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Arnaldo Nogueira Jr


Leandro Henrique (1986), é compositor e poeta. Até o momento, nenhum trabalho publicado.


Origami

Leandro Henrique


Sushi é peixe com olho puxado. Nunca viu olhinho dele "assiím" no meio de arroz e algas?

Japoneses os meus bisavós. Avós os meus japoneses. E brasileira — meus pais — com japonês: acabei mestiço.

Rezei muita fé pra não puxar meu pai e olho de meu pai não puxar o meu. Até arregalava os olhos. Mas ele persuadia.

— Filho, quanto maior o olho, menor a paisagem.

Só maiorzinho fui entender. Primeira vez que fui à cidade grande, Ésse-Pê. Olhei cima de tudo, prédios todos muito altos, girafastados do chão, com que desespero agarravam o céu, literalmente arranhavam-no. Aquela predaiada toda sentada no lugar de senhoras árvores. Olho grande foi quem mandou fazer, gordôlhos... Olho grandemais minimumifica a paisagem.

— Uai, filho! Voltou? Por caus' de quê?

— Mas não é volta, ô pai. Novos, os olhos vêem o lugar pela primeira vez.

Com que sorriso reparou nos dois sinais-de-menos em lugar de meus arregalados.

— Filho, quanto menor o olho, maior o sorriso, vê?

E o sorriso dele grudou na minha memória. Desde então, forcei mão na enxada para ajudá-lo. Apertava os olhos com toda a força só para ver o sorriso dele maior!

Mas teve o dia em que sua boca sublinhou a tristeza dos olhos. Abriu com a dele a minha destra para logo fechá-la com a canhota. Pedaço de papel era passagem de avião.

— Amanhã cedo viajamos.

Ninguém perguntou nada, pressentimos.

O Japão em ideogramas era muito mais bonito do que qualquer tradução feita em português. Aquela casinha onde moravam meus avós, o que significava em palavras? Lá aprendi que cada palavra é uma casinha onde moram muitos sentidos.

Ao tirar os sapatos, conheci meus pés, muito prazer! nunca mais calcei-os.

Meu avô, ancião, ansiava. Pelo quê? Fez gesto bruto pras mulheres. Quando elas saíram, dobrou-se todo de dor. Tsuru... Só os homens, tios, meu pai e eu, redor da cama. Olhou pra mim e resmungou. Meu pai traduziu.

— Saquê.

Mulher tem ciúmes da bebida. Avó me viu sair da cozinha com a pinga, resmungou, mas ninguém traduziu.

Avô deu o primeiro gole com a última boca. Resmungou para meu pai cuja obediência abriu a janela. Para a alma dele sair? Avôo... Goteira nos olhos da gente. Encheu-se baldes vida afora.


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