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Arnaldo Nogueira Jr


Laura Prado de Assis (1979), é jornalista por formação e escritora por opção. Afirma que gosta de cantar, tocar violino, comer Doritos, assistir musicais e, claro, escrever!
Suas maiores influências na escrita são Woody Allen e José Saramago. Mantém um blog que diz ser bastante aleatório


http://sakura.nazsco.com.br


Aflerção

Laura Prado de Assis


— Oi, quero uma caixa.

— Uma caixa de que tipo?

— Ah, não sei. Uma assim.

— Que cor?

— Ah, pode ser qualquer uma. Não, espera. Tem branco?

— Tem, claro. Tem branco, azul, bege, lilás, vermelho, rosa e preto.

— Preto? Alguém compra caixa preta?

— Algumas pessoas compram.

— Mas, pensa, pra quê serve?

— Olha, não sei. Talvez para dar presente pra homem. Embalagem de presente de homem é sempre preta.

— É, verdade. Sempre que eu ganho perfume, a caixa é preta.

— Tá vendo? Vai levar a branca então?

— Na verdade, agora estou em dúvida. Por que eu queria passar uma fita em volta da caixa. Você acha que vermelho e branco fica bem?

— É pra menina ou menino?

— É pra minha mulher...

— Ah, então fica. O branco lembra pureza e amor infinito. O vermelho lembra paixão. Combina bem.

— Nossa, você entende dessas coisas, hein?

— É, eu fiz um curso de psicologia das cores. Uma coisa maravilhosa.

— Mesmo? Que louco... e o que representa o verde?

— Ahn, bem, eu não... ah, o verde é dinheiro. Atrai fortuna.

— Mas isso já não é crendice, que nem cueca amarela no Ano Novo?

— Não, não. Faz parte da psicologia das cores. Juro.

— Ok... bem, então, você acha melhor caixinha vermelha com fita branca ou o
contrário?

— Faz assim: pega a caixinha rosa e passa fita vermelha e branca, uma sobre a outra. Fica bárbaro.

— Nossa, faz anos que eu não ouço ninguém dizer "bárbaro".

— É, eu moro com minha avó e ela vive usando umas expressões engraçadas. Acho que acabei pegando.

— Eu sei como é. Eu outro dia me peguei falando "cáspita", por causa de um colega de trabalho que deve estar passando dos sessenta e trá lá lá.

— Passadinho o moço. Você faz o quê?

— Sou contador.

— E tão novinho já está casado?

— Sabe como é... eu engravidei ela e aí, foi. Casamos. Mas tudo bem. Não odeio ela. Ainda.

— Mas e o filho, já nasceu?

— Na verdade, morreu no parto. Foi uma tristeza pra toda a família.

— Puxa, que pena. Meus pêsames. Deve ser dureza.

— Nem me fale. Foi uma época horrorosa da minha vida. Posso ver a fita rosa?

— Claro. Tome. Mas e agora, vocês estão juntos, sem o filho. Por que ainda estão casados?

— Depois de todo o drama, fiquei meio que sem jeito de largar ela. E a gente se trata meio que como colega de quarto hoje. A gente divide o aluguel, racha a comida, e tal. Mas ela não cozinha pra mim, nem nada.

— Mesmo? Que coisa! Mas como não cozinha?

— È que ela também trabalha. Não ia obrigar a cozinhar. A gente tem empregada.

— Ah, sendo assim...

— Essa fita até que é legal. Mas não é meio brega um homem carregando um pacote de fita rosa na rua?

— Ah, deixa disso. Um homem assim que nem você, ninguém ia achar nada...

— Você ia achar ridículo?

— Que isso. Ia achar o máximo. Se fosse eu no lugar dela, ai, ia adorar.

— Dá umas indiretas pro seu namorado...

— Que namorado? Eu não tenho.

— Mas como não? Oras, então é por que não quer.

— Não falta vontade. Falta é mão-de-obra no mercado. É cada traste que me aparece.

— Tem muito canalha sim. Mas sempre tem os bonzinhos também.

— É? Onde? Me conta que eu não tou sabendo... Ah! Tenta com a fita lilás na caixa branca. Acho que fica delicado.

— Você tem bom gosto. Mas acho que minha mulher nem ia notar. Ela nem liga pra essas coisas de embalagem.

— Que absurdo. E você, tão atencioso, se desperdiçando assim.

— Às vezes eu penso assim, mas acho que é presunção minha.

— Que presunção que nada, viu. O que tem de mulher procurando alguém meigo assim, não tá no mapa.

— Puxa, fico mais feliz de saber que a culpa não é minha.

— Você é um homem decente, só isso.

— Você acha mesmo?

— Claro, imagina. Conto nos dedos as vezes em que vi algum homem entrar aqui preocupado assim com o presente da namorada.

— Nossa, fico lisonjeado.

— E, aí, qual fita vai levar? E a caixa?

— É, eu estava pensando... acho que nem vale a pena. Você quer sair comigo?

— Mas você tem mulher... acho errado.

— É, mas eu ia terminar com ela mesmo. Não está mais funcionando, sabe? Essa coisa de viver como amigos não é pra mim. Quero alguém que goste de mim e que eu goste. E, sei lá, senti uma conexão com você.

— Mas e o presente dela?

— Ah, toma, fica pra você.

— Brigada, sempre adorei chocolate!

— Nossa, parece até que eu adivinhei.

— Você é uma graça.

— Você é duas.


E-Mail: lauraprado@uol.com.br

 

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