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Arnaldo Nogueira Jr


Jorge Antonio Mendes (1957), mora em Novo Hamburgo — RS, onde é comerciante. Tem dois livros publicados: "O Resgate das Ilusões" — novela literária, 1993, e "Objetos de Valor" — contos, 1995. Foi premiado em vários concursos de contos — o primeiro em 1975 — e, desde então, não parou de escrever e de se interessar por literatura.


O destino chega com o verão

Jorge Antonio Mendes


Olhava as pessoas da sala e parecia que o calor aumentava. Todos estavam furiosos, queixavam-se do calor, de tudo, da vida, inquietos. Um radinho tocava músicas sertanejas e para nos azucrinar mais ainda, também informava a temperatura. Trinta e cinco graus. Tinha vontade de parar de pensar. Sair dali correndo e atirar-me na primeira poça d'água que encontrasse. Beber uma cerveja gelada. Fugir. Levei a mão à nuca, senti o suor correndo, e fiquei assim por algum tempo. Tempo suficiente para lembrar-me da Débora. Os pensamentos surgiram como relâmpagos, onde eu apenas captava o que me interessava e mais me convinha.

Por um momento, tive a sensação que estava deslizando pelo pescoço dela.

Suavemente.

Nem me lembro mais como conheci Débora. Somente sei que foi na festa de passagem do século. Surgiu na minha frente, linda, insinuante, e aquela boate tornou-se pequena para nós. Mas isto não importa muito, pois acho que a coincidência de nosso encontro, talvez não tivesse sido tão coincidente assim. Com os meus 58 anos e ela com 26, formamos um casal que chamava mais atenção pela diferença de idade, do que por outras coisas. Mas a verdade é que me apaixonei. De cara. Era como se tivesse ganhado na loteria, mesmo que não precisasse disto, pois vivia bem financeiramente, desde aquele desfalque que dei na firma... E ela surgiu assim, como um prêmio para mim. Era a juventude vindo ao meu encontro. Como poderia não me apaixonar? Podia resgatar todo um passado de infelicidades amorosas e com uma mulher bem mais nova que eu. Em uma semana estávamos apaixonados. Em um mês achávamos que tínhamos nascido um para o outro. E eu cada vez mais cego para as circunstâncias. Decidimos ir morar numa cidade litorânea. Aluguei uma casa para passarmos o verão. E aí os problemas começaram a surgir. Fazia dois meses que morávamos juntos. Não me importava com o dinheiro que dava para ela. Estava completamente extasiado com aquela mulher que fazia tudo o quê eu queria.

Um dia me falou que um ex-namorado a tinha ameaçado de morte, alguns anos atrás, caso não reatasse o namoro com ele e mostrou-me a ocorrência policial. E ele, agora, voltara e pedia dinheiro para afastar-se, definitivamente, de sua vida. Não dei a quantia que ela pediu, mas a minha desconfiança surgiu intensa. Senti que as coisas não eram tão fáceis assim, como eu estava pensando. E comecei a vigiá-la.

Maldita desconfiança, problema insolúvel e que me persegue eternamente.

Quem procura problemas, sempre acha. Encontrei mais um. Quando descobri que eles estavam armando alguma coisa para mim, fiquei mais atento. Um dia ouvi-a dizer ao seu amigo, no telefone, que estava na hora de dar o golpe no velho. Minha vida mudou. Do amor surgiu o ódio e deste a vingança.

E naquela noite, enquanto explodiam os foguetes na praia, enquanto o calor se fazia eterno, nos amamos, eu acariciando seu corpo, moreno, suado, a mão subindo, chegando ao seu pescoço, acariciei-o suavemente, senti sua carne, vi seus olhos abrindo-se cada vez mais, e fui pressionando o pescoço até não conseguir mais.

Após dois dias, recebi a visita do amigo de Débora, dizendo ter certeza que eu a tinha matado. Olhei, demoradamente, para ele e disse que também tinha certeza que existia uma ocorrência policial de ameaça de morte dele para com ela. Ficamos, por alguns momentos, que pareceram minutos, nos olhando, ele virou-se e foi embora para sempre.

E agora estou aqui, nesta repartição pública, para prestar depoimento sobre o sumiço de Débora. O calor é intenso. Nunca vi um mês de março assim. Vou dizer que não sei o seu paradeiro. Que fomos apenas namorados. Vou falar que este velho aqui, nem imagina onde está a Débora. Velho. Imagina, eu velho? Como fiquei magoado quando ela me chamou de velho. Nestes momentos, tenho tido muita sorte, pois não é a primeira vez que acontece isto e achar desculpas para certos atos é o meu forte. E se um dia a verdade surgir, vou pensar em algo. Até lá, quem sabe, as coisas estejam diferentes em minha vida. Vou arranjar uma namorada de minha idade.

Pelo menos não corro o risco de ser chamado de velho.

— Senhor Valério, pode passar, o delegado quer falar com o senhor.

Entro na sala dizendo:

— Que caloraço, doutor.


E-mail:
jantmendes@globo.com

 

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