[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr


Sandra Saruê  nasceu em São Paulo, em 1968. Publicitária e atriz, lançou seu primeiro livro, “Mulheres más” — com prefácio de Fernando Bonassi — em 2003, pela Editora Celebris – São Paulo, de onde extraímos o texto acima, pág. 26.


Mulheres más

Sandra Saruê


Para Adriana, Kátia, Cláudia, Meori,
Vivian, Karin, Anete e Meire, as amigas



As três. Duas morenas e uma falsa loira. Saíram de casa por volta das 10 de uma noite quente, quase novembro, e pela janela do carro entrava uma brisa morna, relaxante, que sem querer convidava a sair pelas ruas inquietas de São Paulo.

Naquele carro, um Gurgel amarelinho, a mistura de aromas. Amadeirados, doces, cítricos, algo entre Eternity, Anais Anais e Poison. Florais. Três flores de diferentes tipos. Duas morenas jambo e uma loira L'Oréal.

A mais morena de todas era também a mais bonita: cílios compridos, olhos grandes e a boca tão bem desenhada que formava um sorriso, mesmo quando não sorria. A cor do batom e das unhas longas que acariciavam o volante era v-e-r-m-e-l-h-a. Os cabelos lisos e negros caíam-lhe sobre os ombros como uma onda batendo nas rochas de uma orla. Ela, a mais morena, era também a mais deslumbrante.

Sobre a outra morena, quase nada a dizer. Quase. Que não era tão bonita assim. Muito magra, tipo mignon, uma beleza absolutamente comum, daquelas pessoas que se encontram milhões iguais andando pela Praça Ramos, dia de semana, às 5 da tarde. Normal. Olhos castanhos-escuros e os cabelos na mesma cor, levemente ondulados e compridos. Nenhum outro atrativo, ao contrário da loira, bem acomodada no banco de trás.

A. loira tinha a raiz dos cabelos escura. Falsa, assim como Marilyn Monroe. E se Marilyn não era mesmo loira, por que haveria ela de ser? Não era bonita. Apenas um tipo que agrada aos homens. Bunda grande, um pouco mais do que deveria ser, coxas grossas, porém rígidas, conquistadas com suor em salas de academias anônimas. Um rosto bem comum também.

As três assim, juntas, dentro do Gurgel amarelinho, formavam um bonito conjunto com seus tons e roupas novas recém-tiradas das sacolas. Moças de butique e bem produzidas. Não se podia dizer que naquela noite estavam naturais, mas a intenção ao menos era esta. Queriam se divertir, muito além de suas frustrações. Tinham já uma idade em que as desilusões se acumulam mais que a satisfação dos desejos. Eram damas sem donos, que tiveram momentos de encantamento junto a alguém, mas naquela noite tudo estava longe e bem distante daquela brisa morna. Estavam tesas, absortas e queriam se divertir.

A Avenida Paulista, naquela noite em especial, tinha um estranho clima tropical. Quadro vivo ou encenação teatral em que damas e cavalheiros representavam o improviso. Apesar das luzes ofuscantes dos carros e bares dos Jardins sem coqueiros ou praia, o ar ameno, feito maresia, vinha das pessoas e das roupas que usavam. Minissaias, tops, bermudas, camisetas e camisas com motivos florais. Cheiro de flor, jasmim, almíscar, violeta, exalando dos canteiros mais resistentes ao lado dos prédios. As pessoas na rua festejavam como se fosse a primeira noite de verão. Mas não era. Apenas uma massa de ar quente cruzando o Atlântico e atingindo a capital. O calor mais intenso daquele ano. Uma noite tão abafada em São Paulo e elas cruzando a Avenida Paulista em direção à Rua Augusta.

Os carros que emparelhavam com o delas buzinavam, implorando a atenção de qualquer uma das passageiras do Gurgel amarelinho. A morena bonita que dirigia o carro com o vidro aberto era sempre o alvo. Elas riam alto e rebatiam qualquer argumentação. Não queriam nem precisavam de ninguém para se divertir. A alegria estava dentro delas, latente, numa espécie de sono leve mas agitado.

