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© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr


Regina M. A. Machado é uma brasileira expatriada que em geral trata dos escritos dos outros, mas que de tanto engolir crias alheias, acaba pondo para fora alguma criatura nascida do medo e da escuridão, como tantas outras. Fez um doutorado tardio em 2007, na Sorbonne, sobre literatura brasileira. Atualmente anima oficinas de francês para imigrantes em Bonneuil-sur-Marne, onde mora. Quando tem oportunidade, traduz autores brasileiros para o francês e, em se tratando de ficção ou teatro, sempre em colaboração com algum francês de raiz


Contraponto de casa com sorriso


Regina M. A. Machado



— Até a morte de meus pais, nunca mudei.

Eu estava distraída.

— Não mudou ...?

— De casa. Até ser posta à venda, essa foi a única casa que tive.

— Deve ser algo profundamente reconfortante morar na mesma casa que se tem dentro.

— Ah, isso quer dizer o que?

— Simplesmente que você me faz lembrar que em matéria de casa eu vivi uma dualidade — havia, sim, uma casa eterna e boa, com recantos e esconderijos mágicos e até alguns inacessíveis e misteriosos, mas era a casa de minha avó. Nós, quer dizer, meus pais e eu, sempre fomos instáveis, sempre nos mudando e nunca a casa em que morávamos era satisfatória. O pior é que isso perdura, acho... Que horror!

— Bom, mas morar nessa casa que parecia eterna — mas não era — quase transforma a gente em árvore, com raiz e copa frondosa e espaçosa. Quando isso acaba, a gente descobre que não cabe direito em lugar nenhum. Você viu meu apartamento — um bom prédio bem situado no meio de outros tantos prédios parecidos, com entradas impecáveis e pátios limpos e cimentados, nenhum pedacinho de terra aparecendo, só canteiros muradinhos e floridinhos...

Nada daquela sombra no chão batido, as gaiolas que meu pai cuidava diariamente, as paredes largas, entre as quais meus velhos móveis tinham espaço e luz, que refletiam com brilho de madeira boa. Agora eu e eles ficamos um pouco empoeirados – é tudo limpo, mas meio embaçado, a poeira do tempo parece que grudou.

Tenho quase certeza que a história de Sorriso veio logo depois dessa conversa sobre a casa, trazida nessa onda de nostalgia que veio rolando, talvez nos vapores da sopa de feijão, que veio cremosa e acompanhada de torradas e de um bom vinho – duas garrafas para três pessoas – foi um jantar perfeito e uma conversa que ficou ecoando até agora e deu para rebrotar neste começo de outono europeu. Acho que também pelo fato de termos entrado num restaurante quase vazio e que, contrariamente ao do lado, não tinha música barulhenta para atrair público em busca de animação, com as poucas pessoas que havia falando baixo ou longe, não sei, mas a conversa pôde correr solta.

Devo ter esquecido vários detalhes, o que me vem são retalhos de sons, de frases.

...

— ...e além dessas minhas casas sem história, minha cidade também tem muito pouca, apesar de ter sido na origem um pouso de tropeiros, que dizem ser lugar de muita conversa e de bons causos pela noite afora. Deve ser daí minha nostalgia irrealista de luz de fogueira perdida no silêncio da noite estrelada e meu gosto de ouvir histórias, meio enrodilhada num canto.

— Pois esta cidade tem muita história, vivida ou inventada, dá no mesmo — o que fica é sempre uma história contada. E a casa de meus pais tem até um bom causo, que se poderia chamar “Sorriso da casa velha”.

— Ah, é? Alusões literárias, a esta hora?

— Pode até ser, mas não deu para resistir. Veja: Sorriso era o nome de um retardado mental, que ficou com esse nome porque sorria o tempo todo e a vizinhança o chamava assim. Ele apareceu lá em casa um belo dia, ou uma bela noite, pois acho que vinha sobretudo para dormir na varanda. Quando eu voltava de dar aula à noite, quase tinha que passar por cima dele. Minha mãe arrumou um papelão para servir de cama, mas Sorriso sumiu com ele. Ele fazia questão de deitar no capacho, que era bem grande. Acho que ele tinha uma casa, mas nunca soube bem aonde.

