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Arnaldo Nogueira Jr


Priscila Zambotto (1968), nasceu em São Caetano do Sul e atualmente mora em São Paulo (SP). É publicitária, ilustradora e fotógrafa. Sempre gostou de escrever. Não tem trabalhos publicados. O texto acima foi escrito originalmente quando tinha 14 anos e, na época, foi premiado num concurso de redação entre vários colégios do ABC. Há pouco tempo foi reescrito a fim de deixá-lo um pouco mais rico, segundo a autora.


A cadeira quebrada

Priscila Zambotto


Sinto as pernas cansadas, um vazio de alma, de corpo, de vida. Tudo é solidão. Silêncio. Espera. Dentro do quarto em que me encontro só restam lembranças. Cercada por quatro paredes, olho ao meu redor e vejo tudo parado, imóvel. Sinto saudade das festas cintilantes, dos almoços coloridos aos domingos, dos jantares íntimos e sussurrantes, da mancha de vinho que nunca saiu, do perfume das flores inundando e envolvendo o ar, da música do velho piano que hoje nem existe mais. As crianças que brincavam de se esconder sob a mesa cresceram; muitos anos se passaram. Tudo que era eterno acabou. Sinto falta das tardes ensolaradas passadas no jardim. O gato dormindo seu sono quente e macio; tão quente e tão macio como o branco e longo pelo que cobria seu corpo repousado sob o sol.

Agora, impotente, só me resta uma inevitável introspecção causada pelo isolamento claustrofóbico de um quarto escuro que há muito aprisiona objetos, lembranças, cheiros e esperanças. O ar viciado sufoca, imobiliza, anestesia como gás paralisante. Incomunicável e encarcerada na minha própria existência, espero por alguém que perceba a minha angústia, que olhe para mim e me dê valor.

Silêncio. A noite é escura e fria. Em minha inerte permanência continuo a esperar. A tristeza e o tédio me consomem, já não suporto mais tanto desprezo. Mas não tenho mágoa, apenas gostaria de poder ajudar, ser útil a alguém. Deve haver algo que eu ainda possa fazer.

Agora ouço vozes na sala: o silêncio se desfaz. Ouço passos. Entra alguém. É ele. Olha para mim com ternura enquanto caminha incerto em minha direção. Permanece ao meu lado por alguns instantes a me observar calado, como se lembranças do passado subitamente invadissem sua mente.

A noite está realmente fria. Ele me pega nos braços e me carrega em direção à sala. As vozes vão se tornando mais altas e nítidas à medida em que vamos nos aproximando. Um sopro de esperança e alegria invade meu coração: não me esqueceram!

Na sala, sou jogada à lareira e o fogo é aceso.


E-mail:
prizambotto@yahoo.com.br

 

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