Estavam especialmente bonitas naquela noite. A melhor forma de vingança era estar bem e não precisar deles. Eram doces, sutis e, durante todo o percurso de cantadas criativas ou insólitas, mantinham-se firmes contra as tentativas frustradas dos conquistadores ordinários da Rua Augusta. Embora, no fundo, elas quisessem conhecer alguém especial que não fosse mais uma aventura - era o que mais desejavam na vida. Mas aquela noite era uma espécie de exceção. A espera angustiante por um ser que nunca chegava era também a aflição de pensar que ele podia não existir. Elas, as três, passavam por aquele temor. O de nunca encontrar. O de não existir. O da busca inútil. Pior, de um irreparável conformismo. Tinham uma ansiedade continua que sempre era notada pelo outro sexo como uma vibração negativa. Uma violação da ordem natural das coisas. Era isso que repelia o sexo oposto: a ânsia. Quase sempre era assim. Mas não naquela noite em que estavam tranqüilas como uma garrafa de champanhe: calma por fora e borbulhante por dentro. A paz emergente era o que sem querer atraia os homens dos bares dos Jardins, desesperados e desprezados. E elas, longe de qualquer decepção que ao longo de suas histórias sentimentais pudessem ter sofrido.

A morena que dirigia altiva, com a coluna reta e o olhar agudo, avistou uma vaga em frente de um bar dos Jardins. Mesinhas brancas para fora, chope e pessoas bonitas vestindo roupas coloridas para uma noite muito quente que ainda não era de verão. Estacionou bem e mostrou a um grupo de rapazes atentos a sua capacidade para balizas. As três foram descendo do carro.

Primeiro a morena comum que naquela noite também procurava se diferenciar. Usava um vestido preto justo com duas alças fininhas e um decote profundo nas costas, que modelava o corpo, apesar de sua magreza. Sobre o rosto, fino também, uma maquiagem de tons pêssego e terra, o que suavizava a expressão rude.

Depois da morena comum, quem saiu foi a loira, usando uma calça jeans apertada que fazia a bunda saltar para fora e o estômago se contrair inteiro. A maquiagem era exagerada, tons de roxo e azul que pouco combinavam com a sua palidez. Não estava perfeita, mas no conjunto, parecia razoável. A raiz escura dos cabelos há tempos tingidos era um pequeno detalhe em uma quase loira que tentava ser sensual.

Por último, quem saiu e trancou a porta do carro foi a morena bonita e dela pouco é preciso dizer. Era bonita. Só. Usava um vestidinho branco de cotton-lycra, com renda no colo, feito lingerie, sexy, justo. No rosto, só um batom vermelho, e o resto era a beleza natural de uma mulher morena com traços brasileiros.

Escolheram uma mesa num canto, afastada da agitação. Fizeram o pedido ao garçom, pouco atencioso: afinal, eram três mulheres que bebiam menos que os homens e a taxa de serviço também seria menor. Escolheram um Bloody Mary e dois Hi-Fi. O garçom anotou e torceu a boca, porque elas não pediram nada para comer. Perguntou pela última vez se elas não queriam mais alguma coisa e depois se afastou mal-humorado. Elas nem perceberam a má vontade do garçom, porque naquela noite estavam e se colocavam em um pedestal inatingível. Os olhares que vinham das outras mesas, principalmente de um grupo de rapazes bem próximo, não chegavam a perturbar.Elas riam e conversavam alto para que ninguém tivesse a coragem de abordá-las. E se aquilo era uma tática, não deu muito certo, porque três moços daquele grupo se desvencilharam bravamente da tropa e se dirigiram à mesa delas.

Os três. Um deles, com uma franja castanha e pastosa caindo sobre a testa brilhante de suor, era o mais despachado e foi o primeiro a falar:

— O que as três bonecas fazem sozinhas numa noite tão quente como esta?

