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Arnaldo Nogueira Jr


João Pedro de Freitas Xavier é natural de Porto Alegre-RS (1967), graduado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Promotor de Justiça no Estado do Rio Grande do Sul, desde 1991; participante e colaborador da Sala de Leitura Tocaio Ferreira (fórum de literatura mantido pelo Grupo de Arte Amador "Os Angueras", de São Borja-RS – www.angueras.com.br).


Relevante questão moral

João Pedro de Freitas Xavier



A igreja estava lotada e todos sofriam os efeitos da onda de calor insuportável que chegara, dias antes, prenunciando o tempo mais quente ainda do verão que se avizinhava. Uma leve aragem provinda dos ventiladores de pedestal, recentemente adquiridos pela paróquia, aliviava um pouco o sofrimento dos fiéis. Deoclécio Brandão, sua esposa Carmelina, juntamente com as filhas e os genros, ocupavam, como de hábito, os assentos da primeira fila de bancos. No encerramento da missa dominical, os olhos do patriarca da família Brandão se encontraram com os do padre Albino Donati no exato instante em que o sacerdote enxugava o suor do rosto e anunciava publicamente o início dos preparativos para os festejos de Santa Bárbara, padroeira daquela cidade da região carbonífera do Rio Grande do Sul, solicitando a colaboração e empenho de todos os membros da paróquia para o sucesso daquela comemoração que haveria de ser especial, como sublinhou o padre.

Deoclécio imediatamente pressentiu que viveria momentos de apreensão, pois em breve começaria a época das rifas, bingos, apólices, almoços para arrecadação de fundos. Antes, já havia percebido o incremento no recebimento das correspondências de felicitações pelos aniversários de pessoas da família, inclusive os de casamento e batizado, que não mais lembrava. O pior de tudo, entretanto, seriam as demoradas visitas da viúva Edith, integrante da Pastoral do Dízimo. No mês de novembro, fizesse chuva ou sol, a mulher do falecido Lédio da Farmácia, ia semanalmente às casas dos fiéis, sob os mais variados pretextos - entregar o jornal da paróquia ou o relatório da prestação de contas (que, obviamente, faria menção à compra dos novos ventiladores), conversar sobre os novos grupos de oração, perguntar sobre a saúde dos familiares e parentes - sempre aproveitando para lembrar do compromisso do dízimo; ela repetia, sem conseguir ocultar seu verdadeiro intento, a mesma cantilena de que "não estava ali para cobrar nada":

— Sr. Brandão, Deus me livre, dízimo não se cobra, se recebe; dízimo não se paga, se oferece.

Decerto, pensava Deoclécio, Dona Edith, como oferente, dizimeira e membro da Comissão de Assuntos Econômicos da Paróquia, se deixara seduzir pelo sermão do Padre Albino: "Deus deseja que Seu povo confie apenas no Seu amor e não nos bens do mundo; partilhar os frutos da bondade divina é cumprir a vontade de Deus; o ato de ofertar revela, por si só, que alguém foi evangelizado e se tornou evangelizador, porque assim procedendo auxilia a anunciar a Palavra de Deus...", pregava o sacerdote, em palavras tão convincentes quanto aquelas que o Polaco, patrolista da prefeitura, sussurrava ao ouvido da viúva, nos encontros amorosos clandestinos mantidos por ambos nos sábados, depois de o funcionário fazer de conta que cumpria meio expediente no parque de máquinas. Polaco, membro da comunidade paroquiana, era casado e tinha seis filhos. A menção ao seu nome ou a qualquer coisa que remotamente pudesse trazer à tona a relação espúria com a viúva era o trunfo do Sr. Brandão para fazer Dona Edith encerrar as visitas. De mãos abanando, como sempre.

Comerciante, pecuarista e agricultor, Deoclécio Brandão, descendente de uma família de tropeiros, tornou-se, antes dos quarenta anos de idade, o homem mais rico da cidade, embora jamais admitisse tal condição. "Vivo do meu trabalho desde os 12 anos de idade; se não trabalho, morro de fome", dizia. A verdade é que com a fortuna amealhada, poderia se manter pelo resto da vida apenas com a renda do capital depositado no banco, sem falar no gado que engordava nas invernadas, nos lucros da empresa Comercial Brandão Ltda. e dos aluguéis dos inúmeros imóveis de sua propriedade — que fazia questão de cobrar pessoalmente, de cada inquilino. Com o avô, o Sr. Brandão aprendera a lição mais importante de sua vida: guardar um quarto de tudo aquilo que ganhasse para assegurar uma velhice tranqüila. O ensinamento foi cumprido à risca e, depois de algum tempo, sobrepujado; Deoclécio separava, como poupança, três quartos dos seus ganhos e vivia com os restantes vinte e cinco por cento, sempre reclamando do valor dos impostos que não recolhia, das pretensões de aumento dos salários dos funcionários que nunca atendia e por aí afora. Aos que o chamavam de sovina, pão-duro e mão-de-vaca, retrucava tratar-se de pessoas indolentes, que não sabiam o valor do dinheiro ganhado com o suor do rosto, como explica o Livro Santo.

