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Arnaldo Nogueira Jr


Márcio Matiassi Cantarin nasceu em 27/06/1979. É professor de Literatura Brasileira em uma faculdade no interior paulista. Está terminando o mestrado em Letras - Estudos Literários pela Universidade Estadual de Londrina - UEL.


Zé Vitório: Filho do rio

Márcio Matiassi Cantarin


Naquela manhã de maio, João Pedro resolveu enfim ir ao encontro de Pai Tito. Como estavam, as coisas não podiam ficar. Já havia mais de oito anos que casara-se com Donana e a diaba ainda não lhe dera o filho com que sonhara desde a idade moça. Agora não tinha mais jeito. Acordou bem cedo, juntou toda a tralha que precisaria para a jornada e se meteu pelo mato ainda madrugada, rumo ao rio. Do casebre onde vivia com a mulher até o rio, não era grande a distância; mas dali ao local onde diziam viver o tal Pai Tito, ia mais de meio dia de viagem rio abaixo. O pior mesmo era a volta, quando tinha de enfrentar o Amazonas poderoso a correr contra o curso da canoa. Se tivesse alguma sorte, talvez encontrasse o motor de um conhecido e então poderia vir a reboque.

Apesar de tudo, João Pedro não reclamava. Além de estar acostumado com as dificuldades impostas pela vida ao homem da floresta, tinha plena convicção que o velho curandeiro encontraria solução para o seu caso.

A respeito de Tito pouca coisa se sabia. Apenas que era um velho muito velho, cujos contemporâneos ao seu nascimento já estavam todos mortos e, portanto, o que restava acerca de sua história não passava de lendas, as quais os povos da floresta disseminavam sem grandes preocupações com a veracidade.

Grande parte das histórias contadas a respeito da lendária figura davam conta de Pai Tito ser um curandeiro, ou feiticeiro, ou ainda um poderoso espírito da floresta em forma de velho, que ajudava as pessoas que a ele se dirigissem com fé. Todos os seguidores de seus conselhos conseguiam o que desejavam ou acabavam com o problema que os atormentava...

***

Enquanto a parteira assistia Donana no interior da pequena casa, João Pedro olhava extasiado para aquele riozão de Deus que estava lhe dando um filho, depois de ter perdoado tudo o que sua estirpe havia feito contra ele. Pelo menos, era isso que Pai Tito havia dito há quase onze meses, quando conversaram: — João Pedro, você tem uma dívida para com o rio, herdada de seus pais e dos pais de sua mulher, que fizeram mal ao rio quando trabalhavam no garimpo. Se você realmente quer ter um filho, deve fazer oferendas ao rio e seus espíritos, para que ele vos perdoe e abençoe a criança. Faça o que vos digo quantas vezes precisar, até que a mulher pegue cria.

João lembrava-se perfeitamente de cada palavra proferida pelo velho, e ali, naquele momento de mágica expectativa, agradecia em oração aos conselhos recebidos, e em especial agradecia ao rio, pela dádiva que estava a receber. Aquele rio, que desde criança aprendera a amar e respeitar, por saber que dele provém seu sustento, dele depende a vida do povo amazônico, dele dependem os animais que ali vivem, dele depende a própria floresta que os cerca por todos os lados...

Lembrava também que o rio não é só vida. O rio também tira muitas coisas, por vezes a própria vida de índios, caboclos, garimpeiros brancos. Quantas vezes não vira o rio arrastar casas como faz à uma folha seca; e quanta gente não vira sumir em suas águas? O rio é assim mesmo. Ele dá, mas também tira. O rio é assim mesmo.

Mas aquele não era momento para lembrar coisas tristes, seu herdeiro estava nascendo. Oxalá fosse homem, para poder lhe ensinar tudo o que sabia sobre o rio e a selva: a nadar, a pescar, a caçar, a amar e respeitar aquelas maravilhas todas que Deus lhes confiara. Conhecimento e sabedoria: esta era a única herança real que poderia deixar à sua prole.

Se fosse mulher também seria bem quista e chamar-se-ia Vitória.

De repente, João foi tirado daquele aluvião de pensamentos que povoava sua mente, pelo choro da criança acabada de vir à luz. Correu até a casa e chegando perto, a parteira que vinha ao seu encontro anunciou: — É menino macho, seu Pedrinho. João Pedro não cabia em si, tamanho era o seu contentamento.

Mais tarde, Donana pediu-lhe consentimento para que o nome do garoto fosse José Vitório.

***

Era difícil ver por aquelas bandas, moleque tão forte, esperto e inteligente como Zé Vitório, — O filho do rio —. Foi por esta alcunha que ficou mais conhecido no pequeno vilarejo. E contava com entusiasmo a sua história. E todo dia à noite, a pedido de seus pais, rezava aos espíritos do rio para bem guardarem a alma do velho Tito, que morrera no dia do seu nascimento.

Todos estimavam muito o garoto. E disso, e por outras coisas, João e Donana tinham grande orgulho e amor ao filho. O pai era a figura do homem realizado na vida. Dentro de seus modestos anseios, conseguiu tudo o que queria; e tudo o que sabia transmitiu ao filho.

Zé Vitório nadava eximiamente. Parecia mesmo fazer parte do rio; uma integração perfeita, como pai e filho. Com a canoa era habilíssimo; ninguém era melhor que ele para desviar de troncos mortos no rio ou para enfrentar a correnteza, buscando os lugares certos e momentos oportunos para vencê-la.

***

Certo dia, quando o Filho do rio contava já dezesseis anos, na época das cheias, pôs ele o bote n'água a fim de buscar a tralha de pesca que havia esquecido numa ilhota não longe dali.

O rio estava naquele momento furioso e agitado por fortes ventos. João Pedro não se preocupou, pois confiava muito no garoto e ficou só observando o bote se distanciar da margem. Quando Zé Vitório atingiu uma parte onde a correnteza era mais forte, a embarcação perdeu estabilidade e ele foi jogado às águas, de onde jamais saiu.

O rio é assim mesmo.

 

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