Pedra retorcida

João de Moraes Filho


Durante algum tempo,
hesitei abrir aquela porta.


O sentido de toda cidade
estava atado, como um nó,
lá dentro. Talvez fosse
o que jamais procurasse:
o sentido das coisas
explicadas por trás das portas.


Algumas Ruas também
hesitei atravessar.
Eram incansáveis e longas,
como as noites brincadas
lá fora, onde tudo mais cabia.


Em verdade,
nada procurava
além de um pequeno gole
guardado ou esquecido
por trás daquela porta verde:
sem trancas, maçanetas e levemente arranhada
com a dor de abri-la.


Os olhos esverdeados
acompanhavam a inquietação do vento
se infiltrando pela porta exilada
como quem fala: ó de casa!


(As Ruas atravessam o tempo não vencido).


Aquela porta que  hesitei abrir
largou mão de sua fronteira
e deu lugar a janelas
que me assombram pacientes
até que o frio as feche novamente.


Faz frio por detrás das portas retorcidas;
o outro nos decifra,
enquanto se esconde.


João de Moraes Filho (1977) é um jovem poeta baiano que ganhou, há pouco tempo, um dos mais importantes prêmios concedidos a novos escritores: o "Braskem de Cultura e Arte - Literatura 2004". De seu livro "Pedra retorcida",  editora Fundação Casa de Jorge Amado - Salvador (BA), 2004, pág. 51, extraímos a poesia ao lado .

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