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Nanci de Almeida  Sampaio


Vestia a farda da polícia. Todos os dias, pontualmente. Nascera numa família numerosa e pobre; caçula de oito filhos, ele só tinha irmãs. Desde muito pequeno, gostava de defendê-las com suas armas de cabo de vassoura. Depois, treinara um vira-latas já cansado do ofício a dar alarme ao sentir algum perigo rondando o quintal. Leal, o cão deixou de cavar buracos na terra, enterrar ossos, perseguir o próprio rabo, para concentrar-se nos ruídos e movimentos da vizinhança, embora desconfiasse de que não havia muito o que salvar. Fazia-o por Sebastião, que lhe tratava o pêlo com cuidado e lhe afagava a cabeça chegando ou saindo de casa.

Terminado o turno, recolhia seus pertences do armário e descia as ruas de terra batida; quando chovia, descalçava as botas para não sujá-las de barro. Nem aos domingos deixava de usá-las. Sua primeira providência em casa era lavar a camisa, tirando do colarinho e das mangas as manchas de suor. Sempre comia sozinho a um canto da cozinha, em pé. Às vezes, observando as estrelas, com o cão embaixo do banco de madeira, onde se sentava; sentia uma saudade doída da mãe e arrancava lamentos do violão, como se arranhasse o peito e não as cordas. Ouvia os roncos do pai dormindo na cama larga, que agora só acolhia um corpo magro e curvado. Deixava-se ficar ali aos sons cavernosos da noite.

Vinha guardando dinheiro numa lata de biscoito, uma singela recordação da mãe. Já meio roída pela ferrugem, exibia figurada uma família em volta de uma mesa farta, os biscoitos amanteigados, que pareciam uma delícia; imaginava-os a se derreter em bocas outras, de gengivas escuras e dentes faltando. Na verdade, a velha jamais soubera o gosto daquelas guloseimas, pois a lata encontrara no lixo e decidira colocá-la em cima da penteadeira. As economias, Sebastião usaria para ajudar nas despesas de uma festa de aniversário à irmã mais velha. Sonhava com o quintal novamente cheio, as crianças brincando, fartura de comida, os parentes em comunhão. Convidaria os tios, poucos primos — era preciso haver carne para todos. As irmãs chegariam com os maridos, uns filhos pelas mãos, outros soltos, os pequeninos nos braços; o pai se sentaria altivo à cabeceira da mesa comprida. Tudo, ele olharia. A aniversariante empenhara-se nos cuidados com o irmão, sempre inconformado com a morte da mãe; juntos choraram quando ele fora aprovado no concurso. Pudesse, Sebastião só andaria uniformizado. Tivesse, mostraria as medalhas: reconhecimento silencioso de sua bravura.

Os convidados já se espalhavam pelo terreno, amassando a terra, pisando os matos, quando Sebastião precisou sair. Com a correria dos preparativos, se esquecera do remédio para o pai. Rapidamente iria até a farmácia e voltaria para aquele cenário tão sonhado, que se desenhava ali perfeito, feito mágica. Afastou-se saboreando o cheiro das galinhas e do porco no fogão, quase mastigando. Parou ao portão e olhou para trás: no centro do terreno, a mesa, o patriarca, o mundo girando em volta. Pensou ter ouvido os latidos aflitos do seu cão, mas seguiu tranqüilo, pois não haveria ameaça num domingo tão azul; de imediato esquecido do presságio do cão, seguiu pela rua.

Balançava o pequeno pacote pardo na mão, quando ouviu gritos, seguidos de um alvoroço na chácara rica, diante da qual acabara de passar. O dono apareceu lento, apoiado na bengala, enquanto uma mulher corria, carregando uma galinha embaixo do braço. Mal entendeu e Sebastião pôs-se a persegui-la. O homem praguejava junto à cerca enquanto Sebastião e a mulher corriam para seus destinos, inconscientes deles naquele momento. Ao alcançá-la, segurou-lhe frouxamente o braço fino. A galinha pulou, sem fugir; a mulher aguardava com olhos arregalados, nenhum pio. Sebastião pegou a ave pelas asas escuras e caminhou ao lado da mulher, com a mão livre em seu ombro.

Reparou que a ladra enxugava os olhos com a ponta de um pano sujo que trazia consigo; como mantivesse a cabeça baixa, apesar do orgulho por cumprir seu papel, Sebastião viu os pés descalços, os calcanhares gretados, os passos se arrastando, o peso de uma barriga grande, talvez vazia. Sebastião devolveu a ave ao homem e partiu com a ladra para a delegacia. Um não falou para acusar, por isso a outra não pôde defender-se.

Levou tempo até que a vítima aparecesse e os procedimentos estivessem prontos. “Sumiram muitas, além dos ovos”, o homem grunhia, “só pode ter sido ela; graças a Deus há gente de bem nesta terra ou não teria conseguido capturá-la... um velho inválido, uma mulher má e com saúde...” Sebastião esperou que o dispensassem e percorreu o caminho de volta sempre a olhar as botas brilhando. Ainda no portão de casa, viu os sobrinhos a se acotovelar por um naco de carne, o cheiro salgado de bicho cozido a lhe enjoar o estômago. A boca cheia de água, os olhos escorrendo. Não comeu ou bebeu. No fim da tarde, as irmãs recolheram a louça, os maridos, as crianças e se foram. Os parentes já haviam se retirado. O pai roncava, o corpo caído em cima da mesa; tudo, Sebastião olhava.

Na panela, boiavam pés desprezados de frango. Sebastião forrou a lata de biscoito, totalmente vazia, com papel de pão, juntou arroz ao frango, pensando na desconhecida atrás das grades; debaixo de chuva grossa, marchou pela distância, com o cão ao seu lado. Ao chegar, encontrou a delegacia escura, o guarda cochilando, a mulher sentada a um canto da única cela ocupada. Sebastião ofereceu-se para terminar o turno do colega que saiu sem demora. Estavam os dois — a ladra e o policial — com fome, por isso atormentados e em meio à lama que se formara, ouvindo um gotejar fúnebre. Quando ele virou a chave, ela se aproximou da grade e esperou. Sebastião colocou a lata com alimento em cima do estrado da cama. Sentindo o tremor de seus ossos fracos, ele esmagou a boca da mulher com um beijo brutal. Então, continuou a segurá-la com força, retribuindo seus soluços baixinhos.

Como eram poderosas as vítimas! Ele a possuiu com desespero e num ímpeto jogou-a contra a parede. A mulher ainda imaginou-se lá fora num dia ensolarado.


Nanci de Almeida Sampaio
(1964), paulistana, tem fetiche por livros. Escreve por absoluto prazer, sendo a maioria de seus textos inédita. Além das letras, é apaixonada por Chico Buarque e pela obra de Van Gogh. Pode ser encontrada em sebos "empoeirados" — mais de boas idéias do que de pó — de São Paulo, na página da REBRA ou em bons sítios literários da internet.

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