a

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr


Suely Chisayo Nishi (1977), é formada em Publicidade pela ECA - USP. Atualmente estuda Direito na Universidade Estadual do Amazonas, em Manaus (AM). É servidora daquele Estado e informa que "tenta ser escritora nas horas vagas."


A Casa do Risinho e a Casa da Gargalhada

Suely Chisayo Nishi


Imaginava que toda Casa do Risinho tivesse mulheres boas, cachaça, quarto privativo e luz vermelha. A Casa do Risinho de José da Silva nem luz tinha. Dona Generosa era quem gerenciava as moças. Tão pão-dura que regulava até luz.

O que chamavam de quarto na verdade era um quarto do quarto: dividia-se um quarto em quatro partes através de cortinas quadriculadas. As cortinas formavam corredores por onde trombavam pai, filho, amante da mulher, cunhado, sogro, esmolento e prefeito. Se mesmo com parede blindada daria para ouvir ruídos, imagine com aqueles panos vagabundos.

Na prática, devido à escuridão, ao tamanho do espaço e ao uso das cortinas, havia duas conseqüências, uma boa e uma ruim. A boa é que dava a impressão de que outras moças também estavam fazendo ousadia na mesma cama. A ruim é que muitas vezes parecia até que o bafo de um macho vinha no cangote.

A mão fechada de dona Generosa atraía toda sorte de moças: desde desdentadas, como a Dezinha, até umas chochas-do-peito-relando-o-chão. Complementando: sua mão fechada atraía toda sorte de moças feias. E olha que no escuro até o capeta melhora um pouco.

A gente nem podia selecionar a menos horrenda. Quem escolhia a profissional era dona Generosa. E quando chegava um rapaz de seu gosto, dizem até que era ela quem fazia o serviço. No fundo, fazia isso para pagar uma comissão a menos.

Os clientes reclamavam bastante, principalmente dos produtos, mas por tratar-se de algo de primeira necessidade e por falta de concorrência, não deixavam a Casa. Mesmo no breu das instalações, todos apertavam os olhos para se certificarem de que nada enxergariam. Outros já chegavam mamados para que o álcool fizesse o seu santo milagre.

Percebendo essa demanda insatisfeita, dona Eva, de Paraisópolis, resolveu montar uma filial de seu empreendimento bem em frente à Casa do Risinho. O estabelecimento chamava-se Casa da Gargalhada, com direito a coquetel de lançamento e a promoção de inauguração. Foi um alvoroço em José da Silva, formando fila de dar volta no quarteirão. Até o Padre Carvalho apareceu por lá, mas foi para benzer o local antes do início das atividades.

A promoção de inauguração consistiu no oferecimento de amostras grátis dos produtos da Casa. Mas mesmo depois de consolidada no mercado, a empresa de dona Eva não abria mão das tais promoções: havia a “leve duas, pague uma”, a ”achou, gamou”, a “quem brocha não paga nada” e assim por diante. Dona Eva mantinha um banco de dados atualizado de seus clientes, com seu perfil completo e seu produto preferido. Realizava parcerias com hotéis da cidade e oferecia serviços de delivery que alcançavam inclusive os lugarejos vizinhos. Também criou um Cartão Fidelidade, que no início, devido ao nome, amedrontou muitos homens, mas depois todos compreenderam seu sentido e puderam desfrutar de suas vantagens, como um serviço gratuito a cada dez visitas.

A qualificação técnica e visual das moças era milhares de vezes superior à da concorrência. Como dona Eva era uma boa pagadora, as moças da Casa do Risinho logo procuraram suas instalações, inclusive a própria dona Generosa, mas foram reprovadas pela equipe do Controle de Qualidade da Casa da Gargalhada. Era a equipe mais invejada de toda José da Silva. Todos queriam saber como eram feitos os testes e como fazer parte daquele verdadeiro “dream team”.

Ultimamente a clientela da Casa da Gargalhada tem diminuído. Talvez porque produtos da mesma qualidade são encontrados com certa facilidade nas Casas de Família, sendo oferecidos serviços gratuitos.

Percebendo que os serviços nem sempre podiam ser oferecidos nessas tais Casas de Família, dona Eva mais uma vez mostrou que estava atenta ao mercado: criou motéis, drive-ins e cultivou matinhos para se adequar às novas necessidades e a todos os bolsos. Não é à toa que ela tem sido eleita, ano após ano, o destaque empresarial de José da Silva e região.


E-mail:
apronpiggy@hotmail.com

 

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© 1996—2008 PROJETO RELEITURAS — Todos os direitos reservados.
O PROJETO RELEITURAS — UM SÍTIO SEM FINS LUCRATIVOS — tem como objetivo divulgar trabalhos
de escritores nacionais e estrangeiros. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior. ®@njo

a