Fumo

Nuno Franco Ferreira


Renato Romariz Rebelo fabricava cachimbos. E estava cansado.

Era um homem sólido, resistente, de antes quebrar que torcer, são de corpo e de espírito, embora não acreditasse neste. Mas agora, estava cansado, agora, tantos anos depois daquela primeira vez em que tinha visto o mar.

Já era adulto, Renato Romariz Rebelo, quando pela primeira vez foi com o pai visitar o Colosso Líquido. “Colosso Líquido”, era assim que lhe chamava o pai, inimigo de todos os mares e amigo de poucas terras e de ainda menos terrestres. Mas não é acerca do pai de Renato Romariz Rebelo que aqui se escreve, é sobre o próprio Renato Romariz Rebelo, homem sólido que fabricava cachimbos. E que estava cansado. Cansado de viver em terra.

E foi por estar cansado que soube um dia Renato Romariz Rebelo que deveria fazer-se ao caminho, percorrer as centenas de quilómetros que o afastavam do mar, ou, mais precisamente, que separavam a ínfima aldeia onde sempre vivera do Oceano mais próximo. É que Renato Romariz Rebelo, que fabricava cachimbos, queria viver no mar, como os peixes. Aliás, Renato Romariz Rebelo tinha a certeza de ser um peixe e não o escondia, embora poucos o levassem a sério.

Mas faziam mal, como um dia se viu, e foi esse o dia em que, por fim, Renato Romariz Rebelo despertou, vestiu-se, engoliu, à pressa, um pão já rijo de vários dias de esquecimento e depositou, num saco de lona, os seus utensílios de artesão de cachimbos (porque Renato Romariz Rebelo, que estava cansado de viver em terra e julgava ser peixe, fabricava cachimbos e isto é bom que não se esqueça, mais à frente se saberá porquê). E foi assim que Renato Romariz Rebelo partiu, de saca ao ombro (ao ombro por ser dessa forma mais fácil carregá-la, já que a saca era pesada, e a quem quiser saber se serão assim tão pesados os utensílios com que os cachimbos se fabricam, sempre se poderá responder que pesados não serão assim tanto, mas
acrescente-se, para conveniente esclarecimento dos inquiridores, que a saca ia pesada menos pelos utensílios que lá levava, mais pela muita madeira que os mesmos iriam moldar e que Renato Romariz Rebelo quis levar consigo).

Caminhava decidido, muito determinado, Renato Romariz Rebelo. Tinha-se finalmente disposto a atravessar as várias planícies, uma ou outra montanha, um deserto esquecido e seis colinas gémeas que se interpunham entre ele e o elemento que julgava seu (o porquê de serem seis, as colinas, e sobretudo de serem gémeas, não se pergunte ao narrador, que mais não sabe contar que o que aprendeu por ter ouvido). E quando chegou junto ao mar, Renato Romariz Rebelo indagou que maré seria aquela e embora não se perceba junto de quem terá indagado, porque não havia outra alma viva na praia (e de almas mortas, já se sabe, não há que esperar réplica, porque são mudas), o que é certo é que obteve resposta, porque logo ali se inteirou que a maré estava vazia e que deveria sentar-se, à beira da água, aguardando que ela subisse.

Ninguém soube exactamente o que se passou, ninguém o viu desaparecer, submergir na enchente da maré, tragado pelo Oceano, enrolado na afoita onda que dele se acercou e lhe pediu companhia para a viagem de regresso. O que é certo é que, desde o dia em que saiu do torrão natal, em busca do Oceano que escolheu habitar, Renato Romariz Rebelo nunca mais foi visto.

Mas há quem jure ter ouvido contar (e isso sei-o eu, porque a mim foi dito por um que o ouviu) que há uma terra distante, junto ao largo Oceano, em que os pescadores há muito se queixam da falta do peixe que antes aí abundava.

Agora, ao que dizem, só pescam cachimbos.


(foi mantida a grafia original)


Nuno Franco Ferreira
(1969) nasceu e reside em Lisboa, Portugal. Consultor em sistemas de informação, gosta bastante de escrever, mas nunca tentou publicar os seus trabalhos. Diz ser esta a primeira vez que procura — que sente necessidade? — de partilhar aquilo que escreve com outros.

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