As partes

Suzana Gutierrez


Tem dias que levantar cedo não dói. Hoje foi um e não me perguntem por quê. São 8:47 agora e eu já cataloguei fotografias de 1973... por aí, até 1992, ufa... Lembranças, algumas até meio amarelando, de coisas vividas e que passaram. Passaram? Umas sim e outras não. Coisas que marcam, como o mar azul de Tainhas, contrastando com o laranja do bote inflável cheio de boinhas de braço.

É... navegávamos com crianças... e como crianças, na segurança que a juventude dá. Éramos indestrutíveis, aptos a levar bebês para o alto mar num bote de dois metros. Estranho que o mar azul, um bote e as lembranças das muitas "indiadas" rumo ao sol, ao vento, ao mar e à aventura me tenham trazido, de repente, de volta ao passado mais recente. Mais precisamente segunda-feira, a última.

Não tinha nem mar azul, nem mesmo céu, pelo menos não olhei para o alto. Só coisas cinza. Cinza era o prédio, a roupa da advogada, cinza era o chão, as portas, cinza sobriedade, cinza impessoal, cinza tapa sujeira, e depois dizem que blue é que é triste. Não éramos mais os jovens aventureiros arriscadores de bebês, desbravadores dos cafundós de qualquer praia paradisíaca. Éramos "as partes". Cheguei a olhar para trás quando a oficial de justiça disse:

— As partes podem entrar.

Nos olhamos. Como bons ex-aventureiros fomos juntos pra poupar os carros, mesma advogada, pra economizar, também. Um olhar e bastou. Olhos azuis nos outros olhos azuis: estes somos nós, "as partes".

Sentamos, mãos geladas. E sentamos errado. Era para ser em lados opostos e sentamos lado a lado. Incrível que, depois de tanto tempo, a nossa segurança ainda era enfrentar aquilo juntos. A juíza, o único elemento de cor no recinto, balançou os ombros e as pulseiras e voltou os olhos para o texto. A pastinha laranja-bote contrastando com o azul-mar de sua blusa.

E nos resumiu...

— Vocês, "as partes", são fulano e fulana, vocês têm isso, aquilo, aquilo outro e mais dois filhos.

Meus lindos bebês que escaparam de morrer afogados no mar de Santa Catarina, sucumbiram à lei, coisificados junto com automóveis e apartamentos.

— Confere?
Que íamos dizer???

— Confere...

— A parte "tal" fica com isso... Confere? E a parte "outro tal" fica com aquilo... Confere?

— Confere...

Repartimos até os nossos bebês. Como se fosse possível repartir vida! Como se os sonhos dele não estivessem para sempre colados nos meus.

Sorte que não pensei em nada na hora. Acho que ser chamada de "parte tal" me anestesiou. Firulas legais foram recitadas. E eu ali esperando o "então vos declaro..." Mas não tem. E não tem música. E ninguém nos beijou na saída.

— "As partes" podem se retirar.

Cruzamos o corredor cinza e descemos pelo elevador cinza, a advogada cinza sempre falando, coisas cinza.

Na rua enfim o sol. E eu rezando para que, pelo menos, um bote laranja me trouxesse pra casa.

Voltamos juntos, falando dos nossos bebês. Olhos azuis nos outros olhos azuis, eu ainda sei o que aqueles olhos pensam.

Estranhamente, desde lá eu venho pensando em mar, em botes, em vento...

E em bebês.


Suzana Gutierrez
tem
46 anos, é professora de educação física e engenheira civil em Porto Alegre, RS. Gosta de escrever e, mais do que isso, diz que precisa escrever.

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