Entre copos e xícaras
Nívia Maria Vasconcellos
à Maria Beloah, minha mãe
Na hora do almoço... num lar... instituiu-se a confusão: o guaraná existia, mas os
copos, não! Todos avançaram sobre as xícaras suplentes dos copos , era
anormal, diferente, inóspita para todos essa situação. Parecia que as xícaras não
poderiam ser recipientes de guaraná. A elas caberia guardar chás ou cafés, jamais
outros líquidos. Pai, mãe e filhos, à mesa, querendo engolir o guaraná, entretanto,
para isso, tentavam esquecer que possuíam em suas mãos xícaras, não copos. Não sei se
elas, as xícaras, satisfaziam-se com sua mais nova função; só sei que todos bebiam o
guaraná de maneira equivocada, desigual... pareciam beber chá ou café, como se a
missão das xícaras fosse mais forte do que o seu conteúdo. Até a maneira de segurá-la
parecia interferir no sabor do líquido que invadia a boca daqueles que desejavam,
simplesmente, tomar guaraná sem se importar com quaisquer outras coisas.
Era, realmente, incômoda, incoerente, inconveniente essa sensação. Todos, diante dos
pratos repletos, entreolhavam-se como se comungassem do mesmo sentimento inexplicável de
insatisfação. Não suportariam por mais tempo essa tortura de se tomar guaraná em
xícara. A mãe, dona dos utensílios domésticos, passou a ser a única indiferente aos
demais. Parecia não mais se importar com a insuportável situação, parecia acomodar-se
a ela; apenas começou a reclamar que alguém teria que providenciar mais copos. O pai,
principal atingido pela reclamação, e tão incomodado quanto os filhos com as
circunstâncias que interferiam no calmo, plácido, religioso almoço olhou seus
filhos com autoridade (um olhar só atribuído aos pais), ao passo que todos foram
silenciando-se. Ele, desfazendo parte das dobras que tornavam mais sério o seu rosto,
abriu a boca como quem sugere e indagou a sua esposa entre os dentes sujos de carne: Por
que não utiliza os copos da cristaleira? Os filhos, num espanto, projetaram seus corpos
para trás com a proposta do audacioso pai. Nenhum deles teria coragem de realizar tamanha
sugestão, nenhum deles se ousaria tanto. Depois do susto, todos foram acometidos pela
espera. O silêncio tomou todos os espaços, ouvia-se cada mastigar. As xícaras foram
abandonadas, a possibilidade de substituí-las lançou uma leve alegria sobre todos (ou
quase todos). Alegria que era escondida e não era compartilhada pela mãe. Pai e filhos
fixaram sua atenção na esposa, na mãe. Ela era o centro: a decisão. A felicidade da
casa dependia dela. A comida esfriava sobre o desprezo de todos e a mãe, meio conhecedora
de seu poder, castigou marido e filhos com a sua demora.
Servia-se com um pouco mais de arroz, cortava vagarosamente a carne e mais devagar ainda a
conduzia a sua boca. Mastigava e engolia lerdamente a comida que parecia enfrentar
obstáculos para alcançar o estômago. Expectativa. Expectativa. A resposta:... Só temos
esses copos da cristaleira! Se fossem quaisquer copos não estariam na cristaleira!
Silenciou-se Se forem quebrados... Ficaremos sem copos; eles são tão bonitos
lá... na cristaleira. O silêncio voltou a tomar conta da mesa. Pai e filhos aguardavam
quase que desesperançosos a segurar garfos e facas, naquele momento, inúteis, até que
ela:... não olhem para mim assim! Foram presentes... são caros. Não tendo mais nada a
dizer, a mãe olhou para o seu prato como quem desvia e encheu o garfo retornando ao
almoço.
Pai e filhos, silenciosos e cabisbaixos ouvintes, sabiam a resposta dela e ela, em
verdade, nem proferiu uma resposta, apenas tentava justificá-la, sem muito sucesso. Nada!
Nada de comunhão de bens: os copos pertenciam à mãe. Acatando, mesmo sem compreender a
decisão, o veredicto que, de alguma forma, já era previsível, marido e rebentos também
retornaram ao almoço. A mãe, ainda indiferente uma indiferença querida a fim de
não perceber ou fingir que não percebia a malevolidade de seu ato comia e bebia
como quem não se preocupa.
... Os copos continuaram na cristaleira por incontáveis anos, furtados da sua função de
copos. Eram enfeites, objetos intocáveis, contemplados e admirados, mas inacessíveis. Os
filhos cresceram e construíram famílias com mesas do almoço repletas de copos. O pai...
já não tinha planos. A mãe, quando triste e abandonada, olhava para a cristaleira que
lhe era lembrança. A cristaleira seguia incólume com seus copos, os únicos membros da
família que ainda não sofreram as seqüelas inevitáveis do tempo...
E-mail: niviamvasconcellos@yahoo.com.br
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