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Arnaldo Nogueira Jr


Márcio Ezequiel (1972) é natural de Porto Alegre (RS). Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, tem um currículo invejável para quem está começando. Alguns de seus trabalhos: "Impressões da Travessia" (em 103 que contam, Charles Kiefer - Org., 2006), "A baixa" (em Histórias de trabalho 2006/Prefeitura Municipal de Porto Alegre - conto premiado); "Matinê" (em A semente e o verbo, Caio Riter, Org. - conto premiado); "Alfândega de Porto Alegre — 200 anos de história", 2007 - livro individual) e "O dia em que Jonas saiu para pescar" (em Novos contos imperdíveis — conto premiado), Ed. Nova Prova - Porto Alegre - 2007, organização de Charles Kiefer, de onde o texto ao lado foi extraído.

 


O dia em que Jonas saiu para pescar

Márcio Ezequiel


Milena nunca o pegou em flagrante. Chegou a seguí-lo e nada. Fez escândalos no trabalho de Jonas e pelas ruas do centro. Vergonhoso. Se pegasse era capaz de nem- prestava-dizer. Desde o começo já havia as tais pescarias. Não a perturbavam de todo. Só estranhava que nunca trouxe um peixe sequer pra casa. Diz que comiam lá mesmo e pescaria era coisa de homem. Sabe como é: dormir em barraca, cagar no mato e outras rusticidades. Quem ele pensava enganar? No serviço. No clube. Na padaria. Onde conhecia as vagabundas? Pior é que passou a se vestir melhor, andar bem barbeado e cheiroso. O filho da mãe até estava mais charmoso e a tratando com mais carinho, como no princípio do namoro. Então ela fazia o maior dos banzés e ele nem-te-ligo. Não fantasia, Mi! Estamos tão bem. Mesmo sem apanhá-lo em delito, julgava conhecer nitidamente cada uma das três amantes que o marido teve. Não pessoalmente, nem de nome, mas através dos perfumes e cheiros, dos fios de cabelo, das manias, palavras e risos desmotivados. Sentia uma presença perturbadora na sombra dele, colecionando indícios. Logo que percebeu um novo perfume, ficou confusa. Caso novo? Teve um certo prazer ao imaginar a dor que a primeira sentiria. Foi quando começou a chamá-las assim: a primeira, a segunda e por fim aquela menina, a terceira. No início ela também sofrera bastante. A mancha do batom, que sabia-não-era-seu, na manga da camisa de Jonas não deixara dúvidas: ele tinha outra e nem era dia de pescaria. Ficou virada num bicho. Furiosa. Depois chorou e se calou. Ele, impassível. Com a mãe e a avó fora igual. Os velhos aprontaram e ele aprontava. Não seria diferente pra ela. De fato, a relação já tocava num ritmo de mesmo tom que beirava a crise. Quando chega nesse ponto ou alguém inventa ou a coisa pode descambar para a separação. Ou insanidade. Jonas trouxe flores. Depois inventou as tais noites de canastra com os colegas. Só pra homens? Pois sim! Que comece o barraco! Tinha que ter mulher na jogada. Na volta pra casa ela analisava tudo. Bolsos. Carteira. Celular. Golas e punhos. Até o pouco-cheiro- de-cigarro era denunciador para a perícia de Milena. Ninguém dos teus amigos fuma durante o jogo? É uma reunião de crentes? Geração-saúde o caramba! Claro, que não podia ter cheiro. Ela não fumava. A primeira, não. Ah, aquele perfume... Milena guardava o que mais pode se aproximar de uma lembrança olfativa com um aperto no peito. Odor adocicado, aveludado, bordô. Devia ser francês. O abobado devia ter dado. Como seria a sua voz? Naquele feriado o silêncio no telefone só podia ser dela. Desgraçada! A gripe o derrubou e não teve jogo. Ficou esperando. Coitada. Às vezes, na rua, seguia fragrâncias semelhantes, porém nunca idênticas. A que mais lembrou o bendito cheiro encontrou no rastro de uma gringuinha, que nem de longe podia ser a linda morena de