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© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr


Léa Madureira é escritora. Formada em História pela UERJ (1971), exerceu o magistério por 35 anos no município do Rio de Janeiro. Em 2002 publicou o livro "Por não haver navegado", Ed. UAPÊ, tendo sido premiada pela UBE, em 2004.

O texto foi extraído do livro "Os vinte e sete degraus", também premiado em 2006 com o Prêmio Alejandro José Cabassa - UBE - Contos; Ed. Oficina do Livro - 2005, Rio de Janeiro (RJ), pág. 28.


Atrás da Porta

Léa Madureira



Atrás da porta o menino pendurava sonhos. Logo que saía, levava alguns com ele; acaso os esquecia, deitava imaginações em confiança ao vento. Vivia histórias de acompanhar passarinhos, riachos, asas de borboleta. Porém, agora, o tempo era feito de fugas. Passavam-se horas, e já se evadira.

Um dia a professora perguntou:

— Pedrinho, o que é isto em seu olho? Encolheu-se, perdido na desproteção, e não respondeu.

E ela, só cuidados. Chamou-o a um canto...

— Olha, Pedrinho, você está sempre se machucando. Se estiver com algum problema, nós podemos ajudá-lo. Há pessoas que podem visitar você, conversar com sua mãe...

Pedrinho deixou de ir à aula. Medo de perder, de vez, o caminho, não poder acompanhar o pai que já nem fazia mais nada direito...

Serrava lixava empilhava...

— Pai, já fiz minha parte. O senhor já terminou a sua? Foi a asneira que disse e, pronto! Aquele olho roxo!

—Não se meta na minha vida, seu pirralho estafermo! Vá pra escola, anda! Ora essa, era só o que faltava, tomar conta do que faço ou não faço!

Dava pena ver a mãe esvaindo-se no trabalho, enquanto o pai, olhar perdido, bebia sem querer mais escrutinar os sonhos... Tão bom se voltas se a ser como antigamente:

— Olha, Pedrinho, vamos envernizar e levar pro patrão. Se ele pagar a grana toda, vamos ao futebol lá na Vila, amanhã.

Nem tanto pelo futebol! Gostava mesmo era de ver o pai puxando conversa com ele, rindo, pulando, a cada gol do Peneira, no Bairro Ferro- viário: viu esse, Pedrinho? O cara é bom mesmo, hein?

Agora, desgosto só. O pai piorou por causa da Letícia e o moço da praia. Vivia cismando com tudo. Ela adorava o mar! O moço mergulhava e trazia peixe arpoado. Também surfava e velejava.


— Esse cara não presta! Um filhinho de papai! Não trabalha, não estuda. Faz nada! Filha minha não sai com tipo assim. Enquanto eu viver...

Letícia sonhava ser bailarina. A cada volteio, da sala para cozinha, vinha o tranco: isso só vai te trazer aborrecimento! Vê se aprende a costurar, bordar, cozinhar... A vida não é nenhum baile não!

Certa vez, Letícia saiu ao vento muito forte de setembro e não voltou mais. Ninguém viu pra onde. Pedrinho, cada vez mais, repreendido pelo pai. Talvez porque nunca fechasse a porta ao circuito do vento pelas janelas...

Todos os dias o pai bebia. Esperando a volta da filha, foi aumentando a dose. Pedrinho temia que a professora aparecesse em casa com o Juiz de menores. Carecia dar mais uma chance ao pai... mostrar os sonhos atrás da porta. Escolhesse alguns e sairiam, outra vez, pro futebol, pra casa da vó, pra praia — Distraírem-se...


Numa noite, a tempestade:

— Por que você está rindo? Achou dinheiro na rua, por acaso?

— Pai, mãe viu Letícia na estação com um menino no colo. Deve ser seu neto!

— Vira essa boca pra lá! Se ela inda tiver vergonha, não vem mais aqui!

— Vem sim, com seu neto, pedir a sua bênção!

— Olha aqui, garoto, se vocês quiserem vão atrás dela, mas eu não quero mais ela aqui, ouviu bem?

Pedrinho evadira-se novamente...

— Pai, se o mar fosse pinga, você podia fazer uma prancha e levar um barril pra encher lá no meio dele, não podia?

— Que besteira é essa, agora, garoto? Quer me provocar? Tá de novo com doidice?

— Pai, mas você sabe fazer barco, prancha e até jangada, não sabe?

— Garoto, já disse pra não encher o saco! Por que você não vai mais à escola, não faz mais as lições do colégio?

— Pai, é que a professora quer falar com o senhor. E eu tô dando um tempo...

Ao alcance da mão, a garrafa zune contra a parede. Pedrinho foge, deixando algo que se parte atrás da porta. O vento colhe-o pelas ruas. E o caminho conhecido, leva-o até a praia.


Cada dia mais doente, o pai já nem levantava a cabeça do travesseiro. Foi a mãe quem abriu a porta, quando os filhos, o neto e aquele moço apareceram, de longa distância. O futuro a chegar, e o avô assustado em seus primeiros passos.

Nos fundos, instalaram a fábrica de barcos e pranchas. O moço trabalhava a serra com habilidades. O pai restabelecia-se. Com a serralheria, o cheiro; na porta, a placa:

BARCO E PESCA ORLANDO E CIA.

Pedrinho segue imaginações, alinhavando agora o caminho da praia aos riachos, nas reservas em q confia. E preciso ainda não esquecer, todos os dias, de macerar o hálito dos jardins ao gosto dos quintais a entrar pelas janelas. E pendurar tudo atrás da porta.

No mais, importa sempre fabricar o vento!



E-MAIL:
leamadureira@hotmail.com

 

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