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Arnaldo Nogueira Jr


Raphael Vidal escreve desde pequeno, tendo sua primeira publicação (Os Sulaicos) aos quinze anos. Da poesia, obteve bons frutos — como as Cartas da Existência — que conquistaram o público fiel dos centros culturais por onde passava. Depois de alguns anos estudando Filosofia, voltou a escrever contos, como o que agora apresentamos.


Depois, pela manhã

Raphael Vidal


Chegava sempre sorrindo. Cigarro nos cantos da boca. Parecia que não pisava no chão, flutuava silencioso. Mas marcava presença. Chapéu coco na cabeça, tombado para o lado esquerdo, sempre o esquerdo. E aquele bigodinho? Serrado, feito antes do nariz. Bonito de se ver. Era pobre, se dizia. E o que importa? Sua vida era sem exageros. Parava no balcão.

Bacaninha, uma média.

Depois ia gingado, suave, ritmado. No compasso até a bilhar. Entre goles de quentura segurava o taco, com a testa fria, olhando sempre o redor. Mostrava intimidade com o negócio. Bom negócio.

Qual é a pose?

Era um astro. Dedicação exclusiva ao tapete verde da glória. Mas não tinha fãs. Quem o via sempre chegava a invejá-lo. E lá seguia o ex-estiva, agora corpo mole, bagunçando o coreto, mostrando rebeldia nos ângulos que nem Arquimedes supunha existir. Sua elegância não guardava só para as damas da sociedade, era também sugerida aos determinados que encontrava pela frente.

Dê o nome, por gentileza...

Depois, grana no bolso, pouca, pois que muita não prestava ao seu desacostume com extravagâncias, seguia seu rumo. Batucava na caixa-de-fósforos um samba destes de outrora. Sua calça balançava. Lugar de beber não era onde ganhava dinheiro. Como dizia: bebe-se para perder e lá eu ganho. Parava noutra esquina dessas. Olhava o ambiente. Segurava uma nota no seu batuque.

Dá uma bagaceira.

Tomava em goles pequenos, maliciosos, saboreados, metidos a entendedor. Esperava a roda começar. Não tinha pressa. Puxavam logo uma cadeira pra ele, que, negando a idade, ficava em pé. Era ainda homem forte. Precisava só de um tira-gosto. Pedia o torresmo que desse já sabia a procedência. Era esperto. Metia lá pelas tantas uma boa e gelada cerveja preta. Ficava acordado, então, até amanhecer, cantando, melodia triste, abafante, parecia que ia diminuindo, depois levantava a voz no refrão como um martírio, sua voz melancólica rompia os desejos de alegria de qualquer roda, entravam em profunda concentração, o samba subia a qualidade, merecia interesse. Dizia que só cantava para a vida, que ela sendo como é... — e sempre antes de terminar a fala pedia outra bagaceira, não terminando o assunto. Vivido, sabia levar o rumo do samba, puxava Cartola.

Tive sim, outro grande amor antes do teu, tive sim...

Na volta andavam quase todos juntos. Separavam-se quando iam chegando em suas casas. O Sol raiando, algumas portas fechando, outras abrindo. Não sabia no que pensava. Temia pensar. Ficava olhando, admirado. Não como se fosse o último dia, mas o primeiro. Estranhava os lugares por onde sempre passara. Descobria novos buracos, mendigos, pontos... Até que chegava, sempre com o pão que providenciava entre uma olhada e outra. Abria o trinco, um silêncio daqueles da manhã reinava. Como era diferente da noite, do samba, da bilhar. Colocava o pão na mesa, ao lado o dinheiro que restara. Tirava o chapéu, o paletó e cambaleava até a cozinha onde tirava os sapatos sentado na cadeira. Fumava um último cigarro para lembrar com calma das coisas que se passara naquela noite, nas outras, nas muitas outras. Depois bebia um pouco d'água e exausto deitava na cama. Ligava o rádio baixinho.

São seis horas e trinta minutos, o Sol lá fora convida! Mais um dia começa! É hora de acordar...

Abria mais um sorriso, bobo, e começava a dormir.


E-Mail: vidalrj@bol.com.br

 

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