Prisioneiro do acaso

Luiz Manfredini


Na pista de cooper do Barigui, o sujeito cruzou comigo no exato momento em que eu erguia a mão para ajustar os óculos. Decerto imaginou que estivesse a cumprimentá-lo e, cortês, retribuiu. Respondi. Na próxima volta, novo encontro e — inevitável — novo cumprimento. E assim por diante, ao longo de várias voltas em torno do lago. Estabelecida a primeira saudação, não haveria como escapar: dali em diante não teria mais como não cumprimentar o sujeito onde quer que o encontrasse, ainda que não soubesse bulhufas a seu respeito.O acaso, sempre o acaso, de cujas armadilhas já me considero eterno prisioneiro.

Tem sido invariavelmente assim: um movimento de mão para ajustar os óculos, arrumar o boné ou secar o suor da testa, um menear de cabeça, um olhar casual — essas coisas fortuitas — e o outro cumprimenta, e eu respondo e o acaso fatalmente estabelece a "amizade". Menos caminho do que cumprimento "amigos" desconhecidos. Já somam dezenas, é o inferno. Devo ser dos sujeitos mais populares do Barigui. E não adianta mudar de horário. A cada novo horário as situações logo se criam e se recriam, acasos sucedendo acasos. Fora do parque, a turma de todos os horários se espalha por todos os lugares, de forma que topo com ela onde quer que me encontre. Os cumprimentos pululam. Sorrisos, apertos de mão, tapinhas nas costas. Estou me tornando um az do equilibrismo social. É exaustivo, agride minha confessa misantropia. Estou pensando em trocar o parque por uma solitária bicicleta ergométrica.

Dia desses encontrei um dos "amigos" numa churrascaria. Tipo simpaticão, tangeu-me a compartilhar a mesa da família. Entabulou conversa sobre a Procuradoria. Devia me supor advogado. Virei-me como pude. Jornalista é especialista em generalidades. Não sabia sequer o nome do fulano. Um filho menor sabatinou-me sobre o nome do pai. Artimanha de criança. "Joãozinho", respondi, para brincar e me safar. O guri riu e entregou o jogo: "Ah, te peguei! É Arnaldo!". Mas que Arnaldo? E dá-lhe papo sobre a Procuradoria. Não foi sopa. Consola-me o fato de que o problema é também do outro que, ou não me conhece, ou pensa que me conhece e, por fim, confunde. Não estou só. Seria o paroxismo da casualidade?

É vasto e vário o baú de casos. Recordo-me do deputado de Londrina. Ao me encontrar na portaria do Hotel Bourbon, empertigou-se, estufou o peito, aproximou-se com a mão estendida, o abraço armado, jeitão íntimo: "Pedro Franco Guevara y Cruz", quase soletrou, sorriso de orelha a orelha. Confundira-me com meu amigo (e também jornalista) Pedro Franco. Deixei por isso.

A primeira visita à primeira namorada, longos 30 anos atrás, foi emblemática. A loirinha esmagara meu coração adolescente com a motoniveladora dos seus arrebatadores encantos.Invernosa tarde curitibana - inverno desses que já não existem mais, áspero, gélido, com um quê de siberiano em sua inclemência de frios e umidades. Eu lá, na sala da moça, cheio de roupas, resfriado, tossindo freneticamente a carteira e meia de cigarros que, aos 17 anos, já aspirava, timidez juvenil, conversa difícil. Entre um risinho e outro a tosse mais forte fez o ranho escapulir do nariz e repousar, amarronado pela nicotina, sobre os fiozinhos arrepiados do bigode nascente. Ato contínuo, ocultei a coisa com a mão. Por acanhamento permaneci assim, a mão sobre a parte do bigodinho recoberta pelo ranho, falando o mínimo, aterrorizado, ansiando por improvável socorro da providência. As horas escorriam lentas, tormentosas. A moça, afinal, resolveu ir ao banheiro. Minha chance: limpei com a manga do casaco o ranho já ressequido. O namoro terminou dias depois.

Trata-se, enfim, de verdade terminante: o acaso não raro me surpreende e aprisiona. Uma vizinha de apartamento há anos me chama de Paulo. Culpa minha. Quando me chamou de Paulo pela primeira vez não a corrigi e, já na segunda, como dizer que não era Paulo, mas Luiz? Ficou Paulo. "Olá, Paulo". E eu respondo. É assim, a coisa. Uma condenação perpétua.


Luiz Manfredini
é jornalista e
escritor paranaense. Publicou "As Moças de Minas", Editora Alfa-Ômega, São Paulo, 1989.

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