Em extremos

Mariana Ribas


Quero ler e reler as coisas que te escrevi. Quero ler muitas vezes. Até chegar o ponto de nada fazer mais sentido. Até chegar o ponto do vazio. O ponto das palavras que não dizem e não comunicam mais. O ponto neutro. O ponto entre o que houve de bom e o que houve de ruim. A neutralidade de tudo enfim. Quero a neutralidade das palavras e a neutralidade das ações. Quero que o meu gesto se neutralize ao seu. Que o seu abraço não signifique mais. Que sua boca não me diga mais nada além do esvaziamento das suas palavras. Que esta neutralidade seja mútua. Não estou sendo má. Quero a neutralidade para você também. Mas a neutralidade está tão mais próxima a você. Será que não vê? Meu caminho tende ao extremo, sempre. Mas você nunca foi extremado, sempre tendeu ao centro das coisas. E eu sigo no extremo disso. Nos extremos dos lados de cá, que é onde você não está. No extremo das extremidades das terras dos sem fim. Grito-te de lá, mas o grito não ecoa. Não há paredes para reverberar. Estou sozinha no extremo das coisas. Sabe, no extremo não se tem muita gente não. Nem sei dizer se é lugar de gente. Talvez por isso não se fale muito nele. Lá não cabe a racionalidade de homens que pensam. Lá não existe a razão dos fatos ou a tentativa de tentar interpretá-los. No extremo das coisas existe só a veia pulsando e o sangue ainda quente. No extremo das coisas cai a figura do homem pensante. E reaparecem as patas e os rabos, de quem pensava tê-los cortado. Lá tudo é real. É a realidade que não se esconde. Tudo se mostra como realmente é, sem máscaras. O rosto muda de feição a todo instante, reagindo aos menores estímulos. No extremo se é, a todo o momento. E ser dói. Como ferida de velho que não cicatriza nunca. É a dor de se saber humano e reptílico, mesmo quando não se quer. É a dor das constatações dos fatos. O extremo é cruel. Por isso busco o neutro agora. Não sou mais forte como imaginava. Mas é preciso força para permanecer no neutro também. O neutro é o esvaziamento das coisas. É o entendimento da perda e sua aceitação. Tenho medo do neutro. Será que vou aprender a conviver com minhas patas e meu rabo? No extremo aprendi a aceitá-los. No neutro talvez se aceite, mas sem o uso da força bruta. A força bruta que me guiou por tanto tempo. Não quero mais guerras. Não quero mais ter que empenhar espadas. Quero a bandeira branca balançando no alto do mastro.


Mariana Ribas Coimbra
é atriz e estudante de arquitetura da UFRJ no Rio de Janeiro. Diz que escreve por uma necessidade básica, como falou Clarice Lispector: "escrevo como quem vive". Não sabe ao certo o porquê, não é muito afeita a explicações racionais. Prefere deixar as coisas irem acontecendo. Além de Clarice Lispector, tem outros autores por quem é apaixonada, como Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst, Manuel Bandeira, Rubem Fonseca, Gabriel Garcia Marques... e tantos outros mais. Já escreveu textos para algumas peças teatrais das quais participou no Rio de Janeiro (RJ).

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