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Arnaldo Nogueira Jr


Glauber da Rocha  tem 28 anos e é professor de Filosofia. Mora em Campo Grande, MS. Ainda não tem livros publicados e está à procura de editores para publicarem seus livros: "Muita Ironia e Pouca Vergonha na Cara", "Pobres Diabos", "Um buquê de flores para Íris"(contos); 'O Lobo do Circo" e a "Vingança de César" (novelas); e seus romances "O templo dos Malditos" e "Enquanto a Fama não vem".Tem um blog que abriga seus contos.


Os demônios de Dona Otilia

Glauber da Rocha



Todos os dias, assim que a dona Otília chegava em casa, às sete horas da noite, a sua vizinha começava a oração de exorcismo. Otília ficava ouvindo, achando graça nas palavras da evangélica: ó, Senhor, o demônio chegou, o demônio e a sua legião de capetas chegaram, queima eles, Jesus, expulsa! Era engraçado, e Otília divertia-se muito, enquanto colocava lenha no fogão para fazer o jantar.

A casa da dona Otília era a única de madeira naquela rua, tinha pouca iluminação, e o chão era de barro. Ainda não havia asfalto nessa rua, mas a maioria das casas era boa. Na verdade, ninguém conseguia entender o porquê que a prefeitura não asfaltava logo aquela rua, já que ficava num bairro próximo do centro da cidade e bairros mais distantes e mais pobres já eram asfaltados.

Hoje, o asfalto já chegou, e o bairro teve o seu valor reconhecido, e até a casa da dona Otília, que era um casebre feio de madeira, agora se encontra feita de material, tal como as outras, ainda que não tão grandes nem tão belas. Mas o fato é que naquela época a casa da dona Otília era feiíssima, e ela, por ser boliviana, trazendo na face o aspecto indígena, era discriminada por algumas vizinhas – poucas aliás, talvez duas ou três, pois o resto a viam com bons olhos: nem todo mundo tem pré-conceito e ódio dos pobres.

Nem mesmo a sua vizinha crente tinha, antes de converter-se. No entanto, assim que o pastor começou a colocar na cabeça dela toda uma demoniologia, explicando à partir daí a origem e a razão da miséria, ela passou a ter ódio dos pobres. Ou medo, não sei. O que sei é que para essa crente — vale lembrar que nem todos os crentes são assim, e a minha intenção não é ofender religião alguma, nem ninguém — a dona Otília, sua vizinha, era a representação mais cabal do deus da miséria. Otília e Satanás eram pai e filha.

Mas Satanás tem muitos filhos, e Otília tinha portanto muitos irmãos: o seu Tranca-Rua, demônio da morte e da miséria, que impedia o progresso da dona Otília; o seu Zé-Pilintra, demônio da bebida que pegava o marido da dona Otília e fazia dele um bêbado; a Pomba-Gira, demônio da sexualidade que botava desejos insaciáveis em sua filha biscate; e assim por diante, uma legião que acompanhava a dona Otília, segundo a sua vizinha crente.

E não só isso: dona Otília era macumbeira e fazia feitiços todos os dias, era o que ela acreditava – se ela fosse uma dessas vizinhas que ganham coragem para espiar em cima do muro, iria ver que o único feitiço que a dona Otília fazia era o jantar para a sua casa, nada além disso. Portanto, ela não acendia incensos para os Orixás, ela acendia a lenha para o seu fogão, oras bolas. E enquanto cozinhava, divertia-se com os gritos da vizinha crente, sem saber, na sua grande inocência, que tais gritos eram dirigidos para ela e a sua legião de encostos.

Mas um dia, graças a Deus, uma outra vizinha veio falar com ela, dizendo que o que a vizinha crente fazia era algo abominável, que coisas deste tipo não se faz com ninguém, nem mesmo com as piores pessoas do mundo, que é chamar a pessoa de Satanás, de demônio. Como é que é?!, disse a dona Otília. Isso mesmo que a senhora ouviu. Quando ela diz ó Jesus, o demônio chegou, é a você que ela se refere.

Dona Otília ficou triste com isso. Pensou em guardar para si. Mas, sem querer, acabou contando para o marido, na hora em que estavam jantando, na frente da televisão. O marido dela, ouvindo esta ofensa, disse deixa ela comigo, Otília, vou mostrar para ela quem é o demônio aqui. Dito e feito. No outro dia, quando a vizinha crente estava saindo de casa para ir à igreja com uma outra irmã, ele sacou o revólver e mandou bala para o ar, só para assustá-las. Saíram correndo, as duas, e ele, ali mesmo, gritou: isso é para você nunca mais chamar a minha esposa de demônio, sua crente filha da...

Apavoradas, conseguiram chegar à igreja. Falaram com o pastor: é pastor, o demônio quase matou nós duas hoje. O pastor perguntou como. Elas relataram o caso. O pastor diagnosticou: livramento. E rendeu glórias, porque no fim Jesus venceu. Na hora dos testemunhos, lhe chamou para o altar. E lá ela falou que há tempos vem lutando contra o demônio, que o encardido, de tão furioso, quase matou ela e sua amiga e irmã em Cristo nesta noite, mas que para a honra e a glória de Jesus, elas não morreram, e sim foram livres de todo mal.

— Aleluia!, gritou um.

— Glória a Deus —, gritou o outro.

O certo é que lá na igreja delas Jesus venceu, mas, depois deste dia, ela nunca mais ousou fazer uma oração de exorcismo dentro de casa...


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