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Arnaldo Nogueira Jr


Humberto Bley Menezes, 62 anos, é de Curitiba - Paraná. Não tem livros publicados.


No tempo do fogão de lenha

Humberto Bley Menezes



— Mãe, o menino pequeno ta machucado. Acuda.

— Que aconteceu guria?

— O neném ta machucado. Acuda.

— Bem feito, piá desgraçado, sempre aprontando. Cadê os outros meninos?
— Veja ele ta gritando.

— Vem cá menino, deixe vê isso. Cala a boca. Cadê seu pai, peste?

— Mãe acuda.

— Deixa disso. Fique quieta é fita dele.


Agarrou o menino pelo braço machucado, esticou, aplicou uma massagem com extrato de arnica, enrolou os panos de fraldas velhas dos meninos e mandou dormir.

— Vai dormir infeliz, tenho que terminar a janta. Cama, e não me abra a boca. Se teu pai descobrir te dá uma surra de cinta. Vai, suma daqui.


O outro chegou da pelada.

— Mãe to com fome.

— Cala a boca seu cretino. Onde está o pão que eu te pedi?

— Seu Honório pediu pra pagar a conta do mês primeiro. Não vai dar mais não. Ta atrasado.

— Cretino. E teu pai que não aparece. Coisa ruim.

— Cadê suas botinas?

— Pisei na bosta, deixei no tanque.

— Desgraçado. Vá lavar. Depois deixe no forninho pra secar. Ô vida!


— Oi filha. Como foi de aula?

— To com fome.

— Já vai sair a janta. Espere seu pai chegá.

— Vou trazer mais lenha.

— Traga a moringa lá de baixo no porão. Tire as formigas, pegue um pano limpo lá fora, deixei pra corar.

— Mãe.

— Que que é, menina?

— Preciso trocar os panos. Ta escorrendo nas pernas.

— Deixe pra depois. Os meninos estão por aí. Vou esquentar água pra você se lavá.


Os outros meninos desgarrados pelos cantos da casa ou espalhados pelas traquinagens aos poucos surgiam de suas atividades fora. Os pequenos, do terreiro. Os maiorzinhos das estripulias na rua. As moças mais velhas de seus afazeres dentro de casa e no quintal. Os mais velhos de seus empregos. Treze filhos, mais o marido. Este sempre atrasado.

— Onde estava? Seu irresponsável. Cadê o pão das crianças? E a mistura? Seu desgraçado. Só pensa em política seu imprestável. Vai comê? Tem coragem? Falta mistura nesta sopa. Quem vai arear as panelas pra mim? Que vou dizer amanhã no armazém? Ô vida.


Criançada empoleirada no banco de tábuas, a mesa coberta com oleado vermelho puído nos cantos. Pratos de sopa de feijão com repolho, servidos da panela passando de mão em mão.

— Já falei que primeiro o pai. Depois os pequenos. Podem comer tudo. Não quero que sobre. Junior guardei um ovo cozido. Nem me olhem. Ele tá estudando no ginásio, vai ser doutô, se Deus quiser e teu pai não estragá. Depois de comê vão lavá os pés e dormir. A água está quente no tacho. Sem conversa.


— Mãe...

— Quê menina?

—- Estive pensando...

— Não me venha com conversa...

— Mãe, cadê o pai?

— Não sei e nem quero saber, deve de ta pitando lá fora, na fresca.

— Mãe..

— Menina me deixa. Areie estes talheres. Este fogão ta tão encardido. Preciso de mais areia de arear. Amanhã mando um menino no rio. Teu pai anda tão desleixado, preguiçoso, vive sonhando. A lenha ta pouca. O leite não veio hoje, o pão também. Os meninos precisam levá merenda pra escola. Vou faze pão, broa de centeio. Dá tempo de crescer. Asso de manhã bem cedo.

— Mãe...

— Que menina?

— Nada mãe... nada.

— Vai trocar os panos agora ta tudo dormindo. Pegue a bacia velha. Ta encostada na porta da dispensa. Tem água morna na chapa do fogão.

— Ta bom...

— Sabe filha, tou moída. Sei o que você está pensando. Torço pra se melhor pra você. O futuro ninguém sabe. Por ora é enfrentar a vida deste jeito mesmo. Tou morta de cansada. Mas se os meninos acordarem sem café e roupa limpa, o que vão dizer os vizinhos e os parentes? Pelo menos tão tudo na escola. Procuro dar conta de todo os trabalhos. Não fraquejo. A vida é assim. Não fique com idéias. As coisas são assim mesmo. Sonhar faz sofrer. O que seria sem esta trabalheira toda? Quem ia cuida desta criançada? E eu ia faze o que?

— Tem de ser. Eu entendo a senhora. Bença mãe.

— Vou amassar o pão e me deitá, descansá. To pensando que seu pai ainda vai querer hoje. Ô vida!


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