De louca, Maria-Pé-de-boi não tinha
nada
Maria Célia Ferrarez
Maricota perambulava pelas ruas da cidade, seguida de um séqüito de meninos e moscas
atraídas pelo cheiro de sua urina. "Oi aproveita o rela-buxo, Maricota, venha
cá...". Ela metia as unhas na cabeça, como se arrancar o couro cabeludo lhe
trouxesse o entendimento. E, ao coçar as sua nádegas, o mistério se desfazia com o
levantar da ponta de seu vestido. Quanto mais carne surgia, o coro entoava "Oi
aproveita o rela-buxo, Maricota venha cá...".
Os homens, que ignoravam a existência da alma em constante agonia, enxertavam Maricota
como se enxerta um bicho, no matagal entre o campo de futebol e a delegacia. Esses homens
estavam próximos, mas não podiam ser identificados, protegidos pela crueldade de seus
atos. Quando seus filhos nasciam, desapareciam ainda cobertos pela placenta. Pelos bicos
de seus seios, Maricota expurgava a sua dor.
Maria Marrada era a guardiã da ponte. Com sua boca sem dentes, ela ruminava pedaços das
tiras de pano amarradas em seus pulsos. Seu corpo pelado nas noites de lua cheia, ou
vestido por trapos coloridos que a luz do sol tornava visível ao longe, obrigava-nos a
descobrir um atalho para cortar caminho. O pai dizia "fora daqui menino! Maria
Marrada adora pedaço de gente que mete o nariz onde não é chamado... Para jogá-lo
ponte abaixo!
De louca, Maria Pé-de-boi não tinha nada. Amortecia a sua dura vida com garrafas de
cachaça. "Ô Maria Pé-de-boi, vem me pegar!" Maria Pé-de-boi bem que gostaria
de correr atrás dos meninos, mas se arrastava pelo peso insuportável. Sua sina era ter o
pé semelhante à pata de um elefante. Bode Cheiroso era louco e lúcido. Dava conta de
tudo o que acontecia na cidade, desde o tempo em que o trem de ferro ia e vinha pelos
trilhos da Bahia - Minas. Com o seu cérebro em ebulição sobre o corpo de dois metros de
altura, extravasava seus ímpetos piromaníacos, queimando o lixo da mediocridade humana
em fogueiras múltiplas. Onde havia fumaça, havia Bode Cheiroso. Um doido de arremessar
as pedras que arrancava do chão com a sua força de esmagar o que encontrava pela frente.
Fazia estripulias como um menino "malino" e, como castigo, surgia
humildemente "depois" com o seu couro rachado, que deixava sua carne num
vermelho vivo, onde o negro adornava. Como um animal ferido, permitia a intimidade de
cuidarmos de suas mazelas. Uma vez curado, passava por nós de nariz empinado, fingindo
que não nos conhecia. Voltava a ser o orgulhoso cidadão que zombava do tamanho de nossa
mínima compreensão.
Se Gustave Doré, como andarilho, tivesse vagado pela região onde finda Minas, certamente
marcharia ao lado de Lampião, inspirado em ilustrar as aventuras do Triste Figura, já
que a esquizofrenia unia esses dois personagens. O cangaceiro esticava o seu braço como
se fosse uma bússola norteando vidas sem rumo. Andava em círculos dentro de seu mundo de
incógnitas, trazendo ao ombro um saco recheado de pele de porco frita, para quem tinha
coragem de comprar. Os meninos gritavam "Lampião! Cadê Maria Bonita,
Lampião?
Maricota desapareceu, só Deus sabe como, tragada, tal qual seus filhos, por um abrigo que
protege o seu útero.
Maria Marrada não sabia o que era um menino e, por curiosidade ou por não ter o que
arremessar, lançou seu corpo nu sobre a proteção das grades da ponte para dissolver sua
alma nas tormentas das correntezas do rio.
A idade para Maria Pé-de-boi tornou-se graça, trazendo-lhe a cura. Dizem que quando
adormecida sobre a cama de um asilo, os que zelam por ela, sussurram em seus ouvidos
"Durma com Deus, Maria Pé-de-gente".
Bode Cheiroso levou um tiro quando tentava saltar um muro para apanhar uma jaca. Foi
abatido pela intolerância como um troféu, e sua carne desprezada em uma vala sem nome,
cruz, flores e velas.
Lampião depôs as armas com a vitória da morte, finalizando parte de uma história que
segue ao longo de um caminho, onde as incertezas contidas em nossos dias contados se
perpetuam sob ameaças da soberania de novos loucos que se revelam.
E-Mail: celiaferrarez@bol.com.br
|