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Arnaldo Nogueira Jr


Ricardo Monjardim Duarte é escritor, inventor, poeta e consultor de empresas.


Tudo pelos pubianos

Ricardo Monjardim Duarte


Lá estava ele, mais uma vez, nu, diante do espelho do guarda-vestido. Havia acabado de chegar do colégio mais cedo, pois não havia tido a última aula, e esperava, sem pressa, que a secretária do lar terminasse a faxina da sala, para preparar seu almoço.

Ela era uma menina nova, firme e decidida, que deixara a casa e a família às margens do Capiberibe, para conhecer e acontecer o Rio de Janeiro, a Broadway tupiniquim dos sonhos e ilusões da maioria dos nordestinos. Era uma moça de uns 17 anos, corpo bem torneado e tinha alguns modos.

Ele, ainda que mergulhado em sua inocente ignorância das coisas da vida, percebera, já há algum tempo, que aquela criatura, tão mais presente em sua vida, e tão mais participante de sua intimidade, do que seus amigos e amigas, estava começando a mexer com áreas, em seu corpo e em seu psiquismo, antes desconhecidas. Seu rosto, ainda infantil, crivado de espinhas, sem sombra de penugem de barba, moldado num crânio pequeno, tendo em baixo um corpo magro e desajeitado de braços e pernas ainda finos, com alguns ossos aparecendo, projetava-se diante do vidro refletor como que a impor-se em cobrança e admiração. Havia se trancado no quarto de sua mãe, mulher trabalhadeira e batalhadora, que há muito havia saído para garantir aquela outra parte da renda que tanta falta passou a fazer de uns 5 anos para cá, desde que ela havia se divorciado de seu pai, uma vez que se haviam descoberto genialmente incompatíveis.

Antes de fechar a porta, olhou para um lado e para o outro a fim de tentar localizar, pelo som, onde deveria estar faxinando a laboriosa e já desejada secretária do lar, que, de uns meses para cá, já o olhava com olhos de curiosidade e desejo, desde a manhã em que, acordando mais cedo, o flagrara dormindo no sofá da sala, com a braguilha da calça do pijama aberta, deixando transbordar, inocentemente, altivo e pulsante, pelo generoso espaço aberto, seu membro já bem desenvolvido, em estado de ereção plena.

Ela teria sido estuprada no sertão nordestino, aos 14 anos, por seus dois primos, no meio de um canavial e, desde então, em vez de recolher-se e fechar-se por conta de uma experiência dolorida e traumática, tornara-se, ao contrário, um furor uterino ambulante. Só na viagem para o Rio, teria se servido a seis passageiros no pau de arara e no ônibus.

Ela representava, para ele, a primeira oportunidade e, ao mesmo tempo, a primeira ameaça feminina à sua total falta de saber como fazer com mulheres, ainda mais morando dentro de sua própria casa. Acabara de fazer 13 anos e ainda não lhe haviam nascido os populares e tão desejados pentelhos, aqueles pelos encaracolados nativos da área pubiana, que tanto moral e virilidade conferiam a seus detentores (assim pensava ele e muitos de seus amigos).

Acendera a luz e, com a lupa que sua mãe usava para ampliar os pelos indesejáveis das sobrancelhas para arrancá-los com a pinça, tentava, sem sucesso, encontrar algum indício, uma penugem rala, ao menos um pontinho preto que pudesse representar um embrião de pelo, tão desejado e esperado.

Nada! Só lhe restava, então, vestir o short, apagar a luz e sair do quarto para ir espiar a secretária que, em sua faina diária, não raras vezes, adotava posições de alongamento bastante generosas, deixando à mostra, inadvertidamente, algumas partes do corpo viçoso e bem feito, ou das roupas íntimas, em suas evoluções domésticas, para manter a casa sempre arrumada e limpa. Sabendo-se não percebido por seu objeto do desejo, experimentava sensações de esquentamento do corpo, seguidas de aceleração do batimento cardíaco (chegando até a ouvir bater o coração dentro de sua caixa craniana), e uma quase asfixia conseqüente da atuação conjunta dessa síndrome, que o levava a estados variados de fantasia e êxtase solitário, indescritíveis. Ainda não tinha coragem de abordá-la para um amasso e, quem sabe, uma primeira relação sexual, mesmo que desengonçada e atabalhoada.

Sabia que queria, mas não sabia o que, nem como. Quando ela, após terminar a limpeza e arrumação da sala, caminhava, ingênua e desconhecedora das temperaturas elevadas, palpitações e emoções que havia provocado, ele corria ao banheiro e trancava-se lá, para realizar, com algum atraso, o prazer daqueles momentos que gravara, com detalhes, em sua memória visual.

Indescritível era a palavra.

Sua musa doméstica proporcionava-lhe, semanalmente, vários gozos solitários e intensos. Após se refazer da densidade daqueles momentos, recompunha-se e, deixando o banheiro, mais calmo e equilibrado, já podia ouvir aquela voz, prática e pouco polida, que ecoava dentro do apartamento: "Serginho, o almoço tá na mesa. Venha logo! Senão, vai esfriar!".


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