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Arnaldo Nogueira Jr


Salvador Fernandes é fluminense de Macaé. Escreveu o livro "Geada", publicado pela Sintaxe Editora, romance baseado em fatos ocorridos na região da Sorocabana, no Estado de São Paulo, onde viveu a partir de 1957. De seu livro "Florisbela e Outros Contos", Editora Saga, Ourinhos — Minas Gerais, 1999, pág. 37, extraímos o texto ao lado.


Sombra de ontem

Salvador Fernandes


Cheguei apressado à estação. Inexplicável coincidência, fizera Alberto passar por ali. Amigos desde a infância, os nossos encontros eram sempre marcados por muita alegria. Dessa vez, dei-lhe apenas um adeus, e continuei a caminhada para o interior da gare, à procura do trem que deveria tomar. Alberto correu, agarrou-me o braço.

— Porquê tanta pressa?

— Vou viajar... Esperança, estou em cima da hora.

— Esperança?

— É uma reunião de empresários. Vou a serviço.

— Esperança! Quando você volta?

Vi o seu rosto cobrir-se de uma mistura de surpresa e curiosidade. Sorria, perguntava, admirava-se e ia me acompanhando, agarrado ao meu braço.

— Esperança! — Repetiu o gesto pueril.

— Não conheço, dizem que é uma cidade de 50 mil habitantes.

Entramos no comboio.

Ele continuava abobalhado:

— Você vai lá...

Deram o sinal de partida. O apito da locomotiva encheu a gare de ruído longo, que parecia bater no rosto de Alberto e produzir um estranho eco. Ele ficou trêmulo, os seus olhos brilhavam indecisão, retrato de coisa magoada. Senti que sua mão, antes só pousada, agora apertava o meu braço. Ele baixou os olhos, como que humilhado. Perguntou:

— Você tem dinheiro?

— Algum.

— Vou também, posso?

— Até é bom, vou com pessoas que não conheço. Decisão de última hora.

Apresentei-o aos companheiros de viagem, muitos dos quais também conhecera após a partida do comboio. Foi fácil juntá-lo à comitiva, com direito a passagem, restaurante, e tudo que se oferece em excursão organizada.

— Nem posso imaginar... Estar amanhã em Esperança.

— É tão importante? Parece que é cidade modesta, de criadores de gado, agricultores; qual o seu interesse nisso?

— Não sabe? Nasci lá.

— Ah! É!

Continuou as confissões pueris:

— Saí pequeno. Nunca mais voltei.

— Então você não conhece mais ninguém.

— É... Quero rever umas pessoas. Meus pais se amarraram na Igreja de lá. Namoraram na praça, dançaram no clube, e isso continua no mesmo lugar.

Fomos chamados para o restaurante.

Caminhamos para o vagão, ele sem parar de falar da cidade natal.

— Vou te contar um segredo. O padre de lá é o mesmo que fez o casamento dos meus pais, e me batizou. Você não sabe como estou alegre com esta viagem!

Tomou um gole do vinho que pedíramos, olhou o fundo do copo, examinado—lhe a cor.

Agora, como criança feliz, embrenhado no mundo que perdera sem conhecer:

— Vou beijar a mão do padre.

— Beijar?

— É... Ele é um santo!

Durante o jantar, Alberto contou que o padre se chamava Balbino, e exercera muita influência na formação de sua família. O seu pai viera mocinho do nordeste, e fora para Esperança em busca de trabalho. Empregara-se em função modesta, o que limitava a sua participação na sociedade local. O casamento fora marcado de incidentes, a família da noiva tentara impedir sucessivas vezes. Padre Balbino resolvera tudo.

— Ele conseguiu casar os velhos... E me batizou!

Alberto se deixava dominar por sentimentos singelos, perdia-se em reações ingênuas, mostrando um lado de sua sensibilidade que eu desconhecia.

— Não é fabuloso? Sabe, padre Balbino mantém escolas, hospitais, é a figura de santo que a gente procura nos padres.

Chegou à mesa o relações públicas da excursão:

— Com licença, quero apresentar o presidente da...

Era conhecido banqueiro, Dr. Manhães, nome que há mais de 20 anos flutuava nas finanças do país. Diariamente aparecia nos jornais, matando o apetite dos colunistas. Alto, cabeça nua, a pele brilhando, os olhos escondidos por duas lentes grossas, em armação negra. A voz do Dr. Manhães saia firme, com expressões adjetivadas, em doses comedidas.

