento numa efígie que se desconfigurava à proporção que se abaixava. Que se deslizava naquela parede íngreme por causa de um peso incomensurável intangível. A cena inevitavelmente se distanciava da beleza. De uma condição flórea e agradável. A sua nudez já não se incomodava com algum pejo ou tal. E não se tratava de uma nudez de suas pudendas. Era algo maior. Que ultrapassava qualquer pudor mas que esbarrava numa vergonha imensa de existir. De não ser o que se sente. De não deixar-se transparecer o que de fato o é.

 O cigarro já não tinha mais o gosto importante dantes. Era acre de causar ânsia de vômito. O trago não fazia mais o efeito de satisfação. O sarro consumia toda a volúpia de puxadas insaciáveis. Condição indelicada para quem fizera de si uma imagem deploravelmente insuportável. Dentro de uma idéia fajuta de suportar-se a pergunta inevitável viria à tona. E eu caibo dentro de mim mesmo.

 Triste coisa. Saber que é humano e que se designa a ser eternamente infeliz. Caos de existir. Rombo na essência de fazer-se digno de alguma incerteza talvez. Mas nada. Nada. Nada consegue acusá-lo senão de uma culpa forçada. Uma culpa que deveras o fez tão chão. E de causar dano a si e somente a si. Alguém nem para certificá-lo de uma culpa inculpável. Caso de colocá-lo numa possibilidade de se redimir. Talvez fosse a saída certa. Ou quem sabe ao menos salvá-lo na sua consciência. Garantir um sossego no juízo. Uma calma para aplacar a estuação vã. Arrancar o engasgue no pensamento e fazer fugir a idéia de um vil.

 Não. Melhor deixá-lo quieto. Àquela mulher inda há de procurar. E saberemos qual a sinceridade dele diante daquela. Que nada. O intróito da cena será antevisto. Ela o agarrará pelas ancas pelas pernas pelos braços pelo sexo. E ele sem ter consciência do perigo enorme de dolo tornar-se-á digno de sua culpa. E seremos levianos de deixá-lo dessa vez sob a tutela mórbida de uma dor incurável. E não daremos ungüentos. Ou remédios vários. A agonia será por fim sua companheira inseparável.


Tiago Italo
, 1985, se diz de Quixadá, Ceará, Brasil. Acrescenta ser filósofo e educador. Não tem livros publicados.

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