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Arnaldo Nogueira Jr


Giovana Manfredi  por ela mesma: "Nasci no ABC paulista, mas, guiada pelo amor (e moça obediente que sou), acabei entre o Cristo Redentor e a Floresta da Tijuca. Tenho 29 anos (1977), apesar de duvidar disso todo dia. Escrevo porque senão alucino, ou alucino quando escrevo. Ainda não publiquei nada, mas ganhei alguns concursos, o que me enche de orgulho e satisfação. Ah! Durante o dia me disfarço de jornalista."


Minha primeira morena

Giovana Manfredi


Enfim chegara o grande dia! Minhas mãos magras de menino se retorciam numa ansiedade ainda desconhecida, e suavam com o calor da espera que me ardia no rosto, nos olhos, nas pernas, no pulmão. Era um dia de sol típico dos verões de dezembro. Sentado no canto esquerdo da modesta sala, entre o sofá de couro e a cadeira de balanço do meu avô materno, eu segui religiosamente as instruções do meu pai: — Me espera sentado ali. Não faz arruaça. Veste uma calça comprida — e assim eu estava, sentado ali, sem fazer arruaça e com a melhor calça que eu tinha na época, esperando que meu pai voltasse rápido, ou que o tempo parasse de brincar de esconde-esconde comigo no relógio de madeira da parede. Aqueles 15 minutos demoraram mais de dez horas na minha alucinação infantil.

Quando ouvi o portão da frente ranger, meu coração disparou feito bola de gude jogada com força, feito boiada estourando no pasto, feito bomba de festa de São João. Eu não sabia se obedecia as ordens do meu pai, invariavelmente severo e carrancudo, ou se cumpria a sina da minha vontade e me destrambelhava porta afora. Com medo de perder o jogo aos 45 do segundo tempo, controlei as pernas bambas e permaneci imóvel no local a mim destinado.

Os passos mais densos do meu pai, cruzando o alpendre, indicavam que ele trazia consigo mais do que levara quando saiu. A barulheira aturdida da molecada da rua demonstrava que o que ele carregava era de muito valor para os nossos 10, 11, 15 anos. Meus 12 Natais passados pareciam se concentrar naquele instante.

No momento em que meu pai cruzou a porta da frente, estranhamente esqueci o pacote em suas mãos. O olhar daquele homem sério demais para seus poucos cabelos brancos, bravo demais para a minha sensibilidade infantil, longe demais para o amor da minha mãe, que havia morrido pouco antes, mostrava agora qualquer beleza desconhecida, entre o orgulho de satisfazer o filho e o desejo de expressar um amor que não se confessa. E eu o amei infinitamente.

— Toma! Demorou, mas ta aí — disse para mim, disfarçando a humanidade que nos inundava. E foi então que me concentrei no embrulho, quase do meu tamanho. Arranquei o papelão que a cobria com uma quase ira, um desejo incontrolável. Quando a vi, preta como o cabelo da vizinha mais bonita, quase desmaiei. Era linda! Mais linda que a coisa mais linda que eu já havia visto até então (e penso hoje, mais de 30 anos depois, que nunca mais tive tal deslumbre). Com o devido consentimento do meu pai, levei-a pra fora. Passei entre os olhares dos garotos vizinhos sem notar qualquer inveja e sem querer provocá-la. Montei-a com a paixão que nos finge donos e senhores do que é amado, quando somos na verdade meros serviçais. E com a inquietude da minha infância tão cheia de descaminhos, voei pelas ladeiras do bairro, sentindo no rosto o vento que a vida soprava em mim.

Anos mais tarde, nas aventuras hormonais do meu primeiro amor, senti a mesma incerteza de descoberta, o mesmo atropelamento de sentidos, e quase levei um tapa na cara da namorada quando disse, cheio de orgulho: amo você tanto quanto amei minha primeira bicicleta. Quem entende as mulheres?

E-Mail: giovanamf@uol.com.br

 

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