O relações públicas deslizava em frases feitas, a fala redonda, banhada em brilhantina. Disse ao Dr. Manhães que éramos jornalistas. Dr. Manhães nos brindou com algumas palavras tiradas do seu vocabulário especializado, desejou-nos boa viagem e foi acomodar-se em outra mesa. Nunca vi outra figura mais autêntica de banqueiro.
A viagem correu sem novidade, monótona, embalada pelo balanço do trem.

Às 8 horas da manhã seguinte, chegamos a Esperança. Um grupo de pessoas nos recebeu na estação, e a Banda Municipal nos saudou com dobrado estridente.

Alberto perguntou a um rapaz que nos distribuiu pelos automóveis, que formavam fila ao lado da estação, se Padre Balbino viera.

— Não. Está celebrando missa. Todo mundo aqui vai à missa dele aos domingos.

— Não te disse — repetiu Alberto — ele é um santo.

Fomos para o hotel, numa praça onde havia, também, uma igreja. Logo que chegamos, Alberto perguntou se era aquele o templo de pe. Balbino. Era.

Subimos ao apartamento, tomamos banho, tínhamos reunião em seguida. Mas Alberto não me deixou ir. Levou-me à igreja.

Era um templo gótico, cheio de bancos com nomes bordados em almofadinhas vermelhas, imagens distribuídas em altares laterais, cenas da via sacra pintadas nas paredes. Dormia em silêncio fundo, nem parecia que momentos antes acolhera mais de quatrocentas pessoas, fora envolvido pelos cantos sacros, alegrado pelo carrilhão que bimbalhou em toda a manhã dominical. Um homem de cabelos brancos, bata vermelha enfiada no corpo magro, fechava as portas laterais. Alberto foi a ele, perguntou pelo padre.

— Está descansando.

— Somos de São Paulo... Temos pressa em falar com ele.

— Chegaram no trem especial?

— É! — respondeu Alberto.

— Vou chamar, ele está esperando um homem que veio no trem especial.

O homem de bata vermelha ensaiou gestos de cortesia, levou-nos para uma saleta no fundo da nave, mandou-nos esperar, e desapareceu atrás de uma cortina roxa.

Alberto, totalmente perdido em emoções, não era mais a criatura adulta que eu tanto conhecia, segura de nossa atividade profissional.

— Você vai conhecer, ele...

Um ruído de porta, vindo de trás da cortina roxa, interrompeu-o. De lá emergiu um velhinho curvado, os pés inseguros, com as pontas abertas; cada passo era esforço sofrido, a batina negra surrada, no rosto os sinais visíveis de uma existência que se findava. Apenas os dois olhos estavam vivos, irradiando um foco de luz que parecia procurar alvo desconhecido. Fazia lembrar a figura que escapara do fundo de uma dessas sepulturas venerandas dos velhos cemitérios.

Quando viu o velhinho mover-se com dificuldade, Alberto repetiu o gesto pueril. Correu ao encontro, agarrou-lhe as mãos, beijou-as, balbuciando:

— Eu sou Alberto, filho de... O senhor me batizou, lembra padre Balbino?

O velhinho pousou a mão no ombro de Alberto:

— Añ, Añ... Está um moço.

Depois levantou o rosto, assestou os olhinhos em mim, e veio claudicando com o passo gemido.

Deixou escorrer um sorriso entre as falhas dos dentes. A sua voz saiu cansada, mas perfeitamente audível:

— O senhor é o Dr. Manhães, não é? Prazer... Desculpe não ir à estação.

Olhei para trás. Não havia mais ninguém na sala. Disse:

— Desculpe, padre, não sou o Dr. Manhães.

O velhinho levantou os olhos, procurou alguma coisa acima de minha cabeça. Perguntou incrédulo:

— Não é o Dr. Manhães? Oh! Quem é então?

— Sou amigo de Alberto.

— Alberto? Quem?

— Ele — respondi, apontando para Alberto.

Murcharam os olhos do velhinho. Ele balançou a cabeça. Balbuciou:

— Añ... Añ... Desculpe.

E sumiu capengando por trás da cortina roxa.

 

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