"Bonecas?!" Já não era um jeito muito interessante de abordar e eles também já não tinham certeza se a primeira pergunta tinha sido bem colocada. Ou se tinham no mínimo algo que as agradasse, o que, com certeza não era aquele "bonecas?!" E este mesmo rapaz, o da franja caída sobre a testa, inclinou-se e encostou o peito sobre o encosto da cadeira da loira, fazendo um arco com a coluna. Ele era o mais falante, o porta-voz deles, e esperava que aquela primeira pergunta fizesse surtir algum efeito. As três "bonecas?!" entreolharam-se e riram, mas não disseram nada. Então, como se não tivesse entendido muito bem o recado, o rapaz da franja oleosa insistiu:

— Será que nós podemos participar da alegria de vocês?

Desta vez, ele sorriu triunfante e olhou para os outros dois amigos, na expectativa de que a sua segunda frase fosse um pouco mais feliz. Aguardaram uma resposta, que não veio. Mais uma vez elas riram e não responderam: estavam tranqüilas como a garrafa de champanhe.

Certo do insucesso de seu porta-voz, um outro rapaz, o mais baixo e corpulento deles, tentou se manifestar:

— Ha, ha, ha. Também quero rir. A piada foi boa?

Elas não iam responder. Mas a morena bonita, que também era a porta-voz delas, tentou ser direta e delicada:

— Vocês vão nos desculpar, mas é que nós estamos discutindo assuntos íntimos e particulares.

Como se não tivessem assimilado a argumentação dela, o baixinho piscou para os outros dois, que arrastaram três cadeiras e se juntaram à mesa das mulheres. O terceiro rapaz, um pirulão com aproximadamente dois metros de altura, não abria a boca para nada, a não ser fumar e beber. O rapaz da franja, bem acomodado ao lado da loira, arriscou:

— É que nós adoramos assuntos íntimos e particulares. Elas não demonstraram hesitação, apenas conivência ao se olharem mais uma vez e rirem até não poderem mais.

O garçom trouxe as bebidas e modificou a expressão dura do rosto, abrindo um meio sorriso ao ver os novos companheiros. Os três pediram chopes, porção de queijo provolone e filé aperitivo. O garçom se empolgou e passou a atender melhor aquela mesa. Por mais agradáveis que eles se julgassem ser como companhia, a decisão delas naquela noite era irreversível. De tudo elas riam e não acreditavam em nada do que eles diziam. Qualquer gesto deles parecia inútil e patético. Depois de beberem seus drinques, elas passaram a acompanhá-los no chope. A embriaguez das mulheres levava os seis a uma outra esfera, que não era a realidade. E começaram a escrever poesias em guardanapos de papel. E a revelar segredos que não deveriam trair. E a cantar músicas de muito tempo atrás. E a recitar versos da época de escola. E a contar piadas de humor negro sobre pretos, judeus, portugueses, árabes, alemães... E a falar mal da vida dos outros. Elas riam. Eles riam. E aquilo não era suficiente para os três homens que desejavam mais daquela noite quente:

— Vamos para outro lugar — sugeriu o mais baixo e corpulento.

Alteradas pela bebida, apenas riam:

— Minha casa — disse o de franja sebosa. — Tomar um licor.

Elas não se preocupavam em responder. Eram como três flores distintas que encantam pela beleza, enquanto se mantêm distantes pelo silêncio. Tinham também os seus espinhos:

— E então? — insistiu o mais baixo e corpulento.

Continuaram sem responder. Riram. Depois caíram numa gargalhada sem fim e o mais alto deles, o que não tinha dito nada a noite inteira, acabou se alterando e elas finalmente ouviram a sua voz de trovão:

— Vocês estão bancando os palhaços — ele disse para os outros dois. — Não estão vendo que elas não querem?

O mais baixo e corpulento e o da franja oleosa ficaram congelados por um instante. Sabiam que a persistência é um dom inerente ao sexo masculino, e o pirulão, um tanto quanto acéfalo, não conhecia as regras daquele jogo. Olharam para ele com impaciência. Uma noite de sábado inteira perdida por uma frase mal empregada. Mas o fato é que ele já tinha soltado as malditas palavras e modificado o clima. Então, o que os outros dois precisavam era apenas juntar os cacos de um vaso que acabava de se quebrar:

— Vocês não querem? — perguntou o da franja escorrida, olhando para elas e curvando a coluna para não ser atingido por uma resposta indesejada.

— Hoje não — respondeu a loira.

