a

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr


Tiago Barreto (1980) é paulistano. Graduado em Publicidade e Propaganda pela Escola de Comunicações e Artes - USP, trabalha como redator em uma agência de publicidade. Nos diz que escreve para sobreviver e viver.


Beira de estrada

Tiago Barreto


Não se sabe se serviam. Nem eles se sabiam. Augusta, menos amante e mais comedida, tinha vida e se fez sumida. Não sumida, só cruzou estrada, mas para Pardal, já era causa e mulher perdida. De Feliz a Ex-noivo, de Noivo a Infeliz, Pardal já nem sabia a que nome atendia.

Do lado outro, não da vida, da terra batida, outro um joãovagante. Vestia bem, dizia bem. Melhor tarde do que nunca alguém assim no fim do mundo. Não chato nem inchado igual Pardal. Mais comprido, nem por isso difícil — igual montes de caminho — Aparecido.

Mãos vazias, cabeça não. Ora, vinha de baixo, direto e reto, pra terra comprar. Alto e queimado, com mania de mandar e ser. Árvores, cores, cerca e Augusta. Tudo queria, e podia.

Augusta, mais perdida que peixe na catinga, fez-se amante. Pernas peladas, peito em riste, cabelos voados. Lavadeira ontem. Pra Aparecido, da vida. Carro adentro, suor na testa. Panos, farelos, galinha. Até cortina o caminhão tinha. A cama quebrada, de pé virado, Augusta batizou Serventia. Jogou a carcaça lá em cima, riu mostrando janela preta. Aparecido, o fora-esteiro, tinha mais uma galinha. Pinga na mão, Augusta na outra, embebedou, que não é doido nem nada. Só de fogo é que teria coragem — e fogo — pra dar a Augusta suas estrelas.

Lá fora o escuro fechava. Quem vivia via o carro em brasa, sem entender nem desentender. Passou tempo e bando cheio de curioso-sem-que-fazer. Vaqueiro, vaquejada, dona, muié, rebento, rebentado, padre, ateu, padre-ateu, doutor, saci, mula, dono, moribundo. Haja beira de estrada prá tanta platéia sem mais o não ver. Do casa-caminhão, calor e chacoalhação quase proferiam — Não tem ninguém, deixa recado! Se bem que tinha, e isso até surdo sabia.

Aparecido só deu por si no fim da garrafa. E Augusta, Dita Cuja largada e jogada de repente, num repente de sanidade do Seu Desejo, chorou suor. Cabeça erguida na boleia, fez paixão ausente. O não-querer ficou claro de deixar olhos cerrados. Parado o chão, tremeu as mãos. Assustou em volta, lembrou de ser Augusta. Sem mania de ter vida, murchou igual rosa que não vinga na catinga. Coçando um pouco, nem olhou para o ex-amante, que fechava braguilha e garrafa. Sem querer o pé chutou a Augusta. Nem soube o que fazia, nem arrependia. Sumiu sem lembrança ou causa. Igual quando apareceu. Do Aparecido sobrou só a marca no chão. Que em verdade, era do caminhão.

Vexada e botada pra fora, Augusta encobria e sorria contrária. No meio do formigueiro, se protegia de comentários que picavam. Nariz pra baixo, queixo pra cima caçando Pardal. Amor de burro não morre, e o Seu Pardal ou Seu Amor apareceu. Nem caiu em si no acontecido. Melhor, assim não machucou.


E-Mail: tiago_barreto@hotmail.com

 

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras — Todos os direitos reservados. O Projeto Releituras — um sítio sem fins lucrativos — tem como objetivo divulgar trabalhos de escritores nacionais e estrangeiros, buscando, sempre que possível, seu lado humorístico,
satírico ou irônico. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior.
® @njo

a