Maria

Heringer

 

Encontrei Maria
Coberta de andrajos
Nas ruas do Rio
Sozinha que estava
Sentada à calçada
À espera dos anjos
Ou mesmo de um pão
E gemia de fome
E tremia de frio
E era o domingo
Da Ressurreição


E fizemos um trato
Eu traria comida
E ela então contaria
Pra posteridade
Sua história de vida
A bem da verdade
Uma saga vivida
Entre a cruz e a espada
Entre o Norte e o Sul
Entre Deus e o diabo
Maria Santinha, do Quixadá!


José e Maria
Fugiram da seca
Largaram a terra
Por sorte melhor
E após vários dias
Sobre um caminhão
Chegaram cansados
E foram saudados
Nos sinaleiros
Por arruaceiros
E esfomeados
E, de olhar empedrado
Do seu Corcovado
Um Cristo impassível
A tudo assistia
Maria dos Aventureiros!


E foi um sufoco
Os dias primeiros
Os dois sem emprego
Sem qualquer sossego
Maria pesada
Pejada, de meses
José sem jaez
Caído de amores
Por outras marias
Deixou-a de vez
Sem dó ou piedade
Maria dos Enjeitados!



Grávida e só
Ela errou nas sarjetas
De seu mundo tacanho
E. sob um viaduto
Inda em construção
Deu à luz um menino
Mirrado e franzino
Um predestinado
Maria da Conceição!


Não se fez feriado
Não vieram Reis Magos
E nem a  televisão
Não chegaram presentes
Nem estrela se viu
Nos céus do Oriente
Só um tipo esquisito
Fora ali, de rogado
E falara algo estranho
E deixara uns trocados
E era um dezembro
Maria da Anunciação!


E chamou-se ao pequeno
João Nazareno
João pelo avô
Que era pai de Maria
Nazareno, o Bisavô
Pai de João
Esse, filho de Davi
Davi fora um índio
Da tribo Tupi
E ganhara o epíteto
De um cúria romano
Ao ser batizado
E fazer-se cristão
Maria da Predestinação!


 
E assim, o mulato
E tupiniquim
Alcunhado Santinho
Bebia em menino
Dos seios maternos
E crescia veloz
Pelas ruas e praças
Em graça e estatura
Entre os homens da lei
E os doutos das massas
Sob a mão protetora
Da mãe abnegada
Maria Auxiliadora!



E ganhou idade
E travou com a cidade
Uma luta renhida
E aprendeu com a vida
A driblar a morte
E foi flanelinha
E bateu carteiras
E afanou idosos
E vagou sem rumos
Por ínfimos mundos
Dia num presídio
Outro num puteiro
Ora num ponto de fumo
Outro na boca de cheiro
E virou proscrito
Pois que estava traçado
Seu destino único
De ser o filho divino
Maria da Consolação!


E, no Morro da Mangueira
Teve, assim, a sua malta
Uma gangue de primeira
E Maria, mãe zelosa
Foi-lhe, enfim, reconduzida
Entre fogos de rojão
E houve samba e batucada
Até o raiar do dia
Pra alegria dos airados
Para a glória do ungido
Maria da Conciliação!


Mas, Santinho alucinado
Rei dos reis, senhor do bando
Travou uma guerra surda
Com um bamba do Comando
E aí, deu-se a desgraça
Na véspera de carnaval
Foi traído e baleado
Com avaria mortal
E tombou, andando a zorros
E o povo cantava um samba
Ave Maria do Morro!



E deixaram-no insepulto
Atado a um tosco tronco
Até perder-se o seu vulto
No lusco-fusco difuso
Do crepúsculo incolor
E o samba se encheu de dores
E o morro se fez de luto
E num cartaz, com ironia
Pendido ao seu peito exangue
Se lia, escrito em sangue
João Nazareno, Rei da Mangueira!
E era uma sexta-feira!
Maria das Fatalidades!


Desde então
Enlouquecida
Maria das Dores, coitada
Perambula na cidade
E mesmo assim, desamparada
Guarda consigo um segredo
"João, seu filho, o Messias
Vai voltar a qualquer dia..."
Disse-me ela, sem medos
"...vem buscar os escolhidos"
Fora um anjo que o dissera
E falara esquisito
E deixara alguns trocados


Ah! Maria Agraciada
O Senhor é convosco
Bendita sois vós
Entre as mulheres
Hoje e sempre
Daqui e acolá
Maria Santíssima do Quixadá!


Luis Carlos Heringer, (1954), é mineiro de Manhumirim, mas vive há muitos anos em Campinas (SP). Chargista, fotógrafo, compositor (sambas de "raiz") poeta e escritor, trabalhou por 23 anos no Banco do Brasil, de onde saiu para fazer o que mais gosta na vida, literalmente: artes! Tem trabalhos publicados na revista “Bundas”, nos "Anjos de Prata" e, atualmente, colabora com o jornal “O Pasquim 21”, bem como com vários portais na Internet. O texto publicado foi remetido ao Releituras pelo autor.

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