a

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr


Luciana Nabuco, acreana, jornalista ,35 anos, carioca de coração desde miúda, talvez pelo embalo de ninar do pai que cantava Cidade Maravilhosa. Mudou-se para o Rio em 1987, casou, está descasando, três filhos e mulher! Sem trabalhos publicados, atualmente escreve e pinta em acrílico sobre tela as nossas lindas negras, escravas, mucamas e orixás,que alimentaram e constroem ainda nosso Brasil.


A mulher que ficou

Luciana Nabuco


Contava seis mulheres. Uma para cada dia da semana, e no sétimo o repouso merecido, privilégio até do Divino Criador. Companheiro dedicado, pai extremoso de 14 rebentos da raspa de tacho ao varão recém-formado doutor desses de "bostinha no dedo", rubra jóia, orgulho do pai.

Magalhães já embicava os sessenta sempre levando na frente a liberdade, de menino andava nu pelos cantos, cabrito inocente e selvagem. "Menino desaforado, isso, sim", era o eco permanente da casa incompreensível aos pendores naturalistas daquele tico de gente. Verdadeira chateação essa de se vestir, cobrir, amarrar, dar nós, abotoar, enfiar por baixo, por cima; isso sem falar no ridículo das cores, o costume de marinheiro das missas de domingo, a obrigação de ser cabide educado às mãos zelosas da mãe, tias, avós orgulhosas de seus bordados e tricôs.

Quando crescesse aquela tirania de mulheres iria acabar. Donzela ou puta, ninguém iria domá-lo, seu leite iria espalhar pela terra a perfumar num rastro comprido, torpor das fêmeas sequiosas de seus carinhos. Agrados dados somente a quem merecesse, ou soubesse entender, sujeito livre, selado ao acaso das horas vadias.

O doce, porém, sempre acaba quando a boca se enche de gosto bom. Galo morto, galo posto. Viúva, a mãe reclamava casamento, queria netos antes da cabeça se cobrir totalmente de fios brancos, sinal do fim próximo, soltura da alma. E mais uma vez elas se intrometiam em seus acertos, arte feminina de tecer em fios invisíveis as tramas da vida, seduzir, escolher, dando linha a ir enroscando o indivíduo até a total castração!

"E tem mais", vaticinava a matriarca, "esposa digna é a que não chora cortando cebola! Mulher que chora nesse serviço é ou vai ser pecadora!".

Finalmente se arranjou a tal, rotunda, farta em quadris, sinal das boas parideiras, séria, moça distinta e de pouco conversar. "Meu filho, mulher tem é que saber de sua lida sem muito discurso". Amarrou-se então Magalhães, jovem e também cheio de saúde à silenciosa e eficiente Ana, mais tarde chamada respeitosamente pelo marido de don'Ana, já que nas intimidades ela não acusava um ai,um gemido qualquer de prazer ou até mesmo de incômodo! O que se fizesse estava bem, era obrigação a cumprir para o aumento da família. E foram oito para orgulho do pai e ocupação da mãe.

O pequeno ainda sugava nos peitos da mulher, quando lhe veio sensação de dever cumprido,e logo já estava enrabichado por uma polaquinha frufru, que lhe reacendeu o gosto pela coisa ao remexer suas anquinhas em gritos descarados, música que lhe fazia falta. Ficou à terça-feira.

Tempos depois emprestou o lenço à moça que estava ao seu lado no cinema, filme triste e ela com seus enormes olhos castanhos disfarçando o choro. Ligou-se primeiro de amizade, aos poucos descobrindo os pedaços de sua vida, até o dia em que já bem íntimos, ele viu o singelo vestido de noiva pendurado no armário. Espera inútil do noivo que nunca chegou. Entendeu o refúgio em salas escuras para poder chorar à vontade, era o pretexto do que tinha vergonha de confessar. Ficou à quarta-feira.

Encantou-se também pela Laurinda, cozinheira supimpa do trivial ao requintado, e na cama se lambuzava glutão, do mel dos seus segredos, que ela, generosa, jamais se fartava em lhe oferecer... Ficou à quinta-feira.

A outra pequena vinha com uma mãe cegueta e um menino em fraldas, mas não era afeita à tristeza.

Conquistou-lhe pelo riso sincero, isento de sedução e trapaças, era transparente. Enchia de leveza os seus dias sombrios e seu colo representava as acolhidas e o perdão. Ficou à sexta-feira.Mas sempre há uma perdição.

Era a que não pode ser moldada. Corre solta feito água e sendo assim, ora é barrenta, ora é cristalina, envenena e cura, nunca é por assim dizer, uma só. O recebia de cabelos presos, para que ele desfizesse o penteado caprichado e se derretesse dentro do seu corpo morno. Os beijos, para ela, nunca bastavam, havia sempre tempo para aquele último, da despedida apressada do "até a semana que vem".

Começou a dar ouvido e razão às vizinhas mexeriqueiras que falavam de feitiços e amarrações, forma certa de segurá-lo definitivamente. Insegura, deixou-se arrastar pelos terreiros da Gamboa, entrou na roda viva de trabalhos e agrados aos guias e entidades do além.

E pedia sincera, ignorando a maldade das que a acompanhava, sabedoras do motivo real de suas inquietações. De todas as mulheres de Magalhães, era a única de oveiro seco, impossibilitada de gerar, terra salgada, árida. E tinha medo do abandono, da solidão porque amava muito, desses amores doídos...

Sábado de carnaval.

Ele tinha prometido levá-la ao baile. Mascarados, ninguém os reconheceria, a reputação preservada.

Brincaram, dançaram feito criança, ele quis voltar um pouco mais cedo, história de aproveitar o resto da noite sentindo a sofreguidão nos seus olhos.

Gelou pela manhã quando ao se trocar, viu suas peças atadas às dela, bizarra arrumação.

"Acorda, Marlene, que sandice é essa?". De nada adiantaram os pedidos, o choro, o soluço incontrolável, deixou-a naquele instante, amuado, porque lhe perturbava a idéia da prisão invisível, temidos fios de mulheres matreiras.

Desfez-se dela e a largou em um canto qualquer da memória, desgostando também com o passar dos anos das outras companheiras, tendo apenas como vínculo afetivo os filhos.

Compreendeu que sua liberdade era ilusão, capricho de menino, tinha regrado sua vida ao cotidiano de mulheres divididas, partilhadas. Acomodadas em vidinhas pequenas.

Tudo tinha se tornado água parada. Como gostaria de voltar o tempo e se perder de uma vez só...


E-mail: luocuban@gmail.com

 

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

©PROJETO RELEITURAS — Todos os direitos reservados.
O PROJETO RELEITURAS — UM SÍTIO SEM FINS LUCRATIVOS — tem como objetivo divulgar trabalhos
de escritores nacionais e estrangeiros. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior. ®@njo

a