— Por que não hoje? Justo hoje? — perguntou o mais baixo.

— Porque é assim que nós queremos — disse a morena bonita, sem entrar em detalhes. Era mesmo a porta-voz das três.

O da franja escorrida não se conformava. A noite mais quente de São Paulo, sábado, e eles voltando da caça sem a presa. O mais baixo e corpulento não se conteve:

— E o telefone? Eu anoto o número. Podem dizer...

Oito meia meia cala a boca e não chateia... Vendi meu telefone para fazer plástica... Telefone tenho sim, esqueci foi o número... Telesp informa: este número de telefone não existe, favor consultar o catálogo telefônico... Telesp informa, 12h 45 minutos... Chamada a cobrar, para aceitá-la continue na linha... Telefone? Aquela coisa cheia de botões com números e um fio comprido atrás? Ainda tão instalaram na nossa cidade não... As respostas eram assim. Estavam embriagadas junto a três seres pedantes e não tinham por que dizer uma palavra com sentido. Não que fosse engraçado, mas o álcool já tinha tornado tudo obscuro & obsceno. Elas tinham uma forte inclinação para o nonsense e eles, para a pieguice & canastrice.

O da franja pastosa escorrida pela testa escondia olhos bonitos, cor de mel, e cílios longos. O mais baixo e corpulento tinha os traços do rosto perfeitos, o nariz reto, os olhos amendoados e a cara tão limpa como "bumbum de nenê". O pirulão era todo avantajado, inclusive as mãos bonitas com dedos largos. Mãos que pareciam ter sido esculpidas por um artista. Os três tinham também algumas virtudes que só a embriaguez delas podia fazer enxergar. Sagazes observadoras. Nada além disso. Elas não os desejavam porque não era a noite.

Eles tinham ao menos algum encantamento, mas que não preenchia o vazio delas. Um buraco fundo há muito tempo localizado na boca do estômago. Um stand by que fazia delas mulheres difíceis de iludir e ao mesmo tempo frágeis. Os espinhos das três eram como a casca dura que envolve uma fruta muito doce. Nem em seus inconscientes eles saberiam o quanto eram doces aquelas frutas.

Longe dos pensamentos delas, o mais baixo levantou-se num pulo, encolerizado:

— Como vocês podem ser tão más? Não acredito que perdemos uma noite de sábado como esta. Vocês são mulheres más.

— Perderam uma noite mesmo? — perguntou a morena comum que falava pouco.

— Perdemos — disse o mais alto, que também quase não falava.

Os outros dois também levantaram, imitando o gesto do primeiro. Foram arrastando as suas cadeiras para longe e depois se juntaram novamente ao grupo de rapazes.

Elas pediram mais bebidas, queriam beber até enxergar em vez de um, dois. Em vez de três, seis, múltiplos e assim por diante. Tinha de ser o dobro de todas as sensações vividas.

A tristeza delas era tão discreta e cômica que nem se importaram em pagar a conta deles. Ao sinal da morena bonita, o garçom veio com um sorriso de ponta a ponta e dentes imperfeitos. Elas pagaram tudo, inclusive os 10% do amável garçom. A morena bonita bebeu até a última gota do último copo, encerrando a noite, e depois levantou. As três caminharam sem enxergar direito as mesas e as pessoas ao redor que de repente ficaram turvas, como uma lente desfocada.

Entraram e se reposicionaram no Gurgel amarelinho. As duas morenas na frente e a loira atrás.

Voltaram pela Avenida Paulista com o mesmo clima tropical, o que não era normal. As três ainda riam e não sabiam se por isso eram mais felizes que as outras mulheres. Estavam bem, mesmo estando sozinhas, e aquilo também não era normal. Sentiam-se leves como uma pétala solta numa noite quente e de céu claro. Diferente de todas as outras noites de São Paulo. A solidão necessária. Só.


E-Mail: ssarue@terra.com.br

 

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras — Todos os direitos reservados. O Projeto Releituras — um sítio sem fins lucrativos — tem como objetivo divulgar trabalhos de escritores nacionais e estrangeiros, buscando, sempre que possível, seu lado humorístico,
satírico ou irônico. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior.
® @njo