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Arnaldo Nogueira Jr


Luís Indriunas nasceu em 1969 na Vila Zelina, na capital paulista. Jornalista, viveu quase uma década  em Belém do Pará. Tem uma novela de amor violento, “A Teus Pés”  e um livro de contos sobre violência, “Bola de Neve”, ainda não publicados. Seu texto “Ele baixou do céu” foi selecionado para a coletânea de Dramaturgia da Fundação Cassiano Ricardo, de São José dos Campos, em 2006.


Dona Nazaré

Luís Indriunas


Assim que viu a menina baldear, dona Nazaré engoliu uma náusea invejosa e amarga que queria se prender no céu da boca. Bem que ela já vinha desconfiando. A ausência dele era cada vez mais longa. E a pele da menina, cada vez mais brilhante. Os cabelos, cada vez mais negros. O sorriso, cada vez mais largo. Mesmo com o marido viajando há duas semanas, ele não apareceu. Quantas vezes havia deixada aberta a janela de frente à mangueira? Quase não chove mais em dezembro, quase não venta mais em Belém. Um calor cortava as noites de Nazaré. A insônia apurou seus ouvidos e ela escutava todos os barulhos da noite no seu quintal. Fosse gato, fosse rato, fosse gente, fosse ele. Mesmo ouvindo e sentindo seu delicioso pitiú, Nazaré não iria levantar. O medo de alguma outra verdade a petrificava. Preferia acreditar que ele, como veio, foi-se por dentro dos sonhos, para longe do mundo. Mas o seu cheiro forte, inebriante, irreal estava próximo. Do outro lado do quintal. Ela tinha a certeza de que ele se envolvia em uma carne nova e úmida. Nazaré fechava os olhos para guardá-lo na memória. Nunca o viu, apenas o sabia. Teve certeza de que não era ladrão da primeira vez que ouviu seus passos pela escada. Eram lentos e decididos. Nenhum bandido é tão generoso, tão carinhoso. Tinha as faces deliciosamente lisas, um corpo maleável, envolvente.

A menina chorava toda vez que enjoava. Nazaré gritava toda vez que a menina chorava. Vou te devolver pra tua mãe, pra tua mãe. Quantos anos será que essa moleca tem? Estás já há uns quatro anos aqui, não é menina? Essa nunca tinha botado medo em Nazaré. Nem bonita era. Nazaré desliza no rosto a mão saudosa de juventude. A idade seca a gente. Desembeleza. Uma pobreza de caráter atacou a alma de Nazaré. Quanto mais a menina enjoava, mais rápido ela planejava. Queria olhar com prazer o sofrimento da outra. Era sua única arma. A única vingança possível. Sabia o que ia acontecer. Mesmo sendo sempre uma dona-de-casa, Nazaré conhecia muitas coisas. Foi assim que esperou até que a pele da menina embruxecesse, criando valas de rugas, montanhas de bolhas. Deu óleo de máquina para a menina. Não adiantou muita coisa. A pele secava e perdia a cor. Quase não comia a pobrezinha. Quanto mais seu esqueleto aparecia nos braços, nas mãos, nas pernas, no rosto, mais sua barriga crescia e crescia pontiaguda. Dona Nazaré deixou que a menina parasse de trabalhar. Nesses casos é melhor o repouso. Já liguei para sua mãe, menina. Deixei recado. Disse que vem lá pelo oitavo mês, que ela está muito ocupada. A menina não sabia que mês estava. Setembro, círio, junho, natal. Se pelo menos pudesse ver os dias passando. Às vezes ouvia as chuvas, muita chuva. Sabia que tinha sol, porque nessas terras, ele entra, de qualquer jeito, por entre as mangueiras, pelas frestas, por trás da cortina. Mas o sol lhe dava enjôo. A chuva lhe dava medo. A noite, angústia. A menina respirava com sentimentos doloridos. Tinha certeza da morte da sua mãe. Tinha certeza da sua morte. Dona Nazaré era muito boa de não contar nada. Por isso, sua mãe não vinha. Seus olhos já secos tentavam derrubar lágrimas de solidão e gratidão à sua patroa. A pobrezinha agradecia ao seu próprio verdugo.

Algumas vezes, os olhos doces de dona Jacirene vieram lhe visitar. Falou alguma coisa de vingança, insistia. A menina não entendeu direito a história que a velha lhe contou. A menina, que só gostava de história com flores, não entendeu o que era aquilo. Mau-olhado. Olho-gordo. Isso a menina já conhecia. Teve muito. Da namorada do filho da dona Nazaré. Do quarto da filha de dona Nazaré. A menina entendeu o que era, mas não pegou o recado de dona Jacirene e continuou seu sofrimento.

Soltava golfadas no meio da noite. Seus pêlos caíam pela manhã. Os cabelos, à tarde. Seus cílios murchavam. A menina começou a sentir falta da dona Nazaré. Só via a comida entrando por baixo da porta. Só sentia o cheiro do feijão quente. Outro dia, chorou sem soluço ou lágrimas por não poder chamar ninguém. Nem dona Nazaré, nem Jacirene, nem mamãe. A mamãe. No dia de uma dessas saudades, a menina começou a respirar de cinco em cinco minutos. Era um sopro sem força. A barriga a entupia. Num dos últimos cinco minutos, ela ouviu, bem longe, um alvoroço, uma gritaria, que pensou que fosse até sua mãe com as irmãs. Depois os cinco minutos ficaram mais longos.

A polícia arrombou a porta. Num supetão, o delegado voltou para trás com nojo, tampando o nariz. Dona Nazaré chorava sentada embaixo da mangueira. Chovia muito naquele dia e o porão estava cheio de folhas, garrafas, potes de plástico. Para fazer a autópsia, os legistas tiveram que lavar o corpo. Havia um rasgo cortando a barriga, cheio de pedaços de espinhas de peixe.


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