Jonas. Para Milena ela teria feições clássicas. Alta. Pele bem branca. Olhos tão escuros quanto a longa cabeleira. Uma madame. Já o perfume da segunda era repulsivo. Cítrico, áspero, verde. No cabelo seco a diaba tinha uma cor de fogo que exigia um deus-que-me-perdoe. Nos dedos de Jonas um cheiro mais forte, o ranço ardido da cândida com certeza. A primeira finalmente recebera o que merecia. Que peninha! Milena sentia uma certa angústia. Uma quase-saudade. Guardava os longos fios do negro cabelo da primeira numa caixinha de música que Jonas lhe dera quando completaram dez anos. Ele não mexia ali, odiava a melodia. Brega, brega. Milena desejava ter casado com aquela trilha. Da segunda mulher, ela guardou apenas três fios com um certo asco. Sentia cheiro de cigarro só de abrir a niqueleira em que depositou o cabelo vermelho. Deixou separados os mimos que Jonas trazia. Não que a morena merecesse, apenas não quis misturar as provas que um dia lançaria na cara de Jonas. Simpatizava com a primeira. Até sonhara com ela. Mulher fina, de pele macia. Aspirava a caixinha de olhos fechados, segurando os fios com a ponta dos dedos. Buscava captar por um segundo o velho aroma. Chorava ouvindo o Tema de Lara. Não raro se masturbava pensando em como Jonas a possuía. Com a segunda, não. Era uma sirigaita das mais chinfrins. Cheirava a dinheiro fácil. A sujeira. Foi com ela que Jonas aprendera aquelas porcarias na cama. A primeira não faria aquilo. Não, de jeito nenhum. Dela, Jonas só trouxe delicadeza, suavidade, ternura. Enquanto ele se esforçava para satisfazer Milena, ela buscava mais traços da musa escondida no corpo do marido. Depois, a segunda estragou tudo. Jonas quis forçar por trás a todo custo. Nem pensar! Ali não foi feito pra isso, que nojo! E devia gostar muito, pois esticou pra três noites por semana as saídas de jogatina. Cada um se diverte a seu modo. Agora, jogo de cartas? Por Deus, a pescaria era mais convincente. Uma. Duas vezes por mês. O fim de semana todo que fosse! Não se importaria. O Siqueira, colega dele, outro sem-vergonha, ajudava. Ligava confirmando o jogo e combinavam quem faria a janta. Descobriu que a segunda cozinhava mal. Muita cebola e fritura. Aumentou a barriga de Jonas. Teve que comprar roupa nova, mas o prejuízo não foi grande e a aventura durou pouco. Ultimamente tem malhado. Desce toda a Cavalhada de abrigo e alpargata. Ridículo. Sim, porque para a ninfetinha, para a terceira, o garotão tinha que ficar em forma, se não ela chutava o coroa. Essa não usava perfume. Jonas trazia no corpo somente o cheiro da pele dela. Não era ruim. Nem bom. Leve traço de suor, quase um cheirinho de bebê. Fedelha salobra! Para Milena já era sinal de taradice. Andava cheio de gírias, faceiro e todo ligeirinho. Hoje em dia é mais fácil que no tempo dos velhos. Não tem impotência que barre a putaria. No mínimo ela tirava dinheiro do trouxa. Só assim para uma guria agüentar o Jonas. Milena já estava cansada daquilo tudo. Tinha que tomar uma atitude. Por ela, pela família ou pela primeira, pô! Resolveu falar tudo. Ou tudo que podia admitir aos próprios ouvidos. Começou conversando depois brigou, chorou e implorou. Ela queria recuperar algo do romantismo perdido. Ele prometeu pensar em um jeito de reavivar a relação. Inventaria alguma saída. Não se falou mais em canastrinha e, com a benção de Milena, Jonas finalmente saiu para uma pescaria. Ela ficou em casa esperançosa. Nas mãos, a caixa musical em formato de coração. No último domingo, do outro lado da cidade, Janete, a legítima esposa de Jonas, preparou um delicioso peixe à escabeche. Como sempre, com muita cebola.


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