Depois da missa de domingo, no entanto, o Senhor Brandão recordava a todo o momento as palavras do padre Albino conclamando os fiéis para auxiliarem com a realização da Festa de Santa Bárbara, no dia 4 de dezembro. Associou o chamamento da última missa ao anúncio feito pelo religioso meses antes, de que iria se aposentar no final daquele ano, tendo recebido da Arquidiocese um convite para cumprir "nova missão" no Seminário Cristo Ressuscitado, em Veranópolis, a Cidade da Longevidade, na Serra Gaúcha. De fato, o padre Albino, homem idoso e doente, não suportaria por muito tempo mais aquela rotina estafante de administrar o templo, celebrar casamentos, batizados, inaugurações, visitar fiéis adoentados, oficiar sepultamentos e tarefas afins, cumpridas, quase sempre, no lombo de cavalo.

De há muito, Padre Albino concluíra o plano a que se propusera quando assumira a Paróquia: a reforma da igreja, a construção do salão paroquial e o saneamento, com sobras, da precária situação financeira deixada pelo seu antecessor, Padre Ivo – que, por sinal, fora vítima de um enfarto fulminante, na época que, desempregado e entregue ao vício do alcoolismo, Luiz Baianinho, ex-coroinha, voltou a morar na cidade, ameaçando, quando sob efeito da "moça branca", revelar segredos do passado que todos faziam de conta desconhecer...

De qualquer sorte, Albino Donati era um sacerdote que granjeara respeito e admiração da comunidade, a ponto de, com a notícia de sua saída, ter sido aprovado, por unanimidade, o projeto de lei de iniciativa do vereador Luiz Chinês, para concessão do título de cidadão honorário ao padre; na cerimônia de entrega da honraria, animada pela banda da Brigada Militar de São Jerônimo, estiveram presentes altas autoridades de todas as cidades vizinhas, inclusive o Deputado Brum, o mais bem votado da região, representando o Sr. Governador do Estado.

Portanto, pensava Deoclécio, o Padre Albino, depois de tantos serviços prestados, tinha, em sua despedida, todo o direito de sonhar com uma Festa da Padroeira em grande estilo, de preferência com a apresentação do Coral dos Meninos Cantores de Santa Cruz e com uma churrascada farta, em vez do tradicional galeto, da galinhada com arroz, ou do carreteiro. Sim, festa de verdade — com "F" maiúsculo nos cartazes estendidos junto à entrada da cidade — era aquela com churrasco de salgar com avião agrícola, como as da época da campanha eleitoral, onde até a indiada pobre dos arrabaldes arrumava um osso de costela para entreter os queixos. Restava ao Sr. Brandão esperar, quieto como água de poço — só esperando o laçaço do balde...

O golpe não demorou: como nunca dantes, ficou difícil escapar dos convites para os eventos de arrecadação de fundos, participação em rifas e apólices; Dona Edith mostrou-se especialmente insistente e ousada, chegando mesmo a fazer de conta que não havia problema algum em se falar do péssimo estado das estradas do município, da necessidade de se chamar o patroleiro para resolver a situação. Deoclécio, com a habilidade adquirida em anos de sovinice, escapou de todas as interpelações do pessoal da Pastoral do Dízimo e da organização da Festa da Padroeria, ainda que soubesse que o maior enfrentamento estava por vir.

E veio a cavalo, vestido de preto, de chapéu e bengala. Padre Albino, em pessoa, chegou à ramada da estância do Sr. Brandão na hora da segunda cambona de água para o chimarrão, sem reclamar do mate lavado que lhe ofereceu o anfitrião. Mirando alto, foi direto ao assunto, reto que nem goela de joão grande:

— Seu Deoclécio, venho lhe pedir duas vacas gordas para o churrasco da Festa da Padroeira. E não aceito não como resposta!

