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Arnaldo Nogueira Jr


Luciano Silva nasceu em 12/07/1975 em Campina Grande, Paraíba. É bacharel em Filosofia pela UFRJ e Mestre pela PUC/RJ e, também, professor de Literatura Brasileira e de Filosofia.


Por um punhado de sal

Luciano Silva



Fico anos a fio no esquecimento de algo que aconteceu em determinado momento da vida. Severino aguardenteiro, e a sua família, por exemplo, apareceu de repente. Estava lá atrás da memória e, sem aviso, por meio de um brilho fosco de metal, apareceu-me com as suas estórias. Prosa boa, e silenciosa, a dele. Serviu para construir as imagens da minha primeira infância, e moldar-me o espírito e os pés neste mundo.

Homem simples, meu avô. Era do certo. Fazia o que tinha que fazer. Saia de casa e, com duas burras abarcadas de cachaça, voltava dias depois, após abastecer os comércios locais. Nessas idas e vindas ouvia muito, falava pouco, e ria (quando ria) com a miudeza de quem tem o espírito calejado pelas noites frias e os dias abrasadores do nordeste paraibano. Da sua juventude, apenas algumas estórias, que outros contavam.

Certo dia, moleque ainda, enganchou-me nas pernas, abriu exceção, e contou, por simples contar, que um grupo de famigerados - conhecidos assim pelas forças da legalidade getulista - chefiado por um de alcunha de diabo loiro apareceu nas terras do seu pai. Estavam mortos de cansaço e de fome, e vinham a limpar o rastro com os chapéus de aba larga, rodopiando no chão, misturando seixos e levantando poeira da terra. Em casa, ele só, e a mãe, que esperava o pai voltar do roçado. Então, fez o do costume: recebeu-os com aguardente, rapadura e prosa amigável. Tratou o chefe do bando, respeitosamente, por meu capitão e não deixou de responder às necessidades do momento. Sua mãe preparou o que tinha mais à mão e serviu paçoca, peixe seco torrado na brasa, farinha de mandioca e pequenos cajus para tirar o gosto da cachaça. Isso tudo era dito com alegria nos olhos e maciez no falar. Mas parou, num silêncio prolongado, e não disse mais. Calou-se, como se fizesse agravo à memória de alguém, pôs o olhar no céu, e na cara uma expressão desconhecida. Parecia tristeza, melancolia, achei. Depois foi então, com o tempo, que vi que não se tratava disso: coisa difícil de explicar, mais ainda de entender: nostalgia. Não era voltar nos transcursos do tempo, e viver o já vivido: não era saudade. Uma tristeza feliz, isso sim. Nostalgia: o passado, bom ou nem tanto, em misturado, como simples lembrança do vivido, despertando uma alegria triste.

Mas a estória inacabada, sem sentido, martelou à minha cabeça por algum tempo. Não por ela em si, ou curiosidade do desfecho, mas pela expressão do rosto magro que encerrou o inacabado. Quis saber.

Depois, de esgueira, perguntando por perguntar, dando de menino cacete, obtive que naquele dia o sobredito capitão fez as preces. No chão, ao lado dos tamboretes, os chapéus e os bissacos descansavam, juntos aos donos, que não largavam as cartucheiras e as armas, sempre junto ao corpo. Dada a ordem, com a cabeça, iniciou-se o comer. Minutos depois, após devorar metade da paçoca, um dos cabras jogou o sobejo e o prato no chão, levantando-se.

— Diacho, comida sem sal é dose, murmurou por entre os dentes.

Suspenderam o mastigar, uns, e olharam para Azulão; outros, pro capitão. O coração da mãe do meu avô gelou quando ele se levantou de pronto e, com as duas mãos apoiadas na mesa, disse fitando nos olhos:

— Desculpe, mas isso não é problema.

Sem pestanejar, continuou:

— Mãinha, traga o saco do sal.

Homem duro, o meu avô, disseram. Não era molambo, fazia o que tinha que fazer por si só, quando queria. Não nasceu, não morreria molambo. Aprendera com seu pai: se alguém fincasse pé, levantasse; se lhe estendesse a mão, apertasse; se lhe pisasse, quebrasse-lhe a cara. E agora aquilo. Pensou em propor amarrar as camisas. Mas desistiu. Sua mãe, velhinha, não suportaria a arenga. Perguntei que era isso de amarrar camisas. Explicaram-me: prática simples, rude até, mas cheia de significações, que servia para lavar ofensa, apagar manchas na honra, fincar-se na existência de forma transitória mas respeitável: sem bate-boca, dois se enfrentam, atados pelas vestes, facas na mão. No mais das vezes, ambos extinguiam-se no enfrentamento.  Talvez por isso a vida no agreste, aquela época, fosse vivida com mais sabor, apesar das adversidades. Vida simples, mas com propósito. Quanta diferença dos homens de hoje, das cidades, dos cafés e praças de jogos!

Veio o sal. E Severino, com seus dezessete anos, cara fechada, de igual para igual, disse ter pouca coisa em casa, mas o que tinha seria deles. Só queria respeito, em casa de sua mãe, na ausência de Domício Catão, seu pai. Azulão, sempre afoito por sangue, olhou o capitão, querendo licença. Corisco observava em silêncio. Até que falou:

— Severino, se apoquente não. Peço desculpas. Pena estarmos noutra época. Bom seria ter cabra do seu talhe comigo, no bando. Quanto a você, cabra — disse enquanto olhava para o desaforado —, respeite quem lhe deu teto, prosa, cachaça e lhe matou a fome. Sente e coma... Tudo!

Azulão pegou o prato, contrafeito mas resignado, e voltou à mesa. O capitão levantou-se, inesperado, como raio:

— Cabra safado! Tua fome não é de comida, cão dos infernos. Capitão, mas..., balbuciou o cangaceiro. Neste momento os demais baixaram os olhos e continuaram no desjejum.

— Vai comer o todo do sal em agradecimento ao jovem Severino, e não tem peleja!

Não teve. Dito e feito: comeu. Era o exemplo, disseram. A ordem, cumprida, não foi por maldade de coração, nem tanto para humilhar, menos ainda para demonstrar liderança e poder; mas, sim, para exemplar, para lembrar que o de bom grado dado deve, de bom grado, ser recebido. Por fim, os cabras beberam a última dose de aguardente. Azulão esperava na soleira, manchando a terra, cuspindo os bofes, apoiado no cabresto de uma égua. Partiram. Com Severino, ficou, presenteado por Corisco — por não abrir mão de um punhado de sal, que é muito em questão de honra —, um fura-bucho, um sangra-cabra, um brilhoso de um punhal de inox, natural de Caroca, em Campina Grande. Esse foi o miúdo contado e ouvido, e a gastura que embebedou a face e as lembranças do velho Severino aguardenteiro, àquela tarde, no quintal de casa, sob céu azul, com neto — ti-quin de gente — enganchado no colo.


E-MAIL: iogsilva@hotmail.com

 

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