O poste


Francisco Pascoal Pinto de Magalhães


A rua, a esquina, o bar e o poste. Noites frias aquelas de junho de figuras fáceis, chegando e ficando sem sequer precisar pedir o de sempre. No lugar cativo na ponta do balcão, pontual, um cara vazio e seu copo que não esvaziava nunca. O copo americano e o gesto repetitivo de entorná-lo sem culpa, parte de um ritual comum aos presentes.

Talvez tivesse perdido tudo, não se sabe. Vai ver nem apostou... Mirtes, a esposa, sabia o seu papel. Se precisava falar-lhe não cruzava a rua. Um rio intransponível. Fazia um sinal e se entendiam assim. Davam-se bem ao seu modo.

Se Jorge a amava, não demonstrava. Se ela o amava ou o traía, resolviam entre quatro paredes que não as do bar.

Era sempre assim. O álcool aos poucos revelava os obsessores de cada um de nós alcoólicos anônimos. Desabafo, indignação, mágoa, ressentimento, vingança, futebol... Jorge apenas sorria e ouvia. Rugas e dentes. Não dava conselhos nem se mostrava contra ou a favor. Pelo contrário. Sabia isentar-se sem ser insensível, abster-se sem estar abstêmio.

E lá pelas tantas, no limite, pendurava a conta. E saía. E cobria em câmara lenta os cinco metros entre a porta e o poste. Uma eternidade. Como a um velho amigo, dava um abraço longo e afetuoso naquele sustentáculo metálico de fios diversos. E só então falava. Ou resmungava. Ou sabe-se lá o que. Ninguém sabia ou se importava em decifrar; mas eles se entendiam ao seu modo.

Uma daquelas noites, um tolo perverso desses que cumprimentam apertando a mão da gente com excessiva força — para se auto-afirmarem como macho — excedeu a cota e bebeu além da conta (conta de outrem, pois se achava esperto bebendo às custas de terceiros). Expulso por unanimidade da mesa de carteado por truque sujo resolveu descontar em alguém.

Jorge não estava à altura de esboçar qualquer resistência e virou presa fácil. O mal-intencionado recrutou um cúmplice de igual caráter e partiram para a ignorância.

Socos, chutes... Fácil bater em cachorro morto.

Jorge cuspiu. Sangue e dentes amarelos. O poste frio e impassível, no escuro — a lâmpada queimada — testemunhando tudo:

Um Jorge estendido na calçada, desarmado e agredido.

Uma garoa fina que há tempos não caia sobre a cidade violenta molhou seus lábios feridos. Risadas zombeteiras e cuspidas ácidas o atingiram em cheio.

O poste ao seu lado. Único amigo. Fiel até o fim.

E veio a galope o castigo. O Bem punindo e triunfando sobre o Mal na ótica dos que crêem.

E o raio rasgou a escuridão e fez-se curto-circuito nas garras e hastes do transformador — King Kong escalando o poste. Fenômeno natural pela física dos incrédulos.

Raio redentor. Fio condutor. Serpente elétrica. Naja vingadora.

Pendente do poste fez sua escolha e eletrocutou o mal pela raiz.

Carnes passadas do ponto. Mãos crispadas. E Jorge por um triz ileso.

Minutos úmidos contados um a um. Hora difícil. Prece silenciosa e órfã.

Ela, Mirtes, não lhe faltou. Anjo descalço e de camisola — os contornos do corpo quente sob o fino tecido — cruzando a linha tortuosa do asfalto sem pedir licença. Intuição de fêmea que esperou além da conta.

E veio em seu socorro. E Jorge sabia que podia contar com mais alguém além do poste.


Francisco Pascoal Pinto de Magalhães
(1963), cearense radicado em São Paulo desde a adolescência, tem trabalhos publicados no site Anjos de Prata e no Jornal da Zona Sul (São Paulo).

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