— Duas! – exclamou o fazendeiro —– O Senhor, que administra a Paróquia, bem sabe como as coisas andam difíceis, com esta seca braba que arruinou a lavoura de milho, já ameaçando o plantio do arroz...

— Sei muito bem – tornou o sacerdote — E o Senhor deve recordar que no ano passado foi a aftosa; no ano retrasado, a enchente do Rio da Mina; antes, a crise do carvão, a quebra da Caixa do Sindicato Rural, enfim, sempre houve alguma coisa a impedir sua colaboração para a Festa da Padroeira...

— No ano que vem, quem sabe... — tentou argumentar o Sr. Brandão.

— Pois ano que vem, Seu Deoclécio, depois de quase vinte anos de trabalho nesta Paróquia, estarei, com a graça de Deus, em Veranópolis, como o senhor sabe! Recorde, como homem de fé, daquilo que ensina o Livro Santo: "Quem semeia com largueza também colherá com largueza"; "Dai e vos será dado. Uma medida boa, socada, sacudida e transbordante será colocada na dobra da vossa veste".

Perturbado, o Senhor Brandão deixou virar a cuia de mate ao apoiá-la junto à cambona, apressando-se para apanhar o pouco de erva que caíra, já que o chimarrão da madrugada, era, quase sempre, o mesmo do dia todo. Não vendo outra alternativa, lembrou da vaca brasina que falhara cria dois anos seguidos, dizendo ao sacerdote, com semblante compungido, a mascarar o rebaixamento da pedida do religioso:

— O senhor tem razão, seria uma desfeita de minha parte se não colaborasse com a Festa da Padroeira do ano de sua despedida; em consideração à sua pessoa, vou mandar apartar uma vaca brasina especial. Pode mandar alguém passar aqui amanhã para buscar a rês!

— Se o senhor não se importa, seu Deoclécio, gostaria de levá-la ainda hoje; vou, em seguida, à Estância do Cancelão buscar uma ovelha que o Seu Inácio Fraga doou para os festejos e volto acompanhado do capataz dele até a cidade; quando retornar, passo aqui para pegar a vaca brasina — respondeu, decidido, o Padre Albino.

— Bueno, se o senhor prefere desse jeito, combinado está — retrucou, sem tempo para dizer outra coisa, o Senhor Brandão.

As horas que se seguiram foram as mais angustiantes de toda a vida de Deoclécio Brandão; prometera ao padre Albino doar-lhe uma vaca para a Festa de Santa Bárbara; antes do cair da tarde, o sacerdote retornaria, acompanhado do Negro Adão, capataz dos Fraga, para buscar o animal. Não havia como escapar à palavra empenhada!

E assim se deu. Quando o sol se aproximava do coxilhão da porteira, Deoclécio avistou o Padre Albino, devidamente escoltado pelo Negro Adão, para buscar a rês.

Agora foi a vez do Senhor Brandão ser direto e seco, antes mesmo de o padre fazer menção de dar voz de buenas tardes:

— Padre Abino, o senhor me desculpe, mas não poderei lhe entregar aquela vaca brasina ou qualquer outra! A bem do seu nome, uma relevante questão moral me impede de fazê-lo! Passe, no más, aqui para a ramada que lhe explico tudo em particular!

Enquanto Negro Adão se afastava, Deoclécio, sem deixar o sacerdote se recompor do pealo, foi reiterando a ladainha de sobre as dificuldades dos negócios, ao mesmo tempo em que o Padre Albino, atônito, vasculhava a própria consciência, indagando a si mesmo sobre a "relevante questão moral" suscitada pelo fazendeiro. Seriam respingos das atitudes do antecessor, o finado padre Ivo? Ou, talvez, algo relacionado àqueles documentos de prestação de contas que assinara, inocentemente e de boa-fé, a pedido do Vereador Luiz Chinês e do Deputado Brum, para justificar no Tribunal de Contas auxílio financeiro que a igreja recebera da Prefeitura?

Nesse entretempo, o Senhor Brandão abriu o peito, abreviando a inquietação do padre:

— Padre, o senhor sabe, como todos desta cidade, que eu, durante a minha vida inteira, nunca doei nada à igreja nem a qualquer pessoa ou entidade. Então, se o senhor disser para o povo que eu dei uma vaca para o churrasco da Festa da Padroeira do ano da sua despedida, ninguém vai acreditar — e o senhor, depois de tantos anos de trabalho na paróquia, passará por mentiroso perante a comunidade! Me desculpe, padre Albino, mas em nome da sua imagem pública tenho de voltar atrás na minha promessa!


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