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Arnaldo Nogueira Jr


Luiz Carlos Vivas Vieira (1943), Promotor de Justiça aposentado - Rio de Janeiro, é autor do livro "Da Prescrição Intercorrente" (obra jurídica). Não tem outros trabalhos publicados em livro.


Seqüestro-relâmpago

Luiz Vivas


No Brasil, o seqüestro-relâmpago está na moda. Na cidade de São Paulo, especialmente. São muitos e a toda hora. Cada cidadão procura defender-se como pode. Alguns rezam, outros inventam artifícios para despistar os bandidos. Pertenço a este último grupo...

Para não chamar a atenção dos ladrões, comprei uma Brasília antiga — uma "lata velha" — e passei a dirigi-la sem preocupação. Pensava ter encontrado a saída para livrar-me dos marginais. Afinal, uma Brasília caindo aos pedaços não despertaria a atenção de criminoso algum. Engano meu! Fui vítima de seqüestro-relâmpago ao estacioná-la.

Duas semanas depois, ainda traumatizado, deixei a Brasília na garagem, tirei o relógio, o tênis importado, a camisa de linho, deixei tudo em casa. Vesti-me com uma roupa velha e fui caminhando em direção ao banco. Fica a três quadras de minha residência. Além do cartão bancário, levava apenas coragem...

Nada adiantou. Ao alcançar o segundo quarteirão fui apanhado:

— É um seqüestro-relâmpago — anunciou um dos bandidos, apontando-me uma arma de fogo, enquanto pessoas passavam por nós na calçada sem dar a menor importância ao fato.

O outro marginal ainda completou:

— Você é o quarto otário, hoje, mano — sendo imediatamente repreendido pelo comparsa. É claro, não me precisava dizer que, naquele mesmo dia, tinham feito o mesmo com três outros infelizes.

Medo? Não tive! Estou ficando acostumado... Puseram-me dentro de um carro — possivelmente roubado — e quase não gastaram gasolina. O banco era no quarteirão seguinte. Dei a senha e o cartão para um deles, que caminhou em direção à instituição bancária, enquanto o outro permanecia no assento de trás do veículo. Tinha o revólver na cintura, sob a camisa. Sem dúvida não queria chamar a atenção exibindo a arma e, além disso, percebeu que eu não tinha como reagir, obrigado que estava a não mais olhar para trás sob pena de ser fuzilado ali mesmo.

Tudo corria como de costume, quando aconteceu o inesperado: fomos vítimas de dois outros bandidos! Chegaram furtivamente armados, um de cada lado do automóvel, anunciando o assalto quase ao mesmo tempo:

— Manos, quem se mexer, leva chumbo!

O criminoso sentado no assento de trás do veículo, tomou um susto. Parecia alguém prestes a desmaiar. Pálido, tremia. Não me contive: comecei a rir! Não conseguia parar... Só fui convencido a fazê-lo quando um cano de revólver encostou na minha cabeça:

— Ô meu, senão parar de rir eu aperto o gatilho. O jeito foi conter o riso.

Os dois bandidos, digamos, concorrentes dos primeiros, entraram no veículo no banco de trás, um de cada lado. Todos naquele banco estavam armados com revólveres. Certamente sairia um tiroteio logo, porque, na primeira oportunidade, o que ficara no meio, tentaria atirar nos seus oponentes. Eu não queria tiros. Então falei, apontando para o meliante do meio:

— Ele está armado!

Prontamente, desarmaram-no. Em seguida, os dois criminosos, armas em punho, ficaram olhando fixamente para mim. Estavam perplexos. Um deles, com cara de idiota, chegou a murmurar baixinho — valeu, mano!

Foi quando lhes expliquei o que estava realmente acontecendo, advertindo-os de que o comparsa do que acabara de ser por eles desarmado, viria do banco com dinheiro dentro de poucos minutos. Então confabularam um pouco e saíram do carro, não sem antes ameaçar o bandido desarmado que permaneceu onde estava — no banco de trás.

O chefe ficou dois metros à frente do automóvel, enquanto aquele com cara de idiota posicionara-se na traseira do veículo em posição onde não podia ser visto por quem viesse da direção do estabelecimento bancário. Quando o bandido chegou com o dinheiro, foi rendido e também desarmado sem opor resistência. Ameaçado, entregou aos outros dois assaltantes toda a grana — R$ 2.000,00 —, ou seja, os meus R$ 500,00 e também os R$ 500,00 de cada uma das outras três vítimas daquele dia. Na ocasião em que se deram os fatos, aquela quantia — R$ 500,00 — era o limite máximo que, em um mesmo dia, uma pessoa podia sacar de sua conta corrente através de caixas eletrônicos.

Os criminosos desarmados acabaram sendo levados pelos dois outros, agora, sob a mira de quatro armas de fogo. Pelo que pude ouvir desses últimos, tencionavam, de início, apenas roubar o automóvel – de posse de seus concorrentes e por estes provavelmente roubados — mas aproveitaram a oportunidade para levar mais dois revólveres e algum dinheiro.

Bem, deu-se aqui um fato curioso: o bandido que comandava as ações mandou o outro, o cara de idiota, entregar-me a metade da minha grana por causa do que eu havia feito: afinal, salvei suas vidas quando lhes avisei que seus concorrentes estavam armados.

O cara de idiota quis argumentar, mas o chefe disse decidido, apontando para o dinheiro:

— Depressa, dá a metade dele — e emendou —, anda logo!

Depois de uma breve pausa, o chefe concluiu:

— Ô meu, ele merece! Salvou nossa pele. É sangue bom, mano!

Embora contrariado, o cara de idiota obedeceu a ordem recebida e me entregou uma parte do dinheiro!

— Sujeito justo, o chefe! — pensei com meus botões. — Quer saber de uma coisa? Simpatizei com ele!

Depois, carro cantando pneus, foram embora os quatro. Eu fiquei ali com o dinheiro nas mãos... Era difícil acreditar naquilo! Então, caminhei alguns passos e parei. Estava agora de costas para onde eu estivera com os bandidos no minuto anterior. Contei o dinheiro. E só então percebi: o cara de idiota entendeu como metade, o total do dinheiro subtraído das quatro vítimas. Quer dizer, subtraíram de minha conta bancária a quantia de R$ 500,00 e me entregaram R$ 1.000,00! Olhando para aquela grana toda, sentei na beira da calçada e comecei a rir! De certo modo, tinha roubado os ladrões!!!

De repente, alguém gritou enfurecido:

— Ladrão! Pega o ladrão! Ficou com meu dinheiro!

Sem olhar para trás, agarrei a grana e saí correndo para casa. Tranquei portas e janelas. Suava frio. Depois, devagar e trêmulo, olhei através da persiana da sala:

— Ufa! pensei que fosse comigo! — murmurei.

Não era: apenas mais um seqüestro-relâmpago.


E-Mail: luizvivas@globo.com

 

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