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© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr


lara morais (1986) é recifense. formada em história pela universidade católica de pernambuco é estudante de psicologia. tem alguns textos publicados e espalhados na internet. é apaixonada por cinema e literatura. Diz ela: [se publicado, favor conservar tudo em letras minúsculas. as maiúsculas me parecem sempre tão pretensiosas, ali, altas, acima das demais, que me irritam profundamente.]


[amaralina]

lara morais



era um quarto miúdo, quente, mal iluminado e escondido junto ao pé da escada fazendo as vezes de lar, àquela que cuidava tão bem e há tanto tempo do nosso. quando não estava lavando as roupas ao tanque, cuidando do almoço, passando uma vassoura ou aguando as plantas, era lá que procurava para entregar-se, por alguns momentos, de corpo e alma, à tão merecida preguiça. deitada à cama, de remendados mas limpos lençóis coloridos, punha o pequeno rádio de pilhas vermelho – aquele mesmo que ganhara num bingo beneficente que ajudara a organizar em sua cidade interiorana - a cantar conhecidas canções enquanto espiava o céu janela afora. duas estantes de madeira pintadas à mão, apinhadas de livros, revistas e miudezas várias, apertavam-se e brigavam entre si naquele tão apertado espaço. na parede contrária às estantes, um antigo guarda-roupas, de duas portas e muitas gavetas, que pertencera à dona da casa, metia medo em qualquer um. lembrava um caixão de defunto; e, como se não bastasse, em uma de suas portas pregara uma foto antiga, ainda em preto e branco, de sua já falecida mãe, dona de um daqueles olhares perdidos, distantes, que não pareciam enxergar o homem de terno e gravata borboleta que, imagino, deve tê-la fotografado num tempo afastado, quando eu ainda nem pensava em morar na barriga de minha mãe. embaixo da cama, guardava sua tão querida máquina de costura e uma redonda e grande caixa verde, cujo interior era habitado pelas mais diversas coisas: linhas, agulhas, fotografias, recortes de jornal, botões, um trevo de quatro folhas amassado, um óculos de aro grosso, lentes redondas e forte grau, lenços brancos com flores bordadas, um cachimbo preto, algumas cartas de antigas amigas e possíveis já esquecidos mas não confessos amores e uma bonequinha de porcelana, de perna e nariz quebrados, que ganhara de minha mãe no natal passado. por vezes, dali, me pudera ver trepada ao galho da mangueira, vestindo meu tão conhecido blusão laranja. dizia sempre que eu parecia uma imponente princesa indiana, em meu elefante preferido e que só faltava me pintarem os olhos. na mesinha ao lado de sua cama, num copo d´água, seus dentes descansavam à noite. ao lado, sua escova de dentes de tantas e longas cerdas repousava. seu quarto foi, para mim, durante muito anos, um lugar fantástico, cheio de mistérios e surpresas, que eu gostava de tentar adivinhar sentada ali fora, à escada, enquanto ela, cheia de cores, ali se transformava.


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