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Arnaldo Nogueira Jr


Fábio Leal (1986) nasceu e mora em Recife (PE). Quer estudar cinema, mas acha que vai acabar fazendo Letras. Tem lido Ana Cristina César, Caio Fernando Abreu e Katherine Mansfield, embora, na hora de escrever, seja sempre influenciado pelos contos e crônicas de Woody Allen e Verissimo. “Obviamente sem a mesma qualidade”, diz ele. Seu sonho é, um dia, conseguir escrever algo com mais de uma página.


Arroz

Fábio Leal


Então ela resolveu comer apenas arroz integral por uma semana. Tinha lido numa dessas revistas de dieta que só gordos compram que uma atriz qualquer da novela das seis era adepta do arroz integral. Não que ela fosse gorda. Ela era uma das poucas leitoras magras da revista, disso tinha certeza. O que chamou sua atenção foi que a atriz, cujo nome fugia à memória, dizia que o arroz fazia um processo de repurificação interior. Ela não entendeu exatamente o que seria repurificação interior quando leu a matéria. Ela já havia sido interiormente pura para ser repurificada? De qualquer forma, aquilo era exatamente o que ela estava precisando.

Podia parecer uma bobagem, mas o fato é que ela estava excitadíssima com as perspectivas daquela dieta. Na véspera, preparou um cardápio com todas as variações possíveis de feitura do arroz. Preocupou-se um pouco ao pensar se poderia ou não colocar temperos nos grãos. Resolveu assim: nos primeiros dias, comeria só arroz, pura e simplesmente. Se começasse a enjoar, trocaria alguma porcentagem de pureza por outra de caldo Knorr.

No supermercado, encheu todo um carrinho de arroz integral. Achou o aspecto horrível, aquelas cascas todas. Logo ela, que não comia nem casca de maçã. Vai ver era por isso que a vida dela estava daquele jeito. Passou anos adorando o que fazia, fazendo esforço para decorar o nome de cada aluno. Corrigia provas tentando extrair o máximo do mínimo que os meninos escreviam. E agora estava daquele jeito, invalidando completamente uma questão que não trouxesse Alphonsus de Guimaraens escrito corretamente.

Não agüentou esperar o dia seguinte. Chegou em casa e empanturrou-se de arroz. Achou o gosto péssimo, mas comeu mesmo assim — ou por isso mesmo. Quanto maior o sofrimento, maior a salvação (era assim o ditado? Não lembrava direito...). E tascou aquele molho de pimenta com prazo de validade vencido que estava na última prateleira da porta da geladeira, atrás da mostarda — também fora da validade e também, boa idéia!, jogada no arroz.

Comia de maneira tão voraz que começou a suar. Seu rosto suava tanto, sua testa, seus olhos, que as lentes dos óculos embaçaram. Gotas de suor percorriam lentamente suas costas até dissolverem-se no pano de sua calcinha antiga. Só parou de comer depois de ingerir o último grão de arroz. Olhou para o chão da cozinha, totalmente tomado de sacos e mais sacos do cereal. Sem nenhum esforço, lembrou-se, rapidamente, do casamento de sua irmã mais nova, a única que fez questão de se casar na igreja. Brega como era, não dispensou o arroz jogado como confete, na saída da igreja. Não era arroz integral, obviamente, mas ainda assim era arroz, pensou. E continuou com o raciocínio. Sempre havia sido assim: ela recebia tudo feio e com cascas; a outra ficava com as coisas brancas e parboilizadas.

Mas não havia mais sentido pensar naquilo. A irmã estava longe, morando em São Paulo, separada do marido, não a via há anos. Não pôde deixar de dar um sorriso vitorioso: arroz branco não segura marido. Arroz integral não chama marido, também. Cássia Kiss! Cássia Kiss era o nome da atriz. Cássia Kiss. Ela é cheia de rugas nos olhos, não? E meio flácida, pelancuda. E come esse arroz marrom nojento. Qual era mesmo o telefone do McDonalds?


E-Mail: lealman@uol.com.br

 

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