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Arnaldo Nogueira Jr


Matheus Roedel Evangelista (1975), tem um filho, um livro de contos ainda não publicado, intitulado “Mal de Milênio” e, desenvolve agora um novo romance. Atualmente faz curso de mestrado em literatura brasileira na  Universidade Federal de Minas Gerais.


Dor

Matheus Roedel Evangelista


No banco do morto da viatura prata modernosa de Irina, eu via na distância a paisagem passando, paisagem européia plena e plana. Sentia me dolorindo aquela falta inimaginável de montanhas, aquela ausência de relevo que a Bélgica consegue proporcionar tão duramente num pobre coração mineiro. Sentia saudades da terra em que canta o sabiá, da proteção que as montanhas dão, do pão-de-queijo, torresmo, cachaça. Eram duas da tarde, tínhamos deixado Bruxelas a menos de meia hora, o sol mal aparecia entre as eternas nuvens belgas. Ia finalmente conhecer Paris, a cidade luz, o Père Lacheise, a torre e o arco. Ia de carona com uma contraparente: Irina, que era fina, bem-educada, bem vestida, cunhada da mulher do tio de minha boadrasta. Nichita, sua filha de 9 anos, dormia no banco de trás.

Irina tinha uns 45 anos, um ar dolorido, disfarçado na sua maneira elegante de vestir, como se tivesse uma pedra pesando dentro da alma. Era uma pessoa "especial" como minha boadrasta tinha eufemizado enquanto me levava de Boisfort a Uccle.

Tentávamos nos fazer compreender, tentávamos conversar com toda a dificuldade de um mineiro pra uma romena, se bem que ela era professora de inglês, língua na qual eu tinha o habito de ouvir muita música barulhenta; e com os dois arranhando o francês, com um "merci bien" daqui, um "na pas de quoi" de lá. E enquanto a gente conversava, eu compreendia na sua história que o mundo é mesmo um mundão véio e sem porteira, o mundo é um espelho invertido, todas as histórias são as mesmas, muda-se apenas tudo, mas nada muda, nem nunca vai mudar.

Eu contava para Irina da miséria tupiniquim, da Praça da Estação, dos pequenos viciados em crack, que aparentam 13 tendo 17 anos. Falava pra ela o quanto o regime militar tinha, particularmente, dado mais uma guinada rumo à miséria, dentro da fatalidade predestinada da história brasileira. Se der mole aos hômi, amizade, o bicho pega. Dizia que tinha nascido na Europa, pois meus pais tinham sido exilados por serem comunistas nos duros anos 60. Relatava dos que morreram e sentiram dor nas mãos dos hômi da tortura dos freis, dos estudantes, Lamarcas, a volta do irmão do Henfil.  Os exilados como, por exemplo: Chico, Gil e Caetano que tanto compuseram em cima da saudade; Marighela, Gabeira e Sirkis, e Nandinho Cardoso, o neo-liberal do momento.

Irina me contou que tinha deixado Bucareste, sua cidade na Romênia, numa manhã de outono, enquanto a fina chuva cobria tudo. Partira de uma vez por todas, junto de sua mãe, Constansa Pacificadora, e de sua filha, logo que as fronteiras entre leste e oeste europeu se abriram e os muros caíram. Morava agora na Alemanha numa cidade feia e poluída por minas de carvão. Acorrentada a Constansa, idosa e doente, morava ali sem possibilidades de mudança. Elas há muito não suportavam viver em Bucareste oprimidas pelo regime ditatorial, ainda mais depois que Valentin, o pai de Dana, morrera no pau, no frio do inverno, durante uma sessão de tortura nas mãos do governo. Era um cara de direita inteligente, esclarecido, combativo ao regime totalitário imposto na região pelos comunistas. Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada. Constansa esperou a confirmação de mais aquela morte por muito tempo apesar de já ter visto o corpo triste e frio de Valentim em seus sonhos. Está tudo nas entrelinhas de Tolkien, o poder corrompe a alma daquele que o busca assim como o Um; um anel para achá-los a para todos governar, um anel para uni-los e nas trevas os atar. O poder corrompe a alma humana maneira mais maligna ainda que a miséria, pois na fome de poder não há inocência.

Esposa, filha e neta. Três gerações abandonaram aquela terra, deixaram Bucareste de uma vez por todas, para nunca mais voltarem. Irina me falou da escada do prédio onde morava, que lhe rangera pela ultima vez, em despedida, de como o corrimão acariciara sua palma, uma despedida triste e cheia de dor, do pinheiro que balançara dando adeus. Irina falava desse sentimento da falta da pátria, de saber que nunca mais verá todos os rostos conhecidos que se vê usualmente na vida de uma cidade, os amigos de escola, o povo do bairro. Lamentou esse saber que nunca mais vai poder sentar no bar de todos os dias, ou ver o pôr-do-sol daquela praça de que gostava tanto, essa saudade que em romeno se chama dor. Imaginei a desoladora saudade de não de se ter uma terra pra voltar, essa dor que ela sempre sente, que ela trazia na alma e no semblante, essa dor que naquele momento se cristalizava numa lágrima escondida pelos óculos escuros. Ela virou ligeiramente o rosto olhando um vasto campo de flores amarelas. Agora fora da Bélgica, em território francês, havia um céu azul, uma ou outra nuvem, apesar do sol não ser grandes coisas.


E-Mail: Matheus13@hotmail.com

 

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