Intimidade
Olga de Moura e Mello
Não precisa levantar, mãezinha, eu lhe faço uma higiene aí na cama mesmo.
Não precisa levantar? Higiene? Quem é essa maluca que pretende me banhar?
A sogra a ajudou a sentar-se depois que a enfermeira retirou a sonda urinária.
Vamos botar uma comadre, mãezinha?
Completamente alucinada a enfermeira. E eu é que tomei morfina.
Sinalizou que não queria comadre alguma e que iria ao banheiro. O médico recomendara que
pouco falasse para evitar gases. A sogra a puxou pelos braços, a enfermeira empurrou-lhe
o tronco. Estava de pé. A barriga sumira. Apoiou-se na cama, abraçada à tagarela.
Não precisava tanto esforço, mãezinha. Que mãezinha corajosa!
Quero lavar a cabeça grunhiu.
Mas eu lavava na cama, menina. Depois, lhe vestia uma camisola linda.
No banheiro, a água não esquentava. A enfermeira ajudou a tirar a gandola, aquela bata
ridícula, aberta atrás. Com um olhar, expulsou a sogra.
Estou saindo, mas não fica com vergonha, querida. Somos amigas, mas pouco
íntimas, não é?
Nem íntimas, nem amigas somos.
Sentia-se uma índia velha, peitos imensos, arrastando-se sobre pés cansados. Um ano
antes tivera sua vez de ser tocada para fora de um banheiro. Levantara da cama o pai,
ainda pesado, quinze quilos mais magro depois da quimioterapia. Encorajava-o com palavras
carinhosas, beijinhos no ombro. Chegando ao banheiro, ele a dispensou.
Daqui, me viro.
Nunca lhe falara tão duramente. Também jamais fora carinhoso, com aquele carinho melado
que os pais dispensam às filhas. Ele a carregara no colo quando bebê e até os 7 anos,
quando, na madrugada, voltavam de festas, com a mãe. Mas não permitia que ela se
sentasse em seu colo. "Vai se acostumar a sentar em colo de homem". A função
de carregador de criança havia lhe sido transferida pela mãe, que caíra com a menina,
pequenina, tropeçando numa calçada esburacada. Pesada, foi apontada como responsável
por uma hérnia no pai no mesmo local onde o tumor se iniciara, quase trinta anos depois.
A água gelada espantou o suor de sua cabeça. A enfermeira continuava ali, querendo
passar o sabão líquido em seu corpo.
Mãezinha, você tem que guardar as forças para amamentar seu bebê.
A mãe não a amamentara. Era filha da geração Nestlé, aquela que era desmamada em uma
semana de vida e que antes dos dez anos tirava as amídalas. Haveria alguma relação
entre a ausência de leite materno e as amídalas eternamente inflamadas até serem
extirpadas? Sem amídalas, pedira sorvete de chocolate, mas não sentiu qualquer sabor.
Doía tudo, perdera o paladar. Fechou a cara para a enfermeira simpática que trouxera o
sorvete e gelatina. Detestava gelatina.
Devolveu o café da manhã. Estava limpa, pronta a receber a criança que dormia, não
queria mamar. Os seios começaram a pingar. Um enfermeiro tirou-lhe a temperatura,
perguntou pela sonda.
A outra enfermeira levou.
Acostumara-se a ver introdução e retirada de sondas urinárias na mãe, hemiplégica, na
cama. A limpeza do orifício da traqueostomia. A sonda gástrica. Os hematomas nas mãos,
pés, pernas, braços, veias que não suportavam cânulas, escalpos, invasões a um corpo
que cismava em viver, apesar de tantas condições adversas. Acariciava os cabelos ralos
da mãe crescendo depois de raspados na última cirurgia, cobrindo o calombo que
modificava o formato de sua cabeça antes tão bonita, tão sólida. Às vezes, a mãe
abria os olhos, quase sempre cerrados, combinando com o cenho franzido, a boca crispada.
Balbuciava sons ininteligíveis, jogava beijos silenciosos. Respondia com beijos em suas
mãos calejadas.
A mãe se encolhia quando sentia a presença de uma das enfermeiras. Despediu a mulher ao
deparar-se com a mãe nua na sala, na cadeira de rodas.
Que que tem demais? Aqui só tem mulher e ela nem entende direito o que acontece.
Eu estava arrumando a cama.
A menina ensaiou um chorinho. Acomodou-a próxima ao seio, que ela abocanhou com vontade,
sugando forte e provocando fisgadas no útero. Passou o indicador na bochecha rosada da
menininha, que abriu os olhos e as narinas. A enfermeira sumira, a sogra saíra, os
ruídos cessaram, a dor amainava aos poucos. O leite escorria da boca da criancinha,
agarrada em seu peito, quente, ávida. Eu lhe dou o meu corpo, o meu leite, serei seu
alimento único por seis meses. Depois, virão outras comidas, outras pessoas. Depois de
seis meses.
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