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Arnaldo Nogueira Jr


Roberto Ambrosio (1955) é empresário e facilitador de treinamento em grupos. Mora em São Paulo (SP).


A arte de dedicar

Roberto Ambrosio


Bienal do Livro, São Paulo, muuuuitos anos atrás. Andei quilômetros e quilômetros remexendo em prateleiras e lendo trechos que até hoje estão na minha memória. A intenção era fazer valer os poucos trocados que eu tinha no bolso e comprar um ou dois livros que valessem cem vezes aqueles cruzados (ou cruzeiros, novos ou velhos, não me lembro).

Sempre a mesma procura daqueles que gostam de garimpar livros: pela maior emoção, pelo texto perfeito que vai fazer você viajar, sofrer, sorrir, e mais que tudo, desejar ter escrito aquilo.

Lá pelas tantas já estou com uma edição argentina da poesia completa do Borges, subsidiada eu acho, porque custou um nadinha e era capa dura e papel daquele bem fino, lindo o livro. Estava feliz com aquele tesouro nas mãos e estantes depois dou de cara com um Marotta — San Gennaro non dice mai no — li um trecho (pensando bem gostaria de tê-los colocado no papel, um por um, os trechos) e adorei a prosa mansa do italiano: Il volto e l'anima di Napoli nel dramma amaro del dopoguerra. Anna Magnani, Rosselini, Paesá, e sotaques lá de casa dançaram em minha memória. Bateu uma saudade imensa do que não vivi. Comprei.

Continuei caminhando, agora livre da possibilidade de possuir, tudo o que restava era abrir volumes, levar um pouco do perfume, do conteúdo e da maciez do papel de cada um dos volumes. Muito melhor até.

Foi então que aconteceu. Sentado num daqueles espaços cheios de divisórias vejo um senhor fumando calmamente, olhando fixo para a fumaça que subia. Um velho suéter de lã verde, uma boina sobre a mesa, pesados óculos de aros escuros. Reconheci. Reuni coragem, cheguei perto e perguntei: "Desculpa....o Sr. é o Mario Quintana?". E abre-se um sorriso enorme, infantil, surpreendente como uma explosão, tão inesperada que não tive alternativa, depois do susto, senão deixar que a alegria me tomasse. Emocionante. Foi um abrir de braços, mãos, olhares. Nos demos as mãos e conversamos um pouco. Amenidades. Gosto muito de você, dos seus livros. Que bom. São seus. Gosto daquele verso onde você diz que todos os guarda-chuvas perdidos foram parar nos anéis de Saturno. Risos. E não foram? Gosto do seu sotaque. Obrigado. Comprou o meu livro? Putz! Ele olhava para os dois volumes em minhas mãos como uma criança olha para um pacote na noite de Natal. Como dizer a ele esse bendito não?

Arraamm...não...saiu sem vontade, sem força, pra falar a verdade eu...já ia emendar a verdade, eu juro, sobre o trabalho noturno, a falta de grana, e todos os livros dele que tinha em casa, de todas as viagens adolescentes que fizemos juntos pelos ares, pelos mares e pelas palavras que às vezes eram como soluços.

A essa altura também me incomodava a infinitesimal probabilidade daquele encontro insólito de um único leitor — muito menos do que ele merecia — e eu sem o livro! Por que não pensei antes que havia Quintanas nas prateleiras?

Não tive tempo pra nada além desse pensar penoso e metralhado. O homem tirou-me delicadamente das mãos o San Gennaro e abrindo com as pontas dos dedos — mãos longas demais pra seu corpo — escreveu numa caligrafia linda: Mario Quintana, grifou e logo abaixo: Vale como uma dedicatória que deveria ser para o Roberto nos "Esconderijos" e em "Prosa & Verso". Não colocou a data, sabíamos que seria um maravilhoso erro e uma brincadeira eterna. Devolveu-me o livro com um sorriso e nos despedimos com pena.

Desci o pequeno degrau e ainda o acompanhei caminhando com as mãos para trás, lentamente, olhando para o teto. Voltei de ônibus, lendo inúmeras vezes aquela dedicatória e lembrando de seus poemas: caixas de música, cadáveres, ruas de pedra e garoas. Jamais me separei desse livro. Jamais o li. Foi como se a dedicatória tivesse provocado alguma alteração nas páginas seguintes, mas isso eu não sei explicar, sei que o Marotta escritor entenderia.

Ontem eu vi com satisfação o Quintana na TV, numa entrevista antiga ao Otto Lara Rezende (e junto aos dois, acreditem, estava a Bruna Lombardi, admiradora do Mario, jovem e linda). Parece que sua morte o fez ficar ainda maior, ele que já havia escrito que "tudo que sai impresso é epitáfio" e que decerto preferiria brinquedos a fardões deve estar rindo muito ao se ver tão oficial, presente e importante.

A impressão que eu tenho ainda hoje é que ele era uma criança. Seus gestos, sorrisos e movimentos eram inquietos e infantis, havia uma coisa que se movimentava dentro dele e que movimentou algo em mim e foi através do olhar urgente, travesso e vivo, isso eu sei, senti. Era como o olhar de um menino que descobre o bolo morno pela janela da cozinha, como um passarinho que rapidamente pega uma migalha desse bolo e desaparece num barulho de asas e papel de seda.

Só lendo pra crer.

(Dedicado ao Goethe e a todos que puderam encontrar-se com o Quintana. E aos que brevemente o encontrarão em textos, sebos e livros.)

E-Mail: rambrosio@uol.com.br

 

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