A mulher mais velha do mundo

Paulo Dantas


O jornal não mentia, estava ali na primeira página, ela havia falecido às três, logo após de tomar uma dose de Porto com estricnina. Era senhora de um reinado de mulatos carregadores de cajus, vinda de Portugal ainda nos tempos do império. Seu marido tinha lhe deixado viúva na época do café-com-leite, e desde então seu luto foi fechado e severo — preto das ceroulas ao lenço de beata. Todavia seu luto não passava das roupas, quando o assunto se aprofundava para as carnes ela era toda carnaval. Do jardineiro ao ministro todos conheceram as curvas daquela mulher voluptuosa.
 
 A primeira vez tinha acontecido quase que por acidente, quando ela assistia o ruminar das vacas à noite e foi confundida com uma vendedora de amor pelo cocheiro. Mas desde então seu olhar mórbido e apagado deu lugar a um sorriso inexplicável, que era assunto das conversas de chá. Todas as vezes seguintes foram também por acidente, mas por acidentes provocados pela sapiência da viúva: ora o menino do doce a encontrava tomando banho, ora o anfitrião encontrava-a ajustando as anáguas. Não interessava a hora ou lugar, sempre algum acidente feliz acontecia.
 
 Sua vida transformou-se em uma sucessão de amores rápidos, pela metade, com as calças arriadas até os joelhos, entretanto ela não se incomodava e continuava de luto fechado até os punhos e ouvindo missa aos domingos. Era feliz, a pobre coitada. Velha, rica, bonita e fatal.
 
 Na quarta-feira de cinzas em que bebeu o Porto já havia se decidido pela manhã. Seu último amor a havia possuído com a fúria carnavalesca de um Orfeu misturado com Hércules, e no final ela havia se sentido suja, lixo, impura. Não conhecia nada assim. Todos os seus outros amantes sempre a haviam exultado, mas não esse: foi rápido, numa alcova qualquer, sem beijos ou carícias; foi carne na carne sem qualquer piedade ou cerimônia. Decidiu então que seria a última. Foi para casa, escolheu o vestido mais vermelho que encontrou, banhou-se e vestiu-se. Entornou o copo de uma só vez, sem medo ou pudor.
 
 Morreu velha, a moça.


Paulo Dantas
(1986) mora em Recife (PE) e, até hoje, só teve seus escritos publicados no jornal da escola. Nos conta que, geralmente, o que escreve sai meio de improviso, nos momentos mais improváveis. O conto acima, diz ele, foi escrito durante uma aula de química orgânica, alguns  meses atrás. Julga que boa parte de sua vida está relacionada ao Caribe (por parte da avó paterna, senhora colombiana católica militante, sempre com uma reza na manga) e ao povo judeu (por parte da avó materna, anciã polonesa de cabelos e temperamento vermelhos), e a fusão dessas culturas influencia diretamente seu modo de pensar, agir e escrever.

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