Lembrando dessa noite, em que festejamos o aniversário de Bia, agora que já passaram uns três meses de minha viagem ao Brasil, o que me impressiona é o fato de que esse homem fosse visto de maneira tão benigna, dele poder dormir nessa casa de família de classe média conservadora e discreta. Essa senhora tão estrita em matéria de costumes, que minhas amigas descreviam como uma mãe severa, orientada por uma moralidade já fora de uso na época, aparece como uma pessoa paradoxalmente aberta, com uma generosidade quase perigosa, se transportada para um prédio qualquer de uma cidade atual, ou talvez mesmo para uma residência burguesa da mesma época. Será que uma casa velha, cuja única ostentação de riqueza provém da sombra das árvores e da solidez dos muros um tanto maltratados, de bons móveis envernizados, toalhas bem passadas e moradores fiéis, tem mais espaço para a marginalidade, para a alteridade gratuita e incontrolável de um retardado mental ? É paradoxal, claro, mas pensando bem, foi também por ter se tornado marginal no crescimento da cidade, na partida dos filhos, no necessário abandono disso tudo que pesa e prende, que a casa velha teve que desaparecer. Em todo caso, me espantou essa história de uma dona de casa mineira aceitando, sem medo nem preconceitos, que um louco, como a gente os chamava no interior, entrasse pelo jardim confiante em que não seria expulso, sabendo que poderia dormir tranqüilo no lugar e da maneira que escolhera por motivos que só ele sabia e que aliás nenhuma instituição psiquiátrica foi chamada a questionar. Acho que um dia ela proibiu apenas que ele dormisse atravessado na porta — a restrição deve ter sido bem aceita, pois o pouso serviu ao Sorriso durante bastante tempo.

— E ele vinha todas as noites?

— Não, ele sumia de vez em quando, às vezes eu cruzava com ele na rua, de dia, mas talvez tivesse achado outro pouso, não sei. Quando minha mãe vinha da feira ele se oferecia para carregar as sacolas, se caía uma tabuinha dos cercados dos canteiros, ele arrumava, enfim, ele olhava em volta e enxergava coisas para fazer, que às vezes a gente nem via.

— O que aconteceu com o Sorriso? Achou alguma garagem de prédio para morar?

— Imagine... esse tipo de nicho num prédio moderno, com todos os espaços racionalizados e rentabilizados... impossível. E depois, com a cidade ficando tão feia, tão desfigurada parece que de susto com tanta via rápida, não dá para imaginar qualquer lugar que seja, capaz de acolher a loucura, o sorriso gratuito de um vagabundo improdutivo...

— Mas afinal, que fim levou o seu louco poético?

— Não sei. Não me lembro bem se foi com a morte de minha mãe que ele sumiu, mas sei que foi bem antes da venda da casa. Eu ainda morava lá e lembro que senti falta de tudo ao mesmo tempo. Mas o que mais pesava era a ausência de meus pais, e foi essa falta que determinou todo o resto. O Sorriso era um traço, um detalhe num quadro de outros tempos, sumiu como sumiram todos os outros momentos, almoços de domingo, visitas de irmãos, primos, sobrinhos, gente que passava na rua...

Houve outros episódios, diálogos mais vivos, mas que foram se apagando, deixando apenas essas vagas lembranças que não chegam para formar uma história. Talvez uma crônica, pedindo ecos nas lembranças dos outros, como costumam fazer as crônicas, retratando o que é efêmero e desimportante.

No dia seguinte tomamos o ônibus de volta para o Rio, a cidade enfeiada ficou para trás, a serra da Mantiqueira fez a transição, com seus restos de mata, algumas poucas árvores grandiosas, muita encosta desbarrancada, muito paliteiro de eucalipto. Sorrisos raros e desdentados na paisagem vista da estrada.

Chegando no Rio, comemos na casa de Thereza uma polenta frita bem crocante, que ela tinha prometido ao devolver a do restaurante na noite do jantar, que foi considerada mole e indigna da nossa fome saudosa e exigente — ficou faltando só o frio de Minas e a neblina com a sombra do Sorriso imaginada pelas esquinas.


E-Mail: reginamam@neuf.fr

 

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