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Arnaldo Nogueira Jr


Márcio Silveira dos Santos nasceu em Porto Alegre no ano de 1971. Professor, contista, dramaturgo, ator e diretor de teatro, coordena grupo que viaja pelo país apresentando espetáculos mambembes de Teatro de Rua. É licenciado em Educação Artística — ênfase em Artes Cênicas pela UFRGS. Ministra aulas de artes na periferia de Porto Alegre há mais de dez anos.


Outono implacável

Márcio Silveira


Ela pára! Levanta a cabeça. Olha ao redor e vê ninguém andando pelas ruas do centro. Só o vento, as folhas caindo e a chuva fina melancolicamente a escorrer por seus cabelos longos, negros, pesados. Leva a mão da aliança ao peito, a outra junto à barriga. Contrações e inchaços. Dores constantes nos pés, mãos, olhos, cabeça, costas, coluna. O vento é agradável, mas o ar lhe parece tão rarefeito, mal consegue respirar. Sente um aperto no peito, abraçasse procurando conter o coração disparatado. O outono vai ser implacável. O corpo frágil, lânguido tenta se deslocar rapidamente entre poças d’água, mas sente-se um caracol de casco quebrado ao ver o reflexo de sua carcaça. Vê pela primeira vez seu rosto por inteiro. A solidão é algo tão forte que as lembranças lhe dilaceram as entranhas. Segue o caminhar. Já é tardinha e murmura baixinho:

— Desgraça de vida!

Sente que o mundo já não lhe causará mais alegrias, com voz tremula segue exclamando:

— Vida triste sem sentido num mundo traiçoeiro!

Com aparência de sete meses sente o bebê chutar a barriga, como se quisesse dizer algo. Ela pára. Ele não. Com as mãos na barriga diz em voz alta e chorosa:

— Você quer a luz, mas é muito cedo, pelo amor de Deus agora não!

A chuva se estanca por um instante e seus sentidos estão tão sensíveis que sente sob os pés, através das folhas úmidas, o tremor das águas correndo nas veias do concreto ao mesmo tempo sente o sabor cítrico da chuva. O frio aumenta e a noite logo cobrirá a cidade com seu manto negro azulado de luzes irritantes para seus esbugalhados olhos. Olhos que tanto testemunharam, como a uma semana viram seus pais carbonizados num barraco na Vila Bom Jesus, presenciaram seu marido sangrar até a morte por oito furos nas costas uma noite atrás no beco do mijo. Suas lembranças são interrompidas de súbito quando percebe as pernas encharcadas de um sangue quente, por alguns instantes sente um misto de prazer e terror, em seguida afrouxa-lhe as pernas. A chuva e o vento, agora congelantes, voltam mais intensos. Parece castigo, pensa. Em prantos olha para o céu e as gotas chicoteiam sua face marcada por cicatrizes. E na ânsia de se livrar das lembranças que retornam, em desespero corre, corre como nunca, mas logo cansa, desequilibra-se, mergulha no asfalto, grita, urra como um cachorro atropelado, até a vida esvair-se toda pelos poros e buracos do corpo esgotado. Em meio aos relâmpagos e trovoadas a chuva ameniza e naquele rosto cor de nuvens paira um leve sorriso embalado por um choro de bebê.


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marccios@ig